A discografia dos Wovenhand é uma tremenda colecção de canções, que transporta consigo os fantasmas de Gólgota e Little Bighorn, com um carisma verdadeiramente singular na música contemporânea, desde o homónimo álbum de estreia até “Silver Sash”.
Em Portugal, pela Amplificasom, os Wovenhand tocaram no Hard Club e RCA Club em 2017. Depois de deslumbrarem o Paredes de Coura, em 2005, nesse mesmo ano os Wovenhand passaram no Festival Para Gente Sentada, em Santa Maria da Feira. Em 2009 passaram em Leiria e logo em 2010, a Everything Is New promoveu visitas ao Santiago Alquimista e à Casa da Música.
Então entraram na esfera do Amplifest e, em, pela Amplificasom, os Wovenhand tocaram no Hard Club e RCA Club em nome próprio. No entanto, o nome da banda confunde-se com o do seu líder – David Eugene Edwards – que ao longo dos vários álbuns dos Wovenhand, metodicamente lançados a cada dois anos (até “Star Treatment”), e já antes em 16 Horsepower, nunca perdeu a capacidade de escrever canções lindas de morrer. De desenvolver paisagens sonoras da tundra norte-americana ou com um cheiro à imigração dos sons celtas trazidos pelos irlandeses para a Costa Este, de celebrar a sabedoria ameríndia e cristã.
Lançamos uma perspectiva sobre a discografia dos Wovenhand. Excluimos os discos de bandas-sonoras que os Wovenhand editaram, nomeadamente “Blush” (2003) e “Puur” (2006).
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Wovenhand (2002) | O álbum de estreia preserva, ainda hoje, todo o seu encanto. Originalmente, a banda possuía um som muito mais acústico. E se a presença de elementos da música ameríndia continua presente nos novos álbuns, a suavidade e a beleza simples do neofolk, as letras que evocam passagens veterotestamentárias e uma atmosfera de old-time music, com que a banda iniciou a sua carreira estão aqui encapsulados sem a maior presença eléctrica mais recente. Aliás, neste primeiro álbum, as diferenças para os 16 Horsepower eram, basicamente, nulas. Só o nome tinha mudado. “Wovenhand” é a prova da força que tem o bom songwriting, um álbum deslumbrante.
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Consider The Birds (2004) | Quiçá, o álbum mais marcado pela fé cristã de Eugene Edwards, nas letras e, desde logo, no próprio título – extraído do Sermão da Montanha. O carácter mais narrativo da vocalização, além do piano, acrescenta aos Wovenhand uma dimensão Bad Seeds. “Consider The Birds” tem um maior charme de produção sonora em relação ao primeiro álbum. Com uma mistura mais equilibrada, suavizando a relação entre elementos percussivos, instrumentos de cordas, piano, sanfona e ainda as guitarras eléctricas e acústicas. Nas canções, isto reflectia-se numa maior articulação melódica, com maior densidade e menos ingenuidade.
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Mosaic (2006) | O primeiro álbum depois da dissolução de 16 Horsepower. Um álbum de transição, em que o folk e os arquetípicos de americana se juntam a uma maior sintetização e a estéticas da música folk e religiosa europeia – basta ouvir uma canção como a medievalesca “Swedish Purse” ou “Dirty Blue” para o perceber. Com menor coerência ao longo da tracklist, em comparação aos dois primeiros álbuns, tem ainda assim algumas das melhores canções da banda, como o caso de “Whistling Girl” ou “Bible And Bird”, esta sim, bem yankee.
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Ten Stones (2008) | O primeiro álbum em que é mais notória a tendência pela electricidade. Desde a abertura com “The Beautiful Axe” e “Horse Tail”, Eugene Edwards arquitecta uma fusão majestosa entre elementos folk acústicos e peso de amplificação. Lírica e musicalmente pomposo, como exemplificam temas como “Kingdom Of Ice”, carregado de drones de sanfona, ou o blues de guitarras musculadas e alimentado por foles que é “Kicking Bird”. Com maior amplitude atmosférica, a pregação de Edwards parece também mais reverberada, mais exaltada. Algo apenas atenuado, a meio do disco, com a estranha bossa-nova “Quiet Nights Of Quiet Stars”.
