Thee Plague Of Gentlemen

Thee Plague of Gentlemen, A Queda (1999-2006)

Vinte anos depois do fim abrupto de uma das mais interessantes propostas do underground belga, regressamos a Thee Plague of Gentlemen, a Primula Pestis e aos grotescos acontecimentos que tornaram impossível continuar a ouvir a banda da mesma maneira. Uma história sobre música, violência, responsabilidade e aquilo que sobra quando a arte deixa de poder ser separada de quem a criou.

Há discos que ficam associados a um momento da nossa vida. Uma ideia repetida amiúde, que celebra a arte e a vida em pleno. Todavia, há discos que ficam presos a um acontecimento que altera para sempre a forma como os ouvimos ou deixamos de ouvir, de todo. Primula Pestis, único álbum dos belgas Thee Plague of Gentlemen, pertence à segunda categoria.

Editado em Março de 2005 pela label sueca I Hate Records, o disco apresentou uma banda que parecia reunir condições para ocupar um lugar próprio no circuito europeu do doom e do sludge. Pouco mais de um ano depois, em Julho de 2006, o grupo anunciava o fim. Não por divergências musicais, dificuldades financeiras ou esgotamento criativo. O vocalista e guitarrista Steve MacMillan, nome artístico de Steven Wackenier, tinha sido preso na sequência de acusações de crimes sexuais contra menores. A banda desmembrou-se no mesmo dia dessas notícias e não voltaria a existir.

Vinte anos depois, revisitar Thee Plague of Gentlemen significa regressar a uma música que continua a merecer atenção, mas também a um acontecimento que não pode ser tratado como uma nota biográfica incómoda. A queda foi abrupta, pública e definitiva. E deixou uma pergunta que ultrapassa largamente a história de uma banda belga: o que fazemos com a arte quando descobrimos que quem a criou é capaz de actos que não conseguimos aceitar?

O Peso de Gante

Formados em Gante, em 1999, Thee Plague of Gentlemen cresceram num território musical onde o doom tradicional, o sludge e as linguagens mais extremas do metal se encontravam sem grande preocupação em respeitar fronteiras estilísticas. A banda foi construindo o seu percurso através de EPs, splits e participações em compilações, antes de chegar ao primeiro longa-duração. A formação que gravou Primula Pestis reunia Steve MacMillan na voz e guitarra, Frédéric Caure na guitarra, Steven Van Cauwenbergh no baixo e Eddy De Logi na bateria.

O álbum, gravado no CCR Studio, na Bélgica, entre Novembro e Dezembro de 2004, tinha sete temas e cerca de 44 minutos. Não procurava reinventar o doom, mas também não se limitava a reproduzir a solenidade arrastada de um género já com uma gramática bem estabelecida. Havia a herança evidente de Saint Vitus e The Obsessed, a podridão de Iron Monkey ou Eyehategod, mas também uma agressividade que aproximava algumas passagens de referências mais extremas, particularmente Celtic Frost. Soava como parecia, a combinação: a estrutura do doom clássico contaminada por elementos mais sombrios e ameaçadores, sem recurso a teclados ou arranjos ornamentais.

A voz de MacMillan era uma componente decisiva dessa identidade. Áspera, cavernosa, por vezes quase ameaçadora, encaixava na matéria densa das guitarras e ajudava a dar à banda uma personalidade que não dependia exclusivamente da lentidão dos riffs. O peso não era apenas uma questão de andamento. Havia uma tensão permanente entre a construção arrastada e a possibilidade de a música explodir numa passagem mais directa, mais próxima do heavy metal tradicional.

A sequência de temas também revela uma banda com sentido de composição. “Greek Fire” abre o disco com uma declaração de intenções; “Your Love Is King (of the Dead)” e “The Ocean Has No Sides” desenvolvem a dimensão mais expansiva do repertório; “Pressure & Time” e “As Cold as They Come” aprofundam o lado mais sombrio, este último ultrapassando os dez minutos. “Motown Misfortune” e “The Hidden Elixir” fecham o alinhamento com uma energia que impede o álbum de ficar aprisionado numa única velocidade. A edição limitada em vinil incluía ainda uma versão de “Dawn of Megiddo”, dos Celtic Frost, uma escolha que não deixava dúvidas quanto a algumas das coordenadas estéticas da banda.

