Kronos Quartet

Kronos Quartet, Sun Rings

Composto por Terry Riley para quarteto de cordas, coro e com sons espaciais pré-gravados, “Sun Rings” é a primeira gravação completa da produção multimédia homónima dos Kronos Quartet. Encomendada em parte pelo Programa de Arte da NASA, é uma obra-prima que, partindo de ruídos banais e empíricos, adquire beleza e impacto espiritual.

Andy Beta di-lo, muito oportunamente, na Pitchfork. Chamar minimalista a Terry Riley é ignorar uma grande parte da sua história. Sim, o icónico compositor americano e a sua sísmica e emblemática composição de 1964, “In C”, practicamente codificaram o género clássico moderno, mas Riley tem vindo a acrescentar elementos fervilhantes à sua música desde então, mais ambiciosamente com a sua escrita para os Kronos Quartet.

Tendo a sua origem com os quartetos de cordas de “Cadenza on the Night Plain”, de 1985, Riley e os membros dos Kronos Quartet têm mantido um diálogo de décadas. Ao longo do caminho, a música de Riley absorveu muitos outros timbres e ritmos, incluindo jazz, rock, valsa, polirritmia electrónica e música latina (e isto sem contar com os muitos sons contidos no seu épico “Salome Dances For Peace”), de uma forma que é decididamente maximal, mas que ainda assim parece simplificada.

O âmbito de “Sun Rings” de Riley transcende completamente a música terrestre, voltando os ouvidos para os sons para lá da Terra e utilizando gravações enviadas para casa pelas Voyager I e II. O cósmico é inerente às obras mais requintadas de Riley, mas ao torná-lo explícito em “Sun Rings”, esse tema torna-se palpável. Uma voz samplada a falar de “assobios” (ou ondas electromagnéticas de frequência muito baixa, ou VLF) introduz a peça enquanto os sons rodopiam, oriundos de transmissões da NASA e ruídos do espaço sideral. É a partir daqui que discordamos com o escritor nova-iorquino, que desdém deste disco.

Respiração, borbulhar, murmúrios, resmungos, magma, mecânica, assobios, vozes (incluindo as adaptadas electronicamente; e o que sugere uma mudança de design semelhante ao “Animals” Floydiano), pingos, chilreios, mais assobios e outros ruídos, além de música de cordas no seu melhor e excelente canto coral. Assim se realiza uma viagem sem paralelo em torno dos anéis solares. As imagens atmosféricas de “Sun Rings” são cativantes ao ponto de serem esmagadoras.

Os ritmos subtis e palpitantes e as melodias que pairam produzidas pelos Kronos Quartet fazem com que os primeiros movimentos, como “Hero Danger”, sejam agradáveis, embora suaves, de ouvir; a electrónica distorcida aproxima-se do que poderia soar uma remix dos Kronos Quartet. O zumbido metálico obscuro que corre por baixo das elegantes linhas melódicas de “Planet Elf Sindoori” quase faz o tema cair no nebuloso reino do dub. E as coisas começam a adquirir outro substrato.

No ziguezagueante “Beebopterismo” os Kronos Quartet progridem de uma forma estranhamente intrusiva no início, como se estivesse a tentar simplesmente dar a conhecer a sua presença e estabelecer contacto. “The Electron Cyclotron Frequency Parlour” alterna de forma semelhante entre passagens refinadas e alongadas, que nadam entre os detritos sónicos das gravações da Voyager, e um tema mais frenético e dramático que se choca contra si. Mais equilibrada, a carga ruidosa e estridente de “Venus Upstream” sai-se ainda melhor.

A revelação das texturas estranhas e sobrenaturais do espaço exterior pode ter feito das assimetrias de “Sun Rings” uma audição tranquila, mas é quando Riley volta o seu olhar para a Terra e se esforça por fazer épicas abranências que a peça se eleva com os fundamentos em que o ser humano pode ensaiar a infinitude, o coração, a alma e a mente. Coros luminosos surgem na peça central “Prayer Central”, enquanto as vozes recitam linhas da pueril “A Child’s Bedtime Prayer”.

O desejo de Riley de «representar a voz da humanidade na sua luta para compreender o significado do nosso lugar neste universo insondável» espraia-se notavelmente ao longo dos seus 16 minutos e depois no final, não podia ser de outra forma, hesitante em “One Earth, One People, One Love”. «Sabes realmente onde estás neste momento no tempo e no espaço, na realidade e na existência?», pergunta uma voz, enquanto Alice Walker recita a frase titular e pedaços de percussão flutuam na mistura.

Estes samples, em vez de se colarem astruturas estereotipadas de uma malha de ambient house nos anos 90, criando um grande, profundo e culpado prazer de um break, vê Riley e os Kronos Quartet a recriar o quão estranhamente ansiosos nos sentimos diante do desconhecido. Em vez de oferecerem uma libertação e respectiva gratificação máxima, dão-nos o minimalismo e o intrigante imponderável mistério, encarado com o irredutível entusiasmo infantil.

Um pensamento sobre “Kronos Quartet, Sun Rings

Leave a Reply