O segredo mais bem guardado de Umeå brota do subsolo. A magnitude intemporal de The Second Wave dos Khoma estreia-se finalmente em vinil através da Red Creek.
Vinte anos após o seu lançamento original, uma das obras-primas mais esquivas, viscerais e aclamadas do espectro do post rock e metal alternativo europeu recebe finalmente o tratamento analógico que a sua densidade exigia. The Second Wave, o icónico segundo álbum dos suecos Khoma, será editado em vinil pela primeira vez a 7 de Julho de 2026, numa edição comemorativa ultra-limitada da Red Creek.
Há geografias que parecem intrinsecamente moldadas para parir arte assente no isolamento, na fricção mecânica e na melancolia climática. A cidade sueca de Umeå é, sem margem para dúvidas, um desses epicentros telúricos. Berço de revoluções que vão do hardcore punk político e retilíneo dos Refused ao metal vanguardista e polirrítmico dos Meshuggah, a gélida localidade nortenha viu nascer, na transição para o novo milénio, um colectivo que rejeitaria qualquer catalogação linear: os Khoma.
Surgidos inicialmente no circuito independente e associados à filosofia DIY, os Khoma fizeram-se notar logo em 2004 com o cataclismo sónico de Tsunami. Contudo, seria dois anos mais tarde, com o advento de The Second Wave, que o colectivo assinaria o seu manifesto definitivo. Foi o registo que proporcionou o salto vertiginoso do underground nórdico para as fileiras da gigante Roadrunner Records — chancela que, na época, albergava titãs de ruptura como Korn, Slipknot, Sepultura ou Turnstile.
Apesar do aplauso unânime da crítica internacional e do estatuto imediato de clássico instantâneo na Suécia, a banda optou por uma postura deliberadamente esquiva, recusando os holofotes e convertendo-se num segredo de culto partilhado em sussurros.
O Entrosamento de Sangue com os Cult of Luna
Falar dos Khoma sem dissecar a sua linhagem partilhada com os Cult of Luna é uma tarefa impossível. As duas bandas não partilham apenas coordenadas geográficas; partilham uma espinha dorsal criativa e uma mesma mundividência artística. No âmago dos Khoma encontramos Johannes Persson — o timoneiro e guitarrista de Cult of Luna — e Fredrik Kihlberg, cuja sensibilidade harmónica e cordas vocais são peças fundamentais no universo dos titãs do post-metal.
Todavia, seria um erro crasso encarar os Khoma como um mero projecto paralelo ou uma extensão menos abrasiva de Cult of Luna. Se estes últimos constroem catedrais de distorção monolítica, progressões hipnóticas e uma agressividade ritualística próxima do sufoco, os Khoma operam numa frequência distinta, focada na fragilidade emocional e na dinâmica do contraste.
O verdadeiro segredo da banda reside no entrosamento entre o peso instrumental cortante oferecido por Persson e Kihlberg e as linhas vocais absolutamente sublimes, limpas e melancólicas de Jan Jämte. Trata-se de uma simbiose perfeita: a fúria e o rigor técnico do post-metal colocados ao serviço de canções de uma sensibilidade pop sombria, onde a urgência do post-hardcore se cruza com o rock progressivo e alternativo mais refinado.
The Second Wave: A Anatomia de um Clássico Intemporal
Ouvir The Second Wave hoje, vinte anos volvidos desde que o mundo o escutou em 2006, provoca um choque de anacronismo. O disco não envelheceu um único segundo. A urgência dramática de faixas como “The Guillotine” ou “Stop Making Sense”, a arquitectura melódica grandiosa e as letras pejadas de uma honestidade desarmante e desespero existencial mantêm o mesmo impacto devastador.
Os Khoma estavam profundamente à frente do seu tempo; criaram um registo que tanto poderia ter sido editado a meio da década de 2000 como na presente data, sem perder uma nesga da sua relevância cultural ou sónica. A produção meticulosa, que equilibra muralhas de guitarras massivas com arranjos subtis e dinâmicas de silêncio e explosão, clamava há muito por uma prensagem que fizesse justiça à sua amplitude dinâmica. O mercado do vinil sofria de uma lacuna histórica ao não possuir esta obra no seu catálogo, uma falha que agora é colmatada de forma categórica.
O Resgate Analógico pela Red Creek
A escolha da Red Creek para capitanear este resgate histórico faz todo o sentido, dado o cordão umbilical que une a editora à actividade dos Cult of Luna e à própria preservação do património sónico de Umeå. Para celebrar este vigésimo aniversário, o álbum foi alvo de uma edição sumptuosa que eleva o estatuto físico da obra de arte.
Distribuído num duplo LP (2LP) em vinil amarelo transparente com efeito marmoreado a preto, o lançamento apresenta-se resguardado por uma capa de abertura tripla (trifold cover) de alta gramagem. Como elemento indispensável para os devotos da banda, o conjunto inclui ainda um extenso caderno (booklet) de 20 páginas, repleto de documentação visual que ajuda a contextualizar a mística do álbum.
Tratando-se de um tesouro há muito cobiçado por audiófilos e colecionadores, a edição está estritamente limitada a 500 cópias mundiais. A urgência da pré-venda justifica-se por si só: um clássico desta envergadura, após duas décadas de silêncio no formato físico analógico, não permanecerá disponível por muito tempo. Sigam o link oficial.