Primula Pestis não era uma obra-prima perdida, nem precisa de ser transformado retrospectivamente numa para justificar este regresso. Era um álbum sólido, com personalidade, executado por músicos que conheciam profundamente a tradição em que se movimentavam e sabiam acrescentar-lhe uma dose própria de violência e dinamismo. A participação no festival Doom Shall Rise e as datas europeias com The Gates of Slumber ajudavam a consolidar a presença do grupo num circuito internacional relativamente pequeno, mas particularmente atento às novas propostas do doom.

Em Fevereiro de 2005, a notícia de que a I Hate Records iria editar o álbum descrevia-o como uma massa de peso sónico. A banda preparava uma série de concertos europeus e começava a deixar de ser apenas mais um nome no underground belga. Havia movimento, havia contactos e havia uma trajectória em construção.

Julho de 2006: O Fim

O segundo álbum já estava a começar a ganhar forma quando tudo terminou. O disco seria intitulado SerpentCult e representaria a estreia da banda na francesa Listenable Records. Em Julho de 2006, os músicos tinham acabado de iniciar as gravações no CCR Studios. Era um passo significativo para um grupo que, depois de vários anos de actividade e de um primeiro álbum bem recebido no circuito especializado, parecia finalmente preparado para ampliar o seu alcance.

A 17 de Julho, a notícia do fim dos Thee Plague of Gentlemen começou a circular na imprensa musical. A declaração publicada no site oficial era curta e não deixava margem para ambiguidades: a segunda semana de Julho tinha sido a última semana de existência da banda. Steve MacMillan fora preso por actos criminosos que os restantes membros diziam nunca ter imaginado e que consideravam absolutamente inaceitáveis. Os músicos demarcavam-se integralmente dos seus actos, comportamentos e declarações. «Thee Plague of Gentlemen is no more», concluíam.

Nos dias seguintes, a dimensão do caso tornou-se mais clara. A imprensa belga noticiou acusações de múltiplos abusos sexuais contra crianças. Os relatos contemporâneos referiram a confissão de abusos contra quatro menores (as acusações referiam mais casos), com idades compreendidas entre os cinco e os sete anos, bem como a alegada recolha de fotografias das vítimas. A I Hate Records reagiu retirando Primula Pestis do catálogo. Numa declaração reproduzida pela imprensa especializada, a editora justificou a decisão com os actos criminosos confessados por MacMillan e manifestou solidariedade para com os restantes músicos, que também acabavam por sofrer as consequências da conduta do vocalista.

É importante distinguir os planos. As notícias da altura reproduziram acusações e informações sobre confissões particularmente graves. A informação posteriormente registada nas fontes consultadas indica que a condenação judicial acabou por ser por exposição indecente, e não por violação. Tanto quanto é possível apurar, MacMillan esteve 9 meses preso e a essa pena seguiu-se detenção de 6 meses num centro de reabilitação piquiátrica. Não dispondo de documentação judicial belga que permita reconstruir integralmente o processo, não devemos apresentar as acusações noticiadas como se fossem a qualificação da sentença. Essa cautela não diminui a gravidade do caso nem altera o que levou a banda e a editora a romperem publicamente com MacMillan.

A rapidez da decisão dos restantes músicos é, neste contexto, significativa. Não houve uma tentativa de preservar o nome, substituir o vocalista e continuar como se nada tivesse acontecido. Não houve uma declaração ambígua sobre assuntos privados ou uma separação artificial entre a vida pessoal e a actividade artística. A banda acabou. A editora retirou o disco. O projecto que tinha acabado de iniciar uma nova etapa desapareceu em poucos dias.

SerpentCult

O nome SerpentCult não desapareceu com o fim dos Thee Plague of Gentlemen. Era o título previsto para o segundo álbum e acabou por se tornar a identidade da banda formada pelos três músicos que decidiram continuar: Frédéric Caure, Steven Van Cauwenbergh e Frederik «Cozy» Cosemans, que tinha substituído Eddy De Logi na bateria em 2005.

