Menosprezado pelo próprio Ozzy, “The Ultimate Sin” é um dos álbuns mais importantes da sua discografia – no qual a mestria de Jake E. Lee, a produção de Ron Nevison e o impacto de malhões como “Shot in the Dark” conciliaram mundos distintos, redefinindo o som do heavy metal em 1986.
Em 1986, o mundo do Heavy Metal atravessava uma crise de identidade ou, talvez, uma metamorfose inevitável. De um lado, o Thrash Metal emergia das catacumbas com uma violência técnica sem precedentes; do outro, o Hair Metal de Los Angeles dominava as antenas da MTV com laca, maquilhagem e refrões açucarados. No centro deste furacão estava Ozzy Osbourne, o “Príncipe das Trevas”, que precisava de provar que ainda era o soberano de um reino que ele próprio ajudara a fundar com os Black Sabbath. The Ultimate Sin foi a sua resposta: um disco polido, ambicioso e, para muitos puristas, o seu momento mais controverso.
Para irmos ao âmago de The Ultimate Sin, precisamos de despir o disco da sua pele de vinil e entender a psicologia de um homem que, em 1986, permanecia num equilíbrio precário entre a divinização e a autodestruição. Reduzir este álbum a uma lista de canções é ignorar a tempestade que se abatia sobre o castelo de Ozzy Osbourne. Por isso, esqueçamos a estrutura por tópicos e mergulhemos na narrativa contínua desta obra que, quarenta anos depois, continua a ser o capítulo mais incompreendido e visualmente estridente da saga do Madman.
A génese de The Ultimate Sin não é apenas musical; é uma questão de sobrevivência cultural. Como escrevemos, no início de 1986, o heavy metal já não era a fera indomável que os Black Sabbath tinham soltado em Birmingham. Tinha-se tornado um espectáculo de massas, uma indústria de milhões onde a imagem contava tanto como o riff. Ozzy, sempre atento às marés, percebeu que precisava de uma renovação estética. O resultado foi uma metamorfose que começou na própria aparência — com o cabelo farto e ladeado, as roupas de lantejoulas e uma produção sónica que procurava o brilho do diamante em vez da sujidade do carvão.
No centro desta transformação estava a relação, por vezes tensa, mas tecnicamente brilhante, entre Ozzy e o guitarrista Jake E. Lee. É impossível falar deste disco sem reconhecer que ele pertence, em grande parte, à visão arquitectónica de Jake. Após a trágica perda de Randy Rhoads e a transição conturbada em Bark at the Moon (abre link), Ozzy encontrou em Jake E. Lee o arquitecto ideal para a sua nova sonoridade.
Se Randy Rhoads era o espírito clássico e romântico que deu a Ozzy uma nova vida, Jake E. Lee era o operário moderno, um guitarrista que entendia o espaço e o silêncio de uma forma que poucos no heavy metal ousavam explorar. Se Randy era o mestre da fusão neoclássica, Jake era o mestre da textura e do groove moderno. Em The Ultimate Sin, Jake E. Lee não tocou apenas guitarra; abandonou as sombras do álbum anterior para assumir o papel de mestre-de-obras. Os seus solos não são apenas demonstrações de velocidade; são construções lógicas, cheias de harmónicos artificiais (olá, Zakk!) que parecem gritos metálicos arrancados à própria estrutura da canção.
A faixa-título, que abre o disco, é um exemplo perfeito: aquele riff meio arrastado, quase hipnótico conjugado com a batida prímeva de bateria, que prepara o terreno para uma temática obsessiva com a guerra nuclear — um medo latente na cultura popular de 1986. O trabalho de Jake neste álbum é de uma precisão cirúrgica e uma técnica de mão direita que conferia às canções uma crueza que a produção polida de Ron Nevison tentava, por vezes, domesticar.
A produção de Ron Nevison, frequentemente criticada pelo próprio Ozzy em anos posteriores como sendo ‘demasiado polida’, foi na verdade o que permitiu ao álbum furar a barreira do gueto do metal. Nevison trouxe uma compressão e uma clareza que eram estranhas aos trabalhos anteriores. A bateria soava como se fosse tocada numa catedral de vidro e a voz de Ozzy, mais processada e estratificada do que nunca, adquiria uma autoridade quase divina.
A escolha de Ron Nevison para a produção foi estratégica e, ao mesmo tempo, divisiva. Nevison era o homem que transformava bandas de rock em máquinas de vender discos (como faria com os Heart e os Europe). Esta escolha estética não foi um acidente; foi uma tentativa deliberada de colocar Ozzy no mesmo patamar de super-estrelas como os Van Halen ou os Def Leppard. Em The Ultimate Sin, Nevison e Jake E. Lee ele desenharam a sonoridade de Ozzy para uma década inteira!
The Ultimate Sin: 9 Deep Cuts Entre a Guerra e a Solidão
Embora a capa do álbum — com a ilustração de Boris Vallejo apresentando Ozzy como uma criatura alada e uma figura feminina aos seus pés — sugira o habitual imaginário fantástico, o conteúdo lírico de The Ultimate Sin (em grande parte escrito pelo baixista Bob Daisley antes da sua saída e adaptado por Ozzy) é surpreendentemente terreno. Uma vez mais, a faixa-título estabelece o tom temático. Estávamos no auge da Guerra Fria e a obsessão com o “Pecado Supremo” — a aniquilação nuclear — permeava o inconsciente colectivo.




