O lindo e imperfeito “Wildhoney”. O disco em que os Tiamat romperam os espartanos clichés do metal gótico, abraçando o xamanismo psicadélico dos Pink Floyd, Cocteau Twins e The Cure.
“Wildhoney” dos Tiamat, lançado em 1994, representa um momento crucial na evolução do metal. Afastando-se das suas raízes death metal, o álbum marcou uma mudança dramática para um som mais sombrio e atmosférico que definiria o emergente género gothic metal. Com as suas melodias assombrosas, letras introspectivas e sons psicadélicos, “Wildhoney” não só ressoou com os fãs como também influenciou significativamente a direcção da música metal nos anos seguintes, sendo um dos baluartes da era dourada da Century Media e das produções de Waldemar Sorychta.
A transformação sónica dos Tiamat neste álbum foi tão marcante quanto inesperada. O sombrio e gélido som blackened death metal, com polimento gótico, marca registada da banda, viu os vocalizos rugidos quase totalmente substituídos por um estilo vocal mais melódico e limpo, acrescentando uma camada de vulnerabilidade e introspecção à música. A instrumentação dos Tiamat também sofreu uma metamorfose, com um trabalho de guitarra intrincado, teclados exuberantes e uma presença pronunciada do baixo, criando uma paisagem sonora rica e envolvente, afastando-se das suas raízes Celtic Frost e aproximando-se da era Gilmour dos Pink Floyd.
Por isso, há uma certa tendência psicadélica em “Wildhoney”. As texturas atmosféricas do álbum, as guitarras arredondadas, digamos assim, e os vocais etéreos evocam uma sensação de maravilhamento onírico. Malhas como “Gaia” e “A Pocket Size Sun” são particularmente evocativas a este respeito, mergulhando o ouvinte em paisagens sónicas hipnóticas que transcendem as convenções tradicionais do metal.
Ao longo deste trabalho dos Tiamat, há uma sensação de melancolia e saudade, bem como um fascínio pelos aspectos mais sombrios da natureza humana. Isto reflecte-se no assombroso carácter melódico do álbum que, em conjunto com as referidas temáticas líricas, convidam o ouvinte a contemplar o seu próprio lugar no mundo. Tudo isto está epitomizado na monumental “Gaia”, cuja suavidade de guitarras e sintetizadores etéreos criam uma sensação de mistério e maravilha, ao mesmo tempo que oferece uma nostalgia incontornável, uma ânsia visceral, por um mundo mais prímevo e natural.
Suicídio, por insuportável amargura amorosa, coração destroçado pelo amor não correspondido, vampirismo e romantizações pueris da morte. Esses temas, aliados a cantores femininas em corpetes, são pilares do gótico. Ao contrário de tudo isto, nas letras de “Wildhoney”, os Tiamat abordam uma variedade de temas, incluindo a espiritualidade, a natureza, o xamanismo como intermediação e a condição humana. O tema-título, a curta e riquíssima introdução instrumental “Wildhoney”, estabelece o tom do álbum com a sua exploração do mundo natural e a interconexão de todas as coisas. Os Tiamat tinham conseguido algo especial.
E logo, de rompante, surge o icónico riff de “Wathever That Hurts” e o surgimento da visão enteogénica: «Honey tea, psilocybe larvae / Honeymoon, silver spoon / Psilocybe tea». Outras canções, como “The Ar” (outro riff absolutamente memorável, logo a seguir a “Whatever That Hurts”) e “Visionaire”, exploram temas mais metafísicos, mergulhando no oculto e nos mistérios do universo.
Estas três malhas foram planeadas para maximizar o impacto da primeira vez que ouvimos “Wildhoney”, porque o álbum pode ser frustrante. As canções são imperfeitas, por vezes um pouco enjoativas, por vezes demasiado longas, por vezes monótonas e repetitivas. “Wildhoney” não é um disco marcante por ser perfeito.
Há discos de transição dos Anathema e dos Katatonia no que toca ao death/doom e ao gothic doom que são melhores, com os riffs de death metal a serem mais desagradáveis e o doom a ser mais rico. E, para o rock gótico mais tradicional, há material que capta essa estranha e etérea fronteira do prog, do psicadelismo e das profundezas sombrias do desespero de forma mais vibrante, grupos como os Cocteau Twins (nos primórdios), This Mortal Coil e os monarcas do género, os The Cure.
O que faz deste “Wildhoney” dos Tiamat um disco tão marcante é uma questão de tempo e lugar, tendo o ouvido dos fãs de metal extremo e apontando-os na direcção do incrível corpo de neo-psychedelia que são os grandes discos do rock gótico dos anos 80. Além disso, mesmo quando o material presente não é isento de falhas, tem um carisma inegável. É fractal e livre, desinibido de pretensões ou grandes arquitecturas.
Há pouco no disco que seja mecânico, com cada riff e ideia sónica a mover-se pela mão severa de um produtor à procura de mais um êxito pop. Pelo contrário, vemos uma jovem banda a remover os grilhões auto-impostos de restrições estilísticas e etiquetas de género para explorar a música que mais adequadamente ressoa nos seus corações.
Para além das suas inovações musicais, “Wildhoney” também serve como um testemunho do poder da evolução artística. A vontade dos Tiamat de abraçar uma nova direcção e explorar território desconhecido é uma lição para qualquer músico ou banda. A popularidade e a influência duradouras do álbum demonstram que correr riscos e ultrapassar limites pode levar a descobertas perenes, pela sua capacidade de transcender as fronteiras do género. E, acima de tudo, é simplesmente um álbum lindo.
Infelizmente, nem os próprios Tiamat não conseguiram cumprir a promessa de “Wildhoney”, fazendo as mesmas tentativas frustrantes de incursões no industrial e as abordagens mais clichés do metal gótico uma e outra vez, ao longo das últimas três décadas. Curiosamente, “A Deeper Kind of Slumber” é uma sequela estilística adequada e, em muitos aspectos, um disco mais bem-sucedido, mas muito menos celebrado.