Numa entrevista concedida em 2009 à Teeth of the Divine, Caure recordava que os músicos voltaram a contactar-se poucos dias depois da separação. Existiam dúvidas, naturalmente. A situação era delicada e o peso do que tinha acontecido não desaparecia por se mudar o nome da banda. Ainda assim, quatro semanas depois já estavam na sala de ensaios e, três meses mais tarde, tinham material suficiente para um EP.

Os Serpentcult não quiseram ser uma simples continuação dos Thee Plague of Gentlemen. A entrada da vocalista Michelle Nocon alterou profundamente a identidade musical do grupo. Caure explicou que a nova formação lhes permitiu afastar-se de algumas limitações estilísticas anteriores, explorar outras soluções melódicas e alargar o campo de influências. O EP Trident Nor Fire chegou em 2007 pela própria I Hate Records. No ano seguinte, Weight of Light, editado pela Rise Above Records, confirmou que os músicos não estavam interessados em viver permanentemente à sombra da banda anterior. Raised by Wolves, em 2011, seria o último álbum de estúdio.

Os Serpentcult acabaram também por suspender actividade, mas a sua existência prova que o fim dos Thee Plague of Gentlemen não significou o fim da vida musical dos restantes elementos. É uma distinção fundamental. A história dos Thee Plague of Gentlemen não pode ser contada como se todos os seus integrantes partilhassem a responsabilidade pelos actos de MacMillan. Os outros músicos foram claros na condenação, terminaram a banda e procuraram construir um caminho diferente. A tragédia que encerrou o primeiro projecto não lhes pertence como culpa.

A Arte Depois de Sabermos

Há vinte anos, uma banda desapareceu porque um dos seus membros cometeu actos que tornaram impossível continuar a partilhar com ele uma identidade artística. O que fazer, então, com o disco que ficou? A história da arte está cheia de criadores cuja vida, comportamento ou posição moral entram em conflito com a admiração que as suas obras suscitam. De Caravaggio a Picasso, de Eric Clapton a Pete Townshend, de Woody Allen a Gabriel Matzneff ou os recentes escândalos em torno de Diddy.

Os exemplos são muito diferentes entre si e não devem ser colocados no mesmo plano. Mas revelam uma constante: a tendência da cultura para proteger, desculpar ou relativizar os comportamentos dos artistas quando o prestígio da obra se torna suficientemente grande. A separação entre obra e autor pode ser intelectualmente defensável. Uma pintura não se reduz à biografia de quem a pintou, tal como uma canção não perde automaticamente as suas qualidades musicais porque o seu autor revelou uma natureza monstruosa. Mas a autonomia estética não cria uma obrigação de consumo, promoção ou celebração. Podemos reconhecer o valor de uma obra sem querer continuar a conviver com ela.

No caso dos Thee Plague of Gentlemen, esta contradição ganha uma dimensão particularmente amarga. Primula Pestis é o único testemunho de uma banda interrompida quando começava a conquistar espaço para além do circuito subterrâneo. O disco não foi provocado pela conduta de MacMillan, mas ficou irremediavelmente marcado por ela. Podemos reconhecer o trabalho de Caure, Van Cauwenbergh e Cosemans sem lhes atribuir a responsabilidade do antigo companheiro; podemos reconhecer o interesse musical do álbum sem transformar essa apreciação numa absolvição. E podemos, simplesmente, decidir não voltar a ouvi-lo. Nenhuma destas posições precisa de ser imposta aos outros.

Não se trata de exigir que a arte seja produzida por pessoas moralmente irrepreensíveis — uma exigência absurda e historicamente impossível. Trata-se de perceber quando a admiração se transforma em cumplicidade, quando a defesa da obra serve para silenciar as vítimas e quando a invocação do génio se torna mais um instrumento de impunidade. O talento não é uma licença, e a relevância artística não apaga a responsabilidade humana.

Talvez seja por isso que Primula Pestis continua a ser tão difícil de revisitar. A música não mudou; mudou aquilo que sabemos sobre quem a fez e, sobretudo, aquilo que já não conseguimos ignorar enquanto a ouvimos. Thee Plague of Gentlemen merecem ser recordados pela música que fizeram, e os seus restantes membros merecem que a sua história não fique reduzida ao crime de um antigo companheiro. Mas recordar a banda implica também recordar por que razão acabou. Vinte anos depois, a queda permanece inseparável da sua identidade — e talvez não exista uma forma confortável de regressar a este disco.

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