Ozzy, muitas vezes visto como um palhaço trágico, assume aqui a túnica de profeta do apocalipse. A canção arrasta-se com uma gravidade que lembra os tempos de Sabbath, mas com uma sofisticação harmónica que só Jake E. Lee poderia imprimir. Não é uma música sobre o Diabo, como os detractores de Ozzy gostavam de pregar; é uma música sobre a estupidez humana e o poder de carregar no botão que encerra a história da nossa espécie. Quase como um Lado B perfeito para “Crazy Train”.
Seguimos para “Secret Loser”, uma peça que revela a vulnerabilidade que sempre foi o segredo do sucesso de Ozzy junto dos desajustados. O rock, por definição, é a música dos marginais, e Ozzy sempre soube comunicar com o “perdedor anónimo” que reside em cada um. A canção é um prodígio de energia, com um refrão que pede para ser cantado em arenas, mas que no seu âmago carrega uma tristeza profunda. É aqui que percebemos a dualidade deste álbum: por fora, é um produto de consumo rápido dos anos 80; por dentro, é um grito de isolamento de um homem que se sente um estranho no seu próprio sucesso.
“Never Know Why” é outra estrondosa malha de Jake E. Lee a cruzar “Suicide Solution” e “I Don’t Know”, clássicos de Randy Rhoads, com a saturação de distorção contemporânea que abre o caminho ao som de Zakk Wylde em “No Rest For The Wicked” e “No More Tears. O solo é um épico esquecido! Apesar de, vocalmente, ser o tema menos conseguido, “Thank God for the Bomb” soa quase alegre e festiva, enquanto fala da bomba nuclear como a única coisa que mantém a paz através do terror. É o tipo de humor negro que só um britânico de Birmingham poderia conceber.
“Never” é um dos melhores trabalhos de Jake E. Lee e, em retrospectiva, parece apontar para uma malha como “Feeder” (se não conhecem Red Dragon Cartel, fiquem com esta borla). A malha tem uma secção final, quase um prólogo, absolutamente maníaco. “Lightning Strikes” é outro aceno a Randy Rhoads. Estas são duas malhas em diferentes velocidades, mas poderosamente rítmicas, e que demonstram a química perfeita daquela formação, que incluía Randy Castillo na bateria (abre link), um autêntico motor humano que dava ao som de Ozzy uma urgência que ele não tinha desde o início da década.
O álbum atinge o seu zénite na balada pacifista “Killer of Giants”. Aqui, Ozzy dá-nos uma das interpretações vocais mais sentidas da sua carreira. Começando com a Super Strat de Lee em dedilhado, delicada e melancólica, a introdução cresce para um clímax épico onde, antes da canção se desenvolver, a pergunta é lançada ao vácuo: «If none of us believe in war / Then can you tell me what the weapon’s for?» É apenas mais uma reflexão sobre as potências nucleares e um momento de lucidez absoluta num disco muitas vezes acusado de ser apenas entretenimento.
“Fool Like You” e a sua abertura com os harmónicos naturais, seguindo para aquele riffing propulsivo que abriu veredas para a sonoridade de Zakk Wylde, a bateria poderosíssima (o bom e tarola, pum-ta-pum-ta) tão idiossincrática de Castilllo, e os teclados a redimensionarem tudo. É um malhão! E depois, claro, “Shot in the Dark”. Se houvesse uma canção que definisse a perfeição da Pop-Metal, seria esta. Co-escrita com Phil Soussan, a música tem uma introdução de baixo que é instantaneamente reconhecível, criando uma tensão que explode num refrão que é, simultaneamente, sombrio e irresistível.
É a música que levou Ozzy ao topo das tabelas e que provou que ele conseguia ser comercial sem perder a sua essência. A melodia é circular, quase hipnótica, e o solo de Jake E. Lee é uma aula de como servir a canção em vez do ego, é talvez a composição mais perfeita da carreira a solo de Ozzy no que toca ao equilíbrio entre a agressividade do metal e o apelo melódico da rádio.
Néon
Olhando para trás, quarenta anos depois, The Ultimate Sin é mais do que um álbum; é um artefacto histórico. Representa o momento em que o Metal se tornou, definitivamente, a nova Religião Mundial. A digressão que se seguiu foi uma das mais ambiciosas da história do rock ‘n’ roll, culminando naquela noite mítica de 27 de Março de 1986 em que se lhe juntou a Damage Inc.: os Metallica, abriam essas datas a promover Master of Puppets. Foi o choque entre a elegância polida de Jake E. Lee e a fúria crua de James Hetfield.
Apesar de Ozzy ter repetido ser este o seu álbum menos favorito, talvez por causa das memórias de um período de excessos ou da fricção criativa com Phil Soussan e Jake E. Lee, a verdade é que o público nunca o abandonou. Para quem cresceu nos anos 80, a capa de Boris Vallejo e o som de “Shot in the Dark” são portais para uma era onde o perigo e o showbiz caminhavam de mãos dadas.
The Ultimate Sin permanece fascinante. Não é tão cru como Blizzard of Ozz, nem tão experimental como Diary of a Madman, mas é o disco que solidificou Ozzy como uma figura da cultura mainstream sem que ele tivesse de abdicar da sua loucura característica. Foi o “Pecado” que permitiu a Ozzy sobreviver aos anos 80 e entrar na década de 90 como um ícone intocável.
