Johnny Kelly descobriu tema inédito das sessões de 1996 dos Type O Negative. A arqueológica cassete está a ser ponderada para figurar como bónus numa edição do 30.º aniversário de “October Rust” em 2026.
A mística em torno dos Type O Negative acaba de ganhar um novo capítulo arqueológico. Numa entrevista recente a Scott Penfold, do podcast Loaded Radio, o baterista Johnny Kelly revelou ter descoberto uma canção inédita que remonta às sessões de composição de October Rust, o quarto álbum de estúdio da banda, lançado em 1996 – alvo de imensos louvores na ROMA INVERSA (abre review). A descoberta ocorreu durante uma limpeza de rotina, na qual Kelly recuperou uma série de cassetes de referência que utilizava para estudar as demos nos anos 90, após as sessões de trabalho na casa do teclista Josh Silver.
A história desta descoberta remete-nos para uma era analógica, onde o processo criativo do quarteto de Brooklyn — composto pelo icónico e saudoso Peter Steele, pelo teclista e produtor Josh Silver, pelo guitarrista Kenny Hickey e pelo próprio Kelly — era documentado de forma rudimentar. Segundo Johnny Kelly, o hábito de levar para casa cassetes de referência após as sessões de estúdio na casa de Josh Silver foi o que permitiu a preservação deste material.
«Escavei um monte de cassetes recentemente e encontrei muita coisa — demos. Na verdade, encontrei uma canção que nunca utilizámos», revelou Kelly numa transcrição disponibilizada pelo portal Blabbermouth. O baterista dos Type O Negative explicou o contexto tecnológico da época, rindo-se da obsolescência dos suportes: «Sempre que trabalhávamos numa canção, eu levava uma cópia para casa no final do dia. Isto foi no tempo em que as cassetes ainda eram usadas; os CDs ainda não eram o padrão no estúdio para referências. Por isso, tenho um monte dessas cassetes de ensaios e demos. Estava apenas a ouvi-las e deparei-me com esta canção».
Uma das questões mais intrigantes sobre este tipo de achados é o motivo pelo qual nunca viram a luz do dia. Na filosofia rigorosa dos Type O Negative, especialmente sob a batuta perfeccionista de Peter Steele e Josh Silver, o controlo de qualidade era implacável. Kelly não tenta dourar a pílula ao descrever o valor artístico intrínseco do tema em comparação com o resto do catálogo: «Na altura, a canção não era forte o suficiente para estar no ‘October Rust’. E se estivéssemos a lançar o álbum hoje, ela continuaria a não entrar no disco. Mas, 30 anos depois, lançá-la como uma faixa bónus em algum projeto, vale a pena».
O baterista revelou ainda que a canção, embora completa na sua estrutura, sofreu um processo de “canibalização” parcial ao longo dos anos. Alguns fragmentos melódicos ou rítmicos acabaram por ser reaproveitados em álbuns posteriores dos Type O Negative, nomeadamente no sucessor de 1999, World Coming Down, ou em Life Is Killing Me (2003). No entanto, o registo agora encontrado preserva a composição original tal como foi concebida no ambiente bucólico e outonal que definiu a estética de 1996.
A possibilidade de o público vir a escutar este “tesouro” dos Type O Negative depende agora de critérios técnicos. Kelly sublinhou que a prioridade é conseguir uma transferência de alta fidelidade a partir do suporte magnético original: «Se conseguirmos uma boa transferência da cassete e conseguirmos uma boa masterização para que soe bem…»

A gestão do espólio dos Type O Negative tem sido feita com pinças desde a morte de Peter Steele em Abril de 2010. Steele, uma figura imponente de dois metros de altura com uma voz de barítono profunda e inconfundível, era o coração e a alma da banda. Sem ele, o grupo dissolveu-se de imediato, mas o seu legado tem experimentado um renascimento cultural sem precedentes, impulsionado por novas gerações que descobriram clássicos como “Black No. 1” e “Love You to Death” através das plataformas digitais e das redes sociais.
Johnny Kelly admitiu que o ano de 2026 será decisivo para os fãs, mas expressou algumas reservas quanto à saturação de lançamentos. Estão actualmente em preparação um álbum ao vivo de Type O Negative e uma caixa comemorativa (box set) de October Rust. «Não sei se é boa política lançar o disco ao vivo, que já anunciámos, e a box set do ‘October Rust’ tudo no mesmo ano. Talvez. Não sei. Teremos de ver. Neste momento, estou apenas a passar pelas cassetes e a ver o que tenho», confessou o músico.
