A jornada de encerramento do Primavera Sound Porto 2026 no Parque da Cidade ficou marcada pela forte componente política no espetáculo dos Massive Attack. Um exclusivo nacional, depois do súbito cancelamento de Barcelona (devido a intempérie).
O terceiro dia do Primavera Sound Porto 2026 encerrou com os termómetros a darem mais tréguas, abaixo dos 30 graus, e uma moldura humana considerável. O alinhamento de Sábado distribuiu-se por várias frentes estéticas, equilibrando propostas de hip-hop, electrónica e as guitarras de matriz rock, antes de entregar os palcos principais aos grandes cabeças de cartaz da noite.
As primeiras horas da tarde serviram para acompanhar os novos valores e os regressos ao festival. No palco principal, os norte-americanos The Sophs apresentaram o seu indie rock assente em dinâmicas narrativas, onde as letras são mais faladas do que propriamente cantadas, denotando a frescura típica de uma banda jovem em início de percurso. Logo a seguir, no Palco Primavera, a brasileira Duquesa entregou uma actuação directa assente nas linguagens do rap, trap e R&B, seguida pela electrónica saturada e sem hierarquias de banda de Mike D, que apostou num formato com três guitarras, sintetizadores e samples em substituição de baterias convencionais.
No Palco Vodafone, os galegos Triángulo de Amor Bizarro capitalizaram a forte presença de público espanhol no Primavera Sound Porto 2026. O quarteto entregou o seu habitual rock ríspido, feito de explosões de ritmo e dinâmicas de ruído vocal entre Isabel Cea e Rodrigo Caamaño, oferecendo uma das fatias mais sólidas de noise-rock e shoegaze da tarde. Pouco depois, os britânicos Yard Act subiram ao Palco Estrella Damm com uma abordagem pós-punk densa, pontuada pelo spoken word irónico e o carisma cénico de James Smith, que movimentou uma plateia considerável através de ritmos de travo funk e letras focadas no quotidiano social britânico.








Todas as fotos de © Hugo Lima (abre link).
Nas frentes pop, o festival dividiu atenções entre três estéticas distintas no feminino. Jade trouxe a sua pop de contornos teatrais e britânicos, vincando a sua independência artística em temas como “Angel of my dreams”. A norte-americana Sudan Archives preencheu o palco com o seu violino amplificado acoplado a texturas electrónicas, demonstrando virtuosismo técnico e uma postura descontraída. No mesmo campeonato da pop híbrida, a ganesa-americana Amaarae contornou alguns problemas de rouquidão inicial com uma performance segura assente nas cadências do R&B alternativo e do afrobeat.
Massive Attack: Dispositivo Cénico & Embate Político
Dez anos após o lançamento de The Spoils (2016) e seis anos depois do projecto audiovisual Eutopia (2020), os Massive Attack regressaram a 16 de abril de 2026, com uma obra que o jornal The Guardian descreve como um «hino negro para os nossos tempos». “Boots on the Ground” une o trip-hop cavernoso de Robert “3D” Del Naja e Grant “Daddy G” Marshall à voz inconfundível e “Beefheartiana” de Tom Waits, num registo que é tanto uma peça de arte política quanto um exercício de sonoplastia perturbadora.
A malha estende-se por sete minutos (na sua versão completa com vídeo), sendo quase três deles consumidos por uma introdução e um coda focados na respiração pesada e laboriosa de Waits. A letra, escrita do ponto de vista de um belicista boçal, toca em temas de violência sistémica e militarização, com Waits a rugir versos sobre morte e conquista com uma crueza que remete para os seus álbuns mais experimentais. Não foi ecoada no Primavera Sound Porto 2026.
Quase vinte anos após a última actuação na cidade do Porto, o regresso dos Massive Attack foi o acontecimento mais discutido da noite, menos pela componente estritamente musical e mais pela natureza ideológica e documental do espectáculo. Ao longo de hora e meia, Robert Del Naja (3D) e Grant Marshall (Daddy G) conduziram uma performance onde o som magnético da banda de Bristol serviu de suporte a um denso bombardeamento visual de dados geopolíticos globais.
O arranque fez-se com a frase «Sou Real?» projectada em português no ecrã gigante de LED. Nos primeiros temas, a presença vocal de Elizabeth Fraser (Cocteau Twins) conferiu o habitual ambiente claustrofóbico e introspectivo a composições clássicas, enquanto os ecrãs exibiam perguntas de teor existencialista. Contudo, o tom mudou de figura com a projecção do rosto de Yevgeny Prigozhin, antigo líder do Grupo Wagner, momento em que o espetáculo assumiu uma vertente de jornalismo de guerra e activismo puro.
Dali em diante, a música de fundo — que incluiu as interpretações de Horace Andy em “Angel” e o encerramento com “Teardrop” — dividiu a atenção do público com uma torrente massiva de estatísticas: o número de baixas civis no Médio Oriente (com foco na Palestina e no Líbano), dados sobre a exploração mineira no Congo, custos militares globais e os perigos da vigilância algorítmica dominada pelas grandes tecnológicas de inteligência artificial. Houve ainda espaço para referências locais, com os ecrãs a mencionarem a crise da habitação («a renda da casa«) e elementos da cultura nacional como o «caldo verde».
Do ponto de vista da recepção, o concerto no Primavera Sound Porto 2026 dividiu opiniões e gerou um evidente conflito de sentidos. Sendo os Massive Attack uma banda historicamente ligada às causas políticas, a opção de apresentar os conteúdos em bloco forçou o espectador a escolher entre a fruição das batidas envolventes do trip-hop e o processamento de informação visual crua sobre os horrores do mundo contemporâneo.

























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Para grande parte do público que procurava uma dinâmica tradicional de festival, a austeridade do espectáculo parece ter funcionado como um anticlímax, gerando alguma dispersão e conversas paralelas na plateia perante a dureza do formato documental apresentado. Aliás, a título de exemplo, para ilustrar a desconexão entre a sociedade e a percepção de si própria, quando surgem no ecrã imagens de crianças escravizadas nas minas de lítio no Congo, a plateia levanta em massa os seus telefones para o filmar. Roma caiu!
A Habitual Entrega Física dos IDLES
A responsabilidade de encerrar o palco Vodafone do Primavera Sound Porto 2026 coube aos IDLES. A banda de Bristol, que goza de uma forte base de apoio em solo nacional, entregou o seu habitual espectáculo focado na intensidade física e nas dinâmicas clássicas do punk-hardcore. Joe Talbot assumiu a sua postura habitual de pregador enérgico, descarregando temas como “Never fight a man with a perm”, “Mother” e “Mr. Motivator”.
O concerto seguiu o guião habitual do colectivo: o guitarrista Mark Bowen com os seus trajes extravagantes a extrair ruído e distorção das cordas, uma secção rítmica agressiva e Talbot a gesticular e a comunicar de forma constante com as primeiras filas. Escutaram-se cânticos de cariz político vindos do público, como “Free Palestine”, aos quais a banda se associou de forma directa.
Embora a retórica activista e o discurso inclusivo da banda já façam parte de uma fórmula bastante testada e previsível dentro do circuito de festivais de grande escala, a eficácia do concerto mediu-se pela resposta do público. Entre moshpits e uma partilha constante de energia nas filas da frente, os IDLES assinaram uma despedida musculada que serviu para esgotar as últimas energias do Primavera Sound Porto 2026.







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