Esperava-se uma das experiênciais mais extenuantes do festival e as expectativas foram plenamente cumpridas. Os Primitive Man esmagaram o palco ABYSS no primeiro dia do SWR Barroselas Metalfest com um concerto opressivo, físico e devastadoramente intenso.
O tímido Sol ainda não tinha desaparecido completamente no SWR Barroselas Metalfest quando os Primitive Man começaram lentamente a transformar o palco ABYSS numa zona de pressão atmosférica hostil. Pelas 21h do primeiro dia do festival, Barroselas deixou por momentos de ser apenas um recinto festivaleiro e passou a funcionar como câmara de compressão emocional, física e auditiva. Não houve pressa. Nunca há com Primitive Man. O trio de Denver continua a compreender melhor do que quase ninguém que o verdadeiro peso não vive na velocidade, mas na duração. Na repetição. Na insistência.
Lançado a 31 de Outubro de 2025, Observance é, paradoxalmente, a confirmação e a escalada. Doze anos depois de se afirmarem como uma das entidades mais implacáveis do underground, o trio regressou com um disco que não só amplificou a sua linguagem como a fechou ainda mais sobre si própria. Não há concessões. Não há arestas limadas. Há apenas essa compressão — sonora, emocional, existencial. Não há forma elegante de entrar nele.
O disco não abre — abate-se. Como um M1 Abrams, disse alguém, a passar por cima de tudo o que encontra, incluindo quem o ouve. Foi através de “Social Contract” que os Primitive Man nos ofereceram o primeiro choque com aquilo que fazem ao vivo, abrindo o concerto como uma declaração de falência civilizacional amplificada até níveis fisicamente desconfortáveis.
E aquilo que fazem ao vivo dificilmente pode ser descrito apenas como sludge ou doom metal. Isso seria redutor. Primitive Man trabalham antes numa lógica de erosão: riffs lentíssimos que avançam como maquinaria industrial avariada, frequências graves que parecem desregular órgãos internos e uma sensação permanente de colapso iminente. Há concertos que pedem reacção; este exigiu resistência.
Desde Scorn (2013), passando pelo devastador Caustic (2017), pelo sufocante Immersion (2020) ou pelo recente Observance (2025), a banda construiu uma reputação rara mesmo dentro dos círculos mais extremos: a de conseguir tornar o peso quase físico. E em Barroselas isso voltou a sentir-se de forma particularmente clara. O som não ocupava apenas espaço — impunha-se sobre ele. Entrava no peito, nos joelhos, no ritmo respiratório.
Há algo de profundamente desumano na forma como os Primitive Man manipulam repetição e saturação. Mas também existe humanidade ali — embora deformada, exausta, quase terminal. Observance, o mais recente álbum (abre review), já apontava exactamente para isso: um disco esmagador não apenas pelo volume ou densidade, mas pela sensação contínua de desgaste psicológico. Ethan McCarthy escreve como quem expõe feridas abertas à luz industrial de um mundo em decomposição lenta. O medo do colapso social, a ansiedade difusa do presente, a erosão da ideia de futuro — tudo isso atravessa o disco como ruído de fundo constante.
E ao vivo percebe-se ainda melhor que Primitive Man não procuram simplesmente brutalidade. Procuram imersão total. Através de outras imersões, como “Seer”, “Devotion” e “Natural Law”, o concerto no palco ABYSS funcionou quase como extensão natural de Observance: uma experiência opressiva, arrastada e estranhamente hipnótica, onde o som deixou várias vezes de parecer música no sentido convencional para se tornar ambiente, condição, estado mental. Há, pelo meio, pequenas bolsas de ar que surgem de um dos sítios mais inesperados: aberturas nas batidas espertanas, quando Joe Linden (que actuação!) abre grooves mais dinâmicos.




O mais curioso é que, no meio de toda a violência sónica, emerge tristeza. Não aquela melancolia melodramática típica de tantos derivados doom, mas algo mais pesado e difuso — uma espécie de fadiga existencial transformada em amplificação e ecoada nos misantropos vocalizos de McCarthy. Há momentos em que Primitive Man parecem menos interessados em destruir o público do que em obrigá-lo a permanecer dentro desse desconforto. A aguentar.
E talvez seja precisamente aí que reside a força da banda. Porque no final do concerto não ficou exactamente uma sensação de catarse ou libertação. Ficou antes aquela exaustão estranha que certos espectáculos raros conseguem provocar: a impressão de ter atravessado qualquer coisa mais próxima de um fenómeno físico do que de entretenimento. Em Barroselas, os Primitive Man não tocaram apenas um concerto. Impuseram uma presença. Bootleg integral no player seguinte.
