Em 1972, o mundo assistia à descida à Terra de uma criatura messiânica, de cabelos cor de fogo e botas de plataforma, destinada a salvar-nos do tédio quotidiano através de um apocalipse glam rock. Exploramos o mito de Ziggy, os riffs de Mick Ronson e o impacto eterno de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, colosso que ultrapassou a barreira dos 7 milhões de cópias e se fixou no firmamento como um dos maiores álbuns de todos os tempos.
Na manhã de 16 de Junho de 1972, a Grã-Bretanha e o mundo ainda curavam as feridas da ressaca utópica dos anos 60. O sonho hippie estava morto, soterrado pela realidade cinzenta da crise económica e pelo peso de uma normalidade sufocante. Foi nesse preciso instante de vulnerabilidade cultural que David Bowie, um jovem artista londrino que já havia experimentado várias peles sem nunca encontrar a sua transcendência definitiva, decidiu estilhaçar o espelho da realidade.
Ao desvelar The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars, Bowie não nos ofereceu apenas um punhado de canções extraordinárias; ele entregou-nos um mito, uma peça de teatro rock que alteraria para sempre a percepção da identidade, do género e do estrelato na sociedade ocidental. Ziggy Stardust, a estrela de rock extraterrestre e bissexual enviada como último arauto de esperança para um planeta a cinco anos do fim, tornava-se o espelho hiperbólico de uma juventude que ansiava desesperadamente pelo excesso e pela libertação.
A arquitectura sónica do álbum é um prodígio de contrastes que define a essência daquilo que baptizámos como «Glam Rock». Embora o conceito visual e narrativo de Bowie apontasse para o futuro e para as estrelas, a fundação musical do disco estava firmemente ancorada na crueza do rock ‘n’ roll mais primitivo e na agressividade de vanguarda que chegava de Nova Iorque através dos Stooges e dos Velvet Underground.
Grande parte dessa força telúrica deve-se à genialidade esquecida de Mick Ronson. O guitarrista das “Aranhas de Marte” foi o verdadeiro motor musical de Ziggy. Os seus riffs em temas como “Suffragette City” ou “Moonage Daydream” são lâminas de distorção que cortam a subtileza dos arranjos de cordas, conferindo ao álbum um peso e uma urgência que impediam a obra de se transformar num mero exercício de teatro de revista. Ronson compreendia que, para a fantasia de David Bowie funcionar, o rock tinha de morder, tinha de ser perigoso e carnal.
A abertura com “Five Years” estabelece o cenário com uma melancolia operática avassaladora. O ritmo de bateria despido e obsessivo de Woody Woodmansey funciona como o tique-taque de um relógio do Juízo Final. À medida que a voz de Bowie cresce em desespero, narrando as reacções de uma humanidade que acaba de saber da sua própria extinção iminente, o ouvinte é arrancado do seu espaço de conforto. Não há introduções suaves; somos lançados directamente no meio do pânico urbano, transformado em beleza melódica através de uma interpretação vocal que roça o pranto.
É o prelúdio perfeito para a chegada do salvador. Em “Starman”, o hino que funcionou como o verdadeiro rastilho para o sucesso comercial do LP, a rádio transforma-se numa tábua de salvação. O refrão, de uma limpidez melódica intemporal, era um código secreto enviado aos miúdos fechados nos seus quartos: «Deixem os miúdos dançar, deixem os miúdos usar isso». Bowie falava directamente para os desajustados, prometendo-lhes um lugar numa constelação onde a diferença era a maior das virtudes.
À medida que a narrativa avança, assistimos à inevitável tragédia que o título do disco promete. O arco de Ziggy Stardust é a parábola perfeita sobre os perigos do ego e a voracidade da indústria do espectáculo. Em “Lady Stardust”, a melancolia do piano evoca a androginia triunfante de Marc Bolan, enquanto a faixa-título, “Ziggy Stardust”, fixa na pedra o epitáfio da própria personagem.
O riff inicial de guitarra, talvez um dos mais célebres de toda a história do rock, introduz a crónica da queda: o messias que se tornou demasiado altivo, consumido pelos seus fãs e pelos seus próprios excessos, destruído pelas próprias “Aranhas” que o tinham ajudado a erguer o império sónico.
O encerramento com “Rock ‘n’ Roll Suicide” é a catarse final. O arranjo cresce com uma imponência dramática digna de uma ópera de Jacques Brel, culminando no grito desesperado de Bowie: «Tu não estás sozinho, dá-me as tuas mãos!». É o momento em que a ficção e a realidade se fundem, e o público percebe que, ao salvar a sua personagem da solidão, Bowie estava, na verdade, a resgatar cada um dos seus ouvintes.
A gravação de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars nos estúdios Trident em Londres, sob a perícia técnica do co-produtor Ken Scott (o homem que gravou Revolver), garantiu ao disco uma clareza que o protegeu da passagem do tempo. Ao contrário de outras produções do início dos anos 70 que sofrem com o excesso de instrumentação ou misturas lamacentas, Ziggy Stardust soa incrivelmente nítido, seco e focado. A secção rítmica de Trevor Bolder no baixo e Woodmansey na bateria providencia um balanço elástico mas firme, permitindo que a guitarra de Ronson e as múltiplas nuances vocais de David Bowie ocupem o centro do palco com uma presença quase física.









Volvidas (mais de) cinco décadas sobre aquele 16 de Junho de 1972 da edição original, a importância deste disco transcende os cerca de 7 milhões de cópias vendidas ou o seu lugar cativo nas listas de melhores álbuns da história. The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars foi o momento em que o Rock percebeu que a imagem, a encenação e o mito eram ferramentas políticas e artísticas tão válidas como a harmonia musical.
David Bowie ensinou o mundo a libertar-se das amarras da autenticidade cinzenta, provando que, tal como no órfico teatro da Grécia Antiga, é através da mais elaborada das mentiras e da mais extravagante das máscaras que conseguimos expressar a verdade mais profunda sobre nós próprios. Celebrar a ascensão e queda deste messias espacial é recordar a era de ouro de um Camaleão que, ao ousar olhar para o céu e inventar o seu próprio apocalipse de néon, deu à humanidade um porto de abrigo eterno onde a loucura e a beleza dançam juntas até ao fim dos tempos.
