Ulysse 31

A Odisseia Musical de Ulysse 31

A série Ulysse 31 foi uma das mais marcantes séries de animação dos anos 80. A mistura de sci-fi e da Odisseia de Homero agarrou uma geração inteira à RTP, muito por culpa também da sua excelente banda-sonora.

Tendo influenciado um par de gerações, a vibração musical de Ulysse 31, hoje é notória em várias bandas de música electrónica como os “extintos” Daft Punk (que nunca se fizeram rogados em assumir a influência das ost de animações da altura), M83 ou Carpenter Brut.

Na altura de criar a banda sonora para a série, havia muitas opiniões divergentes entre os diferentes produtores sobre o tipo de música que queriam. O Japão queria algo como Star Wars, a França queria rock progressivo/electropop. Então foram criados dois grupos de compositores. De um lado Denny Crockett e Ike Egan, do outro Haim Sabam e Shuki Levy (que assinou He-Man and the Masters of the Universe ou As Misteriosas Cidades do Ouro, por exemplo). Ambas as duplas tiveram que criar muitos estilos diferentes de música e o que acabamos por ouvir como resultado final foi algo muito especial.

O culto por Ulysse 31 e pela sua música nunca esmoreceu totalmente e foi aumentado pela internet. Um dos mais salientes exemplos: David Colin (de nome artístico Parallax) decidiu trabalhar os temas da série, cujos masters originais se perderam e que nunca possuíram partituras. Esse trabalho chegou ao fim em Dezembro de 2014, com a edição de uma caixa de coleccionador. Brilhantemente ilustrada por Jerome Alquié e Benjamin Carré, a caixa de coleccionador contém 3 CDs, em digipack, um livrete de 20 páginas, duplo LP (transparente em 180g), em gatefold, e 6 posters de 30×30 cm e a hipótese de fazer download a demos, outtakes e temas inéditos.

Os temas não são os originais, gravados em 1981, mas re-orquestrações que David Colin (Parallax) fez aos temas que Denny Crockett e Ike Egan compuseram originalmente para a série. A ideia original do projecto era reeditar a banda-sonora original com algumas re-orquestrações a partes da banda-sonora nunca gravadas, contudo surgiram problemas de licenciamento de edição que impediram esta edição.

No entanto, as demos de Parallax, publicadas em 2007 no seu site oficial, tiveram uma enorme resposta dos fãs da série o que levou Colin a avançar com uma re-orquestração inteira da música de Ulysses 31. A encomenda pode ser feita aqui.

Cila & Caríbdis

Se, por acaso, procuram as versões originais, cujos masters perderam-se, o mais aproximado são as versões remasterizadas que foram feitas, em 2013, a partir de cópias da colecção pessoal dos compositores e que foram sobrevivendo em fita através de reel-to-reel. Esta edição da banda sonora de Ulysse 31 é acompanhada por um livrete de 16 páginas que tem notas sobre a história da série e da sua música e sobre os compositores Denny Crickett e Ike Egan, além de entrevista com o primeiro.

A versão portuguesa do genérico (segundo consta, a RTP perdeu as dobragens num acidente técnico e só o genérico acabou por ficar cantado na nossa língua). A série foi transmitida em Portugal entre 1984-85.

De resto, esta banda sonora tem um historial de complicações, sendo uma viagem tão acidentada quanto a do bravo Ulisses de regresso à sua Ítaca. Talvez devido a má edição, há temas bastante distorcidos na série e o próprio genérico apresentava uma notória diferença de pitch da introdução narrada para a versão cantada. Mais tarde os produtores da série enfrentaram um processo judicial, pois o tema “Battle Theme/Ulysse Terrasse le Cyclope” usava descaradamente uma sequência musical de John Williams em “The Empire Strikes Back”.

No Japão, a banda sonora era radicalmente diferente…

Ítaca

Em 2021, foi editada uma nova compilação francesa com a maioria dos temas musicais criadas para a animação franco-japonesa de Ulysse 31. Com duas horas e meia de duração, a qualidade de som é geralmente boa e as liner notes são abrangentes, embora em francês. Infelizmente, parte do material gravado por Shuki Levy e Haim Saban não pôde ser localizado, uma vez mais.

De acordo com as liner notes, a (bastante oxidada) master tape de Levy/Saban é referida como a fonte original, mas cinco faixas estão ausentes, indicando a existência de outra fita. As faixas de Denny Crockett e Ike Egan estão bem representadas: os discos dividem a suas duas sessões de gravação separadas de 1980 e 1981 em segmentos distintos. Após as faixas de Levy/Saban, temos uma série de músicas não utilizadas, incluindo cada tema potencial, que remete para as abordagens distintas de Japão e França, referidas no início.

No final, este é um lançamento fantástico para qualquer fã de Ulysse 31. No entanto, devido às semelhanças entre as muitas faixas alternativas, provavelmente as duas horas e meia de duração poderiam ser expostas em cerca de uma hora de excelente música.

Um pensamento sobre “A Odisseia Musical de Ulysse 31

Leave a Reply