Sob o selo Caverna Abismal Records e Chaosphere Recordings, os Exhausted regressaram com The End Of The Sun Season: death/doom fiel às raízes dos anos 90, agora com nova vida e peso renovado.
Há regressos que soam a oportunismo. Outros soam a acerto de contas. O dos Exhausted pertence claramente à segunda categoria. Após quase três décadas de silêncio, a banda de Odivelas emergiu novamente, não como exercício de nostalgia, mas como continuação directa de algo que ficou suspenso no tempo. A assinatura com a Caverna Abismal Records materializou-se em The End of Sun Season, um EP que marca este regresso e reafirma a identidade do grupo.
Os Exhausted mantêm a formação original que definiu a sua sonoridade nos anos 90, recusando a lógica habitual de reinvenção. Em vez disso, retomam um percurso interrompido, mantendo-se enraizados na sua matriz estética. Ao contrário de muitos regressos que optam por reformulações profundas, os Exhausted mantêm-se fiéis ao seu ADN. Riffs de andamento lento, atmosferas saturadas e uma melancolia estrutural continuam a definir a sua abordagem. Mais do que reinventar, o novo trabalho procura consolidar uma herança que nunca desapareceu completamente da memória dos ouvintes.
The End of Sun Season, editado a 26 de Fevereiro de 2026 em CD numa colaboração entre a Caverna Abismal Records e a Chaosphere Recordings (abre link), apresenta material novo e algum revisto, a par da demo Frozen Embrace (1996), há muito considerada uma peça fundamental do underground nacional (abre link).
O regresso concretizou-se com a gravação de um novo álbum nos Buzzroom Studios, entre Abril e Junho de 2024. Trabalho que ficou a cargo de Paulo Basílio, cuja proximidade urbana, etária, estética e sensibilidade para sonoridades densas e atmosféricas se revelaram determinantes. O resultado preserva o peso arrastado característico dos Exhausted, agora com maior definição, sem comprometer o espírito cru que marcou os anos 90.
The End of Sun Season abre com “Falling Sparrow”, uma regravação de uma das faixas da demo original. A nova versão mantém a essência da composição, agora com maior peso, dinâmica e maturidade técnica, funcionando como ponte entre passado e presente. A escolha não é inocente: além do seu valor histórico, o tema surge como homenagem a Mick, vocalista dos Another C.O.W., figura marcante do underground de Odivelas e amigo próximo da banda.
“White Winter”, outra revisão da demo, é esclarecedora na sua escuta. Tal como no primeiro tema, há maior foco nesta versão. A remoção dos teclados redimensiona a malha na massa física: é tudo mais pesado. Isto aumenta a eficácia das harmonizações em intervalos de terceira e quinta, magister tão caro ao death/doom clássico, devido ao fosso mais escavado entre peso e melodia. O final da malha, é avassalador e faz uma transição perfeita para os temas que se seguem, os dois inéditos.
“Silent State” é um poço sem fundo de escuridão e desespero sónicos. Hoje fala-se amiúde em blackened death ou blackened doom, mas para uma geração de doomsters o livro foi escrito por álbuns como Lost Paradise e Gothic, Left Hand Path e Clandestine e Crestfallen ou Mental Funeral. Os guturais de Fernando Marques são abismais. Há outra sensação que se instala a ouvir esta malha: como o vinho das Bodas de Caná (João 2:1-12), a progressão da qualidade é notória.

“Final Chapter” corrobora essa sensação. Das quatro malhas recém-gravados, é a mais desenvolta esteticamente – fundindo mais fontes – e com maior dinamismo instrumental. A jóia da coroa, com uma estrutura em crescendo, num EP que se ouve ele próprio em crescendo. No final, a escuta é tão recompensadora para quem ouvir Exhausted pela primeira vez, como para aqueles que criaram imensas expectativas com este regresso. Nenhuma delas foi defraudada, muito pelo contrário.
A Demo Preservada – Um Deslumbrante Arquivo de ’96
Já na sua fase inicial, os Exhausted revelavam uma identidade que ultrapassava os limites mais ortodoxos do death/doom. Embora existam elementos associados ao chamado “Triunvirato da Peaceville”, a sua sonoridade aproximava-se também da linguagem dos Dead Can Dance — tanto na fase pós-punk como nas incursões posteriores pela música medieval europeia, polirritmias africanas e influências do Médio Oriente.
Frozen Embrace documenta bem essa ambição. “Overflowing Forest”, “Falling Sparrow”, “The White Winter” e “Flames Of Dearly” formam um conjunto de composições que evidenciam uma abordagem invulgarmente rica para a época: uso de vozes femininas como extensão melódica, dinâmicas cuidadas entre o acústico e a distorção, entre leveza e peso, luz e sombra. Apesar de algumas imperfeições — compreensíveis tendo em conta a juventude dos músicos —, a demo permanece como um testemunho claro de visão artística.
