Massive Attack regressam com “Boots on the Ground”, colaboração com Tom Waits. Óbvia canção anti-guerra, alargada a boicote ao Spotify, é um magnífico hino distópico.
O hiato terminou. Dez anos após o lançamento de The Spoils (2016) e seis anos depois do projecto audiovisual Eutopia (2020), os Massive Attack regressaram hoje, 16 de abril de 2026, com uma obra que o jornal The Guardian já descreve como um «hino negro para os nossos tempos». “Boots on the Ground” une o trