Observance

Observance, Primitive Man

“Observance” é o álbum mais denso e sufocante dos Primitive Man. Um ataque de peso e desespero: um disco esmagador que transforma colapso social em som.

Não há forma elegante de entrar em Observance. O disco não abre — abate-se. Como um M1 Abrams, disse alguém, a passar por cima de tudo o que encontra, incluindo quem o ouve. É pesado ao ponto de se tornar físico, quase táctil. Mas isto são os Primitive Man — ninguém vem aqui à procura de leveza.

Lançado a 31 de Outubro de 2025, Observance é, paradoxalmente, a confirmação e a escalada. Doze anos depois de se afirmarem como uma das entidades mais implacáveis do underground, o trio regressou com um disco que não só amplificou a sua linguagem como a fechou ainda mais sobre si própria. Não há concessões. Não há arestas limadas. Há apenas compressão — sonora, emocional, existencial.

Ethan McCarthy escreve como quem sangra deliberadamente para cima do papel. Há um sistema de símbolos e recorrências que atravessa o disco — também reflectido na arte, da sua autoria — e que aponta directamente para a influência de Tongo Eisen-Martin. Mas McCarthy não está interessado em clarificar nada. Não há respostas aqui, nem sequer falsas respostas. O que há é exposição crua: fracasso, desgaste, colapso pessoal e profissional, tudo isto enquadrado por um mundo onde o contrato social já não passa de uma ficção mal mantida.

Enquanto o ruído mediático se ocupa de trincheiras partidárias, Observance fixa-se noutra fissura — mais silenciosa, mais estrutural. O medo do tecno-feudalismo (abre link), a erosão progressiva dos direitos humanos, a sensação de que o chão está a desaparecer sob os pés. Não como discurso político directo, mas como ansiedade permanente, como ruído de fundo que nunca desaparece.

Musicalmente, o disco é um exercício de obsessão. Joe Linden, Jon Campos e McCarthy mergulharam na composição logo após o álbum anterior, Insurmountable (2022), e isso sente-se: há aqui uma atenção quase patológica ao detalhe, uma construção em camadas que não procura apenas peso, mas saturação. O som não avança — arrasta-se, repete-se, hipnotiza, até deixar de ser música e passar a ser ambiente, estado, condição.

E, no meio de tudo isto, surge algo inesperado: tristeza. Não como elemento decorativo, mas como núcleo. Há uma melancolia densa a infiltrar-se nas fissuras do ruído, como se o colapso já não fosse apenas externo. McCarthy chamou-lhe o disco mais “positivo” da banda, o que à primeira vista parece absurdo — até se perceber que essa positividade não vem da redenção, mas da possibilidade, ainda que remota, de saída. Não luz — mas a ideia de que ela pode existir.

Gravado no Bricktop Recording Studio, em Chicago, com Andy Nelson, e masterizado por Arthur Rizk, Observance soa exactamente como aquilo que representa: um objecto fechado sobre si mesmo, sufocante, meticulosamente construído para esmagar.

Os Primitive Man (da esquerda para a direita): Joe Linden, Ethan Lee McCarthy e Jonathan Campos.

Há também uma dimensão quase corporal em Observance que não pode ser ignorada. Não é apenas o peso — é a forma como ele se instala, como vibra, como parece desregular o próprio ritmo interno de quem ouve. Há momentos em que o disco deixa de soar a composição e passa a funcionar como pressão contínua, como se estivesse mais interessado em testar resistência do que em comunicar. E talvez seja aí que reside a sua verdadeira força: não em dizer algo novo, mas em fazer sentir, de forma brutalmente clara, aquilo que já sabemos e evitamos encarar.

E mesmo assim, fica a sensação de que há mais — mais camadas, mais significados, mais coisas a apodrecer por baixo da superfície. Mas talvez isso seja irrelevante. Porque no fim, tudo converge no mesmo ponto: Observance é gloriosamente inóspito. Não é um disco para suportar. É um disco para aguentar. E há uma diferença grande.

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