SWR 26

SWR 26, A Segunda Vinda de Mortiferum

Os Mortiferum regressaram ao chão sagrado de Barroselas com uma actuação monumental de death/doom metal, esmagando o palco com peso, atmosfera e precisão ritualística. Um dos melhores concertos do SWR 26.

À segunda visita a SWR Barroselas Metalfest, os Mortiferum já não precisavam de provar absolutamente nada. A actuação cultual de há três anos (abre review) permanece gravada na memória colectiva do festival como uma das grandes cerimónias de death/doom alguma vez testemunhadas em Barroselas. Ainda assim, as expectativas para este regresso eram absurdamente altas — e, de forma quase desconfortavelmente natural, a banda de Olympia voltou a ultrapassá-las.

Assim que soaram as primeiras notas de “Incubus Of Bloodstained Visions”, o palco mergulhou imediatamente numa espécie de penumbra ritualística onde o tempo parecia desacelerar. Havia qualquer coisa de profundamente cavernoso naquela massa sonora: uma reverberação ampla, húmida e sepulcral, como se o público tivesse sido arrastado para dentro de uma cripta gigantesca onde ecoavam fantasmas de Lost Paradise e Gothic, atravessados pela violência tectónica de Bolt Thrower e pelas harmonizações oblíquas que fizeram de Morbid Angel uma entidade quase metafísica dentro do death metal.

Os Mortiferum não reinventam propriamente o cruzamento entre death e doom. E talvez seja precisamente isso que os torna tão impressionantes. Porque aquilo que fazem não depende de originalidade superficial, mas de equilíbrio absoluto. Tudo no som da banda parece colocado com intenção cirúrgica: os riffs lentíssimos e esmagadores, as acelerações repentinas, os momentos em que a tensão se acumula até explodir numa muralha de distorção e bateria devastadora. Nada soa excessivo. Nada soa gratuito.

Ao vivo, essa arquitectura composicional tornou-se ainda mais evidente. O concerto no SWR 26 funcionou quase como uma tese prática sobre as possibilidades emocionais e físicas do death/doom moderno. Ora éramos esmagados por andamentos lentos e assombrosos, ora surgia — com timing impecável — uma avalanche de riffs brutais e secções rítmicas de violência absolutamente controlada.

Grande parte dessa força veio naturalmente da prestação monumental de Jullian Rhea. Sem exageros cénicos, sem virtuosismo exibicionista, o baterista ofereceu uma das performances mais impressionantes de toda a edição do SWR 26. Espartano, cerebral e devastadoramente preciso, Rhea controlou as dinâmicas do concerto com autoridade rara, alternando entre contenção ritualística e explosões de força quase militares. Cada mudança de andamento parecia respirar organicamente dentro da música.

Também Chase Slaker e Max Bowman confirmaram aquilo que os discos já sugeriam: os Mortiferum compreendem profundamente o poder dos arcanos do death/doom. Os riffs — frequentemente construídos sobre harmonizações de trítonos, terceiras e quintas — nunca precisaram de excesso técnico para atingir impacto máximo. Pelo contrário: foi precisamente a clareza dessas construções que tornou tudo tão hipnótico e pesado. Em palco, as guitarras soaram quase siamesas, movendo-se entre melodia fúnebre e esmagamento absoluto com uma naturalidade impressionante.

E talvez seja essa organicidade o elemento mais fascinante da banda. Apesar do peso colossal, apesar da violência constante, nada nos Mortiferum parece artificial ou calculado em excesso. O concerto no SWR 26 fluiu como um organismo vivo: sombrio, opressivo e estranhamente elegante. No final, ficou a sensação rara de ter assistido não apenas a um grande concerto, mas a uma demonstração absoluta de domínio estilístico. Um daqueles momentos em que um género inteiro parece condensado em cinquenta minutos de peso, reverberação e terror sónico.

Recordem, através do bootleg oficial do SWR 26, a partir da marca 4:07:00, sensivelmente. A foto que ilustra o artigo é de Santi Fernandez.

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