Tori Amos vai arrancar nova digressão em Abril, em torno do álbum conceptual “In Times of Dragons”. O disco, que faz uma reflexão bastante crítica do actual estado da democracia dos Estados Unidos, já foi introduzido pelo single “Stronger Together”.
Tori Amos nunca foi de meias-palavras, mas a sua mais recente declaração de intenções parece ter subido o tom da urgência. Com o anúncio do seu 18.º álbum de estúdio, In Times of Dragons, a artista norte-americana mergulha de cabeça numa narrativa parabólica sobre o estado da democracia moderna, prometendo um disco que é tanto um manifesto político como uma viagem mística pelo sul profundo dos Estados Unidos.
«In Times of Dragons is a metaphorical story about the fight for Democracy over Tyranny, reflecting the current abhorrent non accidental burning down of democracy in real time by the ‘Dictator believing Lizard Demons’ in their usurpation of America». A frase que acompanha a promoção ao disco não é apenas uma nota de rodapé; é o coração pulsante do projecto.
Tori Amos descreveu o álbum como uma história metafórica sobre a luta entre a Democracia e a Tirania, personificada na figura de um bilionário sádico. Na narrativa do disco (abre link), a protagonista foge deste regime opressor em direcção ao sul americano, encontrando pelo caminho dez personagens distintas — uma para cada canção.
O primeiro vislumbre deste universo chegou-nos no final de fevereiro com o single “Stronger Together”. A canção marca mais uma colaboração vocal com a sua filha, Tash, que aqui interpreta a personagem “The Daughter”. Musicalmente, a canção afasta-se do isolamento melancólico dos seus últimos trabalhos para abraçar um art-pop atmosférico e resiliente, onde as harmonias vocais entre mãe e filha servem como um voto de união contra as forças que tentam “incendiar a democracia”.
Para melhor compreendermos In Times of Dragons, precisamos de olhar para trás, para o disco de 2021, Ocean to Ocean. Naquela altura, Tori Amos estava confinada na Cornualha, lidando com o luto pela morte da sua mãe e a claustrofobia da pandemia. Criou um álbum introspectivo, sobre a cura através da natureza e a reconexão com a terra.
Se Ocean to Ocean era a busca por um porto seguro no meio da tempestade pessoal, In Times of Dragons é a saída desse porto para enfrentar o monstro em campo aberto. A transição é clara: a introspecção deu lugar à acção. Tori Amos parece ter trocado a melancolia salgada das paisagens inglesas pelo calor carregado de electricidade política da América actual. Onde o disco anterior procurava “oxigénio” para sobreviver, o novo procura “fogo” para purificar o sistema.

Com uma digressão mundial já anunciada, que será a sua maior em mais de uma década, Tori Amos prepara-se para levar este “teatro de guerrilha” ao palco. Entre pianos Bösendorfer e arranjos cinemáticos, In Times of Dragons perfila-se como um dos discos mais ambiciosos da sua carreira, provando que, aos 62 anos, a sua voz continua a ser um dos radares mais sensíveis (e afiados) da música contemporânea.
Baú de Raridades
Quase simultaneamente com o single “Stronger Together”, foi lançado “Hoover Factory”, acompanhado de várias outras covers. Embora esteja a ser promovida agora, esta versão de Tori Amos para o clássico de Elvis Costello faz parte da luxuosa reedição de 25.º aniversário de “Strange Little Girls” (o álbum de covers de 2001), lançada em Fevereiro de 2026.
A inclusão desta e de outras raridades, como “Growin’ Up” de Bruce Springsteen (abre link), serve como o aperitivo perfeito para o novo álbum, relembrando a capacidade camaleónica de Tori Amos em habitar identidades alheias para contar verdades desconfortáveis.
