White Pony

White Pony, Deftones

Os Deftones recusaram-se a ser asfixiados por um rótulo oneroso. Chocaram a editora, desafiaram os próprios limites e criaram uma obra-prima de texturas, onde a agressividade convive com a pop etérea e o trip-hop. White Pony foi o disco que partiu o metal alternativo ao meio na viragem do milénio.

No crepúsculo do século XX, a música pesada nos Estados Unidos da América parecia refém de uma fórmula gasta. O chamado nu-metal dominava as tabelas com uma fúria adolescente, musculada e tantas vezes unidimensional, assente em riffs sincopados e frustração suburbana. Foi precisamente a 20 de Junho de 2000 que os Deftones, vindos do calor asfixiante de Sacramento, decidiram cortar as amarras com o movimento que eles próprios tinham ajudado a erguer. Ao entregar White Pony, a banda liderada por Chino Moreno não assinou apenas o seu terceiro longa-duração; estabeleceu o manifesto de uma revolução estética.

O cavalo branco não era um animal de carga; era uma criatura esquiva, nocturna e perigosa, que provava que o metal podia ser imensamente pesado e, em simultâneo, sensual, etéreo e melancólico. A grande viragem sónica de White Pony reside na introdução de um elemento que alteraria para sempre a densidade atmosférica do grupo: a integração definitiva de Frank Delgado nas mesas de mistura e sintetizadores. Delgado deixou de ser um convidado esporádico para passar a ser o arquitecto das sombras do disco.

Se até aí o som dos Deftones se definia pelo choque frontal entre as guitarras demolidoras de Stephen Carpenter e a elasticidade rítmica de Abe Cunningham e Chi Cheng, com White Pony a música passou a respirar através de texturas electrónicas inspiradas no trip-hop dos Massive Attack e no post-punk dos The Cure. Esta dualidade — o peso esmagador dos riffs de Carpenter a conviver pacificamente com as paisagens sonoras geladas de Delgado — criou um magnetismo único. A agressividade já não vinha apenas do soco; vinha da atmosfera opressiva que antecedia o golpe.

Se White Pony é uma descida aos infernos da sedução e da violência, “Feiticeira” é o portal. Arrancando sem aviso prévio com uma linha de bateria sincopada de Abe Cunningham que emula os batimentos cardíacos de uma presa em fuga, a canção estabelece-se sobre a guitarra cirúrgica e cortante de Stephen Carpenter. No entanto, é na narrativa cinematográfica de Chino Moreno — que encarna a perspectiva de uma vítima de sequestro num registo que balança entre o sussurro sensual e o grito lancinante — que a malha atinge o seu estatuto de mito.

Ao recusar a agressividade linear e a frustração óbvia do nu-metal em favor de uma atmosfera de film noir perversa e movediça, os Deftones avisavam o ouvinte, logo nos primeiros três minutos, de que o território do cavalo branco seria profundamente artístico e perigoso.

A prestação vocal de Chino Moreno neste álbum é, sem margem para dúvidas, uma das mais influentes da sua geração. Moreno abandonou a urgência do grito constante para explorar a subtileza do sussurro, criando uma dinâmica de predador e presa na mesma canção. Em “Digital Bath”, um dos temas mais perfeitamente executados do disco, a letra aborda uma fantasia violenta de electrocussão numa banheira, mas a música é de uma beleza hipnótica, onírica, quase ‘pessoana’. A bateria de Cunningham abre espaço para que a voz de Moreno flutue, sedutora e perversa, antes de desabar no refrão onde a dor e o prazer parecem fundir-se.

Agora parece óbvio, mas foi a intuição dos californianos que uniu Depeche Mode e Nine Inch Nails. Esta capacidade de transformar o macabro em algo poeticamente atraente tornou-se a imagem de marca dos Deftones, afastando-os da crueza puramente machista dos seus contemporâneos. O álbum é um labirinto de colaborações e surpresas que atestam a ambição artística do projecto.

O momento mais cinematográfico do disco dá-se em “Passenger”, uma peça de engenharia sónica onde Moreno partilha o microfone com Maynard James Keenan, o enigmático estratega dos Tool. A canção funciona como uma metáfora claustrofóbica sobre a perda de controlo, onde as duas vozes duelam e se entrelaçam sobre um riff de guitarra tenso e monolítico. A interpretação de Keenan, teatral e precisa, casa na perfeição com a entrega orgânica e caótica de Moreno, resultando num dos duetos mais icónicos da história do rock alternativo.

De modo semelhante, “Rx Queen” conta com o toque discreto de Scott Weiland (Stone Temple Pilots) nas harmonias vocais, demonstrando que os Deftones estavam a construir pontes com a nobreza do grunge enquanto os outros se fechavam no gueto do metal suburbano.

Mas onde o disco revela a sua verdadeira faceta de clássico é na sua capacidade de arriscar no inesperado. “Teenager”, uma balada minimalista e melancólica construída sobre uma batida de glitch-hop e dedilhados acústicos, foi originalmente pensada para o projecto paralelo de Moreno, Team Sleep. Colocá-la a meio de um álbum de metal foi um acto de extrema coragem artística que desarmou os puristas e provou que a identidade da banda não dependia da distorção, mas sim da atitude.

Logo a seguir, contudo, o álbum recuperava os dentes com “Elite” — uma malha de agressividade industrial pura que valeria à banda um GRAMMY por Melhor Desempenho Metal (Best Metal Performance) em 2001 — e “Change (In the House of Flies)”, o single definitivo que fixou a estética da banda na cultura mainstream. “Change” é uma canção perfeita na sua simplicidade trágica, um crescendo de tensão que ilustra a metamorfose e a destruição de uma relação, levada às costas por uma linha de baixo hipnótica do falecido Chi Cheng.

A produção de Terry Date merece ser recordada com a devida vénia a quase três décadas distância. Date, que já tinha moldado o som dos Soundgarden e dos Pantera, conseguiu em White Pony o equilíbrio impossível: dar a Carpenter um dos sons de guitarra mais pesados do planeta sem sufocar os sintetizadores milimétricos de Delgado ou a clareza orgânica da secção rítmica. O disco soa imenso, tridimensional e perfeitamente limpo nas suas frequências mais baixas, sobrevivendo à passagem do tempo sem as marcas datadas que arruinaram tantas das produções do ano 2000.

White Pony continua vivo em centenas de bandas modernas que hoje misturam shoegaze, dream-pop e metal. Os Deftones provaram que a música pesada podia ser inteligente, vulnerável e profundamente artística sem perder o seu poder de demolição. Desafiaram as imposições da editora (que mais tarde os forçaria a incluir o single comercial “Back to School” contra a sua vontade nas reedições, um erro que a banda sempre renegou), mantendo a sua integridade intacta. Hoje, quando o cavalo branco volta a galopar nas nossas colunas e ouvimos os ecos sombrios de “Change”, fica a certeza de que os Deftones não criaram apenas um disco de viragem de milénio; esculpiram um monumento eterno à beleza que existe no meio do caos.

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