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The Threshingfloor (2010) | O regresso a uma ambiência mais acústica e mais inspirada nas raízes musicais europeias. Curiosamente, a matriz ameríndia é também exposta mais directamente neste álbum, em temas como “Raise Her Hands”. Essa fusão, bem desenvolta sonicamente, parece permitir visualizar mais claramente as próprias raízes espirituais de David Eugene Edwards – um ecumenismo assente na herança dos peregrinos do Novo Continente da velha teologia europeia, mas com um coração xamânico tribal, mais próximo do núcleo primitivo da mensagem cristã. “His Rest” é uma das mais bonitas canções de amor na última década, “Singing Grass” é, simplesmente, bonita.
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The Laughing Stalk (2012) | O álbum da “maioridade”. Onde, mesmo com as canções lideradas pelo carisma vocal de Eugene Edwards, a banda soa com maior coesão, na plenitude potencial. De volta a uma sonoridade mais electrificada, o equilíbrio do álbum, as dinâmicas instrumentais, os pressupostos espirituais e até o carisma do compositor surgem mais depurados de influências externas.
Assim, as canções são mais longas e mais estruturadas numa estética roqueira, quer nos momentos de maior cadência rítmica, quer nos mais expansivos, sem abdicar de nenhum dos fragmentos discográficos anteriores. “Long Horn” abre de forma épica, “King O King” é o poder, “As Wool” é um dos hinos mais imediatos da banda e a colossal “Glistening Back” encerra o álbum, construindo uma ponte perfeita para o seguinte.
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Refractory Obdurate (2014) | Pode especular-se se a edição através da Deathwish será o motivo para este ser o disco mais eléctrico de Wovenhand, afinal o fundador da editora é Jacob Bannon e a gravação esteve a cargo de Sanford Parker. As baterias ritualistas e as guitarras carregadas, em temas como “Masonic Youth”, “Good Shepherd”, “Field Of Hedon” ou “Hiss”, promovem uma sensação pós punk ou pós rock de Swans. Mas este álbum nunca é extremo, Edwards mantém sempre uma acessibilidade “quadrada” e melódica ao longo do disco. Um balanço… pop. Sempre cerimonial, grandioso nos momentos mais cinematográficos como “Salome”, “King David”, “Obdurate Obscura” ou “El-bow”.
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Star Treatment (2016) | No álbum mais recente há uma continuidade estética e sonora, inclusivamente com a repetição de Sanford Parker na produção. Em relação ao disco imediatamente anterior, há talvez mais recurso a sintetização e, no fundo, um sentido ainda mais épico nas canções. Talvez o disco que menos surpreende (traçando o percurso histórico da banda) e talvez o melhor disco dos Wovenhand, aquele em que tudo surge cristalizado.
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Silver Sash (2022) | Um álbum que não chega a ser uma reinvenção, mas soa como um ponto de saturação. Fruto da colaboração intensa entre David Eugene Edwards e o guitarrista e produtor Chuck French, “Silver Sash” apresenta uma construção quase laboratorial — nove canções compostas ao longo de anos, trabalhadas em estúdio com um foco electrónico mais vincado, teclados hipnagógicos e atmosferas industriais. O peso continua, mas deslocado das guitarras para as programações e para uma arquitectura sonora mais cinemática e dissonante.
A voz de Edwards, em modo de profeta febril, vagueia sobre texturas densas e saturadas de distorção, com menor ênfase na melodia tradicional e maior aposta na repetição ritualística. Em certos momentos — como em “The Lash” ou “Dead Dead Beat” — roça o delírio de uns Nine Inch Nails espiritualmente aflitos. É talvez o álbum mais difícil do catálogo Wovenhand, menos orgânico e mais claustrofóbico, mas essa frieza digital acaba por revelar, em filigrana, uma nova faceta do sagrado: o exílio absoluto.
