Thormenthor

Thormenthor, Dissolved In Absurd

Antes do triunfal “Abstract Divinity”, uma encarnação já bastante técnica dos Thormenthor, mas mais apegada ao old school gravou abriu horizontes com o EP “Dissolved In Absurd”.

Numa conversa com o Miguel Fonseca, há um par de anos, o guitarrista recordava-nos o final dos Thormenthor ou, pelo menos, dessa entidade ou encarnação do grupo, afinal a banda transmutou-se para os MOFO. Fonseca recordava-nos o final e os primeiros anos da lendária banda nacional, na transição da década de 80 para a de 90, com muita agitação no seu seio.

Por exemplo, no início dos anos 90, Fonseca estudou guitarra no Hot Club de Portugal, com os professores norte-americanos que aí leccionaram nesse período, o Eddie Goltz, o David Gausden e o Tahina Rahary. Depois Dorival deixaria a guitarra, e entrou na banda o Pedro Quaresma, acabado de completar um curso de produção musical ao lado do baixista João Paulo Dias. Quando o baterista Pedro Campos ocupou o lugar do Nuno Castedo, no fim de ‘93, os Thormenthor já tinham um nível técnico muito desenvolto.

Foi no topo da cadeia de aprendizagem que podia ter atingido que o quarteto da Margem Sul gravou o “Abstract Divinity”, já com muito background técnico, de acordo com Fonseca: «Depois do “Abstract Divinity” tivemos o mesmo problema que muitas das outras bandas dessa altura tiveram, todas elas atingiram um nível técnico de excelência, um nível de intensidade, de brutalidade e de rapidez muito elevado. Atingiram uma espécie de um muro de criatividade e de extremos e acho que todas se perguntaram ‘o que é que fazemos a seguir?’.»

«Não sei se foi das drogas, se foi de outra influência qualquer da altura ou os nervos, mas aquilo está gravado com uma rapidez inconcebível, nem nunca mais conseguimos tocar aquilo assim. Ao vivo, com a pica da actuação, se calhar, atingimos esse nível, mas pegando numa guitarra é muito difícil tocar aquilo. A solução foi a fusão com outros estilos musicais e foi o que aconteceu com Thormenthor. Atingimos esse pico de criatividade e a partir daí ou era repetir a receita, o que não nos agradava de todo», conclui o músico.

Todavia, essa opção dos Thormenthor terá deixado uma ferida por sarar entre aqueles que já nessa altura seguiam o underground ou que, passando a seguir mais tarde, sempre ouviram referências à banda. Uma escara que promete ser sarada com a reedição de “Abstract Divinity”, anunciada pela Larvae Records.

Antes da sublimação sónica e técnica nesse álbum, a banda prometia imenso nos anos imediatamente anteriores. Quando o death metal começou a seguir a simplificação de processos, que surgiu no género vinda da Escandinávia, foi do nosso país que surgiu a mais estimulante alternativa aos gigantes do death técnico como os Death, Atheist ou Cynic, e foram os Thormenthor. Depois de várias demotapes chegou, no final de 1991, o EP “Dissolved In Absurd”. Ainda distante da excelência do icónico álbum que lhe sucedeu, é talvez mais pesado e brutal, mais tradicionalista e menos vanguardista.

É também mais rígido na sua execução e pouco polido na produção, mas esses eram fenómenos a que quaisquer bandas de metal portuguesas estavam sujeitas no início da última década do milénio passado, pela dificuldade de acesso a bom equipamento, a bons estúdios e a bons espaços de ensaio. Assim, este disco é também uma cápsula temporal que, em 2011, a Raging Planet convenientemente recuperou para a nossa era. A foto que abre o artigo é do Cameraman Metálico.

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