Steven Adler

Steven Adler, Os Anos da Sunset num beco do Cais do Sodré

Em 2010, Steven Adler estava num bom momento. Tinha concluído um ciclo de reabilitação, estava “limpo”. A lucidez fê-lo concluir e publicar a sua autobiografia; reunir os Adler’s Appetite, escrever e gravar novas malhas e arrancar numa digressão. Lisboa foi uma das cidades eleitas para uma das experiências mais próximas da autenticidade dos tempos dos Guns N’ Roses de “Appetite For Destruction”. Recordamos a nossa conversa com um dos melhores bateristas do hard rock, na antecâmara desse concerto.

O baterista da formação original dos Guns N’ Roses, Steven Adler, acabara de lançar digitalmente dois novos temas do seu projecto Adler’s Appetite, os temas acompanhavam a publicação da autobiografia do baterista, My Appetite for Destruction: Sex, and Drugs, and Guns N’ Roses, no dia 29 de Julho de 2010. “Stardog” e “Fading” também serviam de preâmbulo para um novo EP produzido com o baterista de Cinderella, Fred Coury, e para uma digressão europeia que passou em Lisboa, em Fevereiro de 2011.

A sede de tornar a ser relevante no cenário musical, depois duma travessia no lado mais negro da fama, daquele que é considerado um dos melhores bateristas do rock (pelo seu trabalho nos primeiros anos dos Guns N’ Roses) permitiu uma bela noite no Musicbox.

Na época, num espaço menor a doze meses pudemos ouvir três vezes os grandes temas de “Apettite For Destruction” – o álbum de estreia de maior sucesso comercial na história do rock – se Slash, a solo, e Axl Rose, na sua versão contemporânea dos gunners, o fizeram em dimensões maiores, Steven Adler fê-lo mais underground, mas ainda assim com potência e força dignas do trabalho em questão. Trouxe a energia febril da década de 80 da Sunset Strip para um beco do Cais do Sodré.

A Mais Fiel Interpretação de Appetite For Destruction

Com um álbum como o referido na setlist – e o bando de Adler’s Apettite apenas excluiu 4 temas dessa obra-prima – é fácil cativar qualquer audiência e assim “It’s So Easy” abriu aquela noite de 20 de Fevereiro de 2011, pouco passava das 23h. Depois a marcha do “Nightrain”, uma locomotiva de exultação eléctrica. Steven Adler, que estava em boa forma (menos exuberante nos breaks e fills, mas sólido nos ritmos e nas dinâmicas), foi imediatamente recebido de braços abertos e muito acarinhado, num exercício que foi recorrente durante toda a actuação, afinal Steven Adler é O baterista que faz parte do mito.

Depois, a banda mostrou que não é somente o projecto de covers [inicialmente com o nome Suki Jones] que, outrora, Keri Kelli (guitarrista que chegou a fazer parte do projecto Slash’s Snakepit) formou. Assim, uma primeira jam mostrou trabalho, coesão, espontaneidade e desejo de fazer hard rock da velha guarda. Uma bela introdução para “My Michelle” que, com o público ao rubro, abriu espaço à primeira apresentação daquilo que os Adler’s Appetite estavam a preparar para Julho desse ano – “Stardog” foi o tema. Steven Adler bem-disposto e ao seu jeito pedia ao público que comprasse merchandise oficial: «Go to the girl back there, yes, she’s got big boobs!»

Então, entra o ritmo pulsante dos timbalões de Steven Adler em “Mr. Brownstone”, com um final cheio de jam, solos, guitarrada. Muito rock ‘n’ roll! Foi outro momento incendiário que antecedeu mais um tema original, “Fading”, uma balada com um ar meio southern rock.

Sem dar tréguas ao apetite do público por mais destruição, começava imediatamente o groove de “Rocket Queen”. E é preciso realçar o termo groove, uma vez que os Adler’s Appetite tocaram o tema num ritmo bem lento, se tomarmos como comparação as actuações de Slash e Gn’R no ano anterior, o que permitiu mais acutilância na acidez dos riffs de guitarra e uma presença mais acentuada da força das linhas de baixo, bem assegurado por Chip Z’nuff (Enuff Z’nuff). Além disso, há uma espontaneidade inexplicável em Steven Adler, toca de forma espaçosa, livre e cheia de pocket.

Então surgiu o momento mais curioso da noite: Michael Thomas (Faster Pussycat) partiu uma corda da Les Paul e “Sweet Child O’ Mine” foi tocada com uma Telecaster! Verdade seja dita, o timbre foi diferente, mas não ficou atrás – a não ser na iconografia. Estávamos em ano de 60.º aniversário da Telecaster e o modelo da Fender, também lendário, foi alvo dessa pequena efeméride no Cais do Sodré, em Lisboa. De seguida, Steven Adler e a banda retiraram-se com outro original, “Alive”.

O encore abriu com um solo de guitarra de Robo, nesta digressão a fazer as vezes de Alex Grossi, chamado à reunião dos Quiet Riot. Um bom momento a conduzir-nos até à avenida principal de “Paradise City”. Estávamos no final e, depois de apresentada a banda ao público, Steven Adler pergunta-nos onde estávamos: «Coming to Lisbon the first thing that comes to my mind is: Are we in the jungle?» A resposta ficará para uma malta que aparentemente se reúne ali para os lados de S. Bento.

Um Balde de Água Fria

Na antecâmara daquele que foi um grande concerto, num trabalho para a AS, fui ao encontro de Steven Adler, para a entrevista que estava combinada. Ao aproximar-me do tour bus, vejo o ritual de energização do baterista, depois do soundcheck. Steven Adler~está em tronco nú, numa ruela do Cais do Sodré, junto ao autocarro que a banda alugou. Esvazia um balde de água fria sobre si. Seca-se e sobe para dentro. Dali a pouco, com um sorriso enorme, convida-me a subir. Cheio de simpatia, acompanhado pelo baixista de Adler’s Apettite, Chip Z’nuff, Steven Adler falou sobre o trabalho que estava a gravar, sobre o seu estilo de tocar e sobre uma velha questão.

Quais foram as principais motivações para reformar Adler’s Appetite e lançar um novo trabalho?
Senti que tinha muitas coisas por completar e precisava de lançar cá para fora a minha música. Esta é, de longe, a melhor versão da banda até ao momento, sinto-me muito afortunado de contar com estes músicos! E claro, é também bestial sair e tocar as minhas próprias coisas ao vivo. Fui uma parte do “Appetite For Destruction”, mas isso foi há muito tempo. É preciso evoluir!

Ouvindo a música percebemos estar diante de uma inquestionável vibração hard rock. Numa era em que as pessoas estão mais ligadas a outras sonoridades, quais são as tuas expectativas em relação ao disco?
Apenas quero fazer um grande disco de rock ‘n’ roll, que é intemporal. Sinceramente, não tenho qualquer expectativa a não ser que soe como nós mesmos. O Chip [baixo] tem o seu próprio estilo, o Michael [guitarra] e o Alex [guitarra] também, tal como o Ricky [voz] tem o seu. Tem que soar a nós! Todos os novos temas foram compostos por nós, é isso.

Chegou a haver rumores sobre o Slash quanto à escolha para produtor, como ficou isso?
Trabalhámos com o Anthony Focx (Ace Frehley, Vince Neil, Buckcherry) em “Alive” e gravámos “Stardog” e “Fading” com o nosso amigo Fred Coury, dos Cinderella. Adorava trabalhar com qualquer um deles novamente.

A tua vida já teve imensas reviravoltas. Actualmente como te sentes enquanto baterista? Em que aspectos melhoraste e o que acrescentaste ao teu som?
Tornei a ter aulas, com um amigo australiano, o Sammy Aliano. Estou a ficar mais consciente daquilo que faço, pois até aqui tinha sempre aprendido por mim próprio. Sei que posso fazer, basicamente, todas as coisas do rock pelas quais me conhecem, mas é óptimo estender os nossos horizontes e experimentar outras coisas e só o consegues estudando. Ambiciono tornar-me ainda melhor!

Enquanto aprendeste sozinho, que detalhe ou exercício foi mais difícil de dominares?
Para não variar muito ao que deves ouvir constantemente: paradiddles. Ainda passo um mau bocado a treinar isso [risos]. Há um segredo apenas, três coisas que tens de fazer: praticar, praticar, praticar. Nunca paro de tentar aperfeiçoar a forma como toco rock ‘n’ roll. O meu estilo não é simplesmente 1, 2, 3, 4. Bom, é isso [risos], mas não de uma forma “quadradona”, fastidiosa, tento colocar muito sentimento e dinâmica.

O Matt Sorum é um grande baterista, mas o homem é como uma máquina. Eu sou mais um espírito livre atrás duma bateria, tudo pode acontecer

Steven Adler

Quais pensas serem os teus pontos mais fortes? Lembro-me que quando o Matt Sorum entrou para os Guns N’ Roses, se referia muito o facto de ser mais maquinal e o Steven Adler mais espontâneo…
O Matt é um grande baterista, mas o homem é como uma máquina, de facto. Eu sou mais um espírito livre atrás duma bateria, tudo pode acontecer [risos].

Aqui, o Chip Z’nuff intrometeu-se na conversa com Steven Adler, visivelmente energético…

Chip Z’nuff: O Steven tem o seu próprio som e estilo. Quando ele toca podes ouvir muita coisa incorporada no som, rythm n’ blues, 70’s rock, com um swing muito característico. O que temos feito juntos é muito simples. Pegamos nas nossas influências e misturamo-las. Aproveitando o background de cada um de nós, temo-nos encaixado muito naturalmente e gosto de pensar que somos uma secção rítmica bem forte, como deve existir por detrás de qualquer grande banda. Procuramos ter uma solidez muito grande.

Que marcas usas nesta digressão, Steven?
Nesta digressão não estou a usar o meu kit e é sempre um pouco a rolar os dados em cada concerto. «Será que o material vai ser bom?» Felizmente tem estado tudo a correr bem. As marcas que uso: as baterias Rockett [Rockett Drum Works] e os pratos Paiste.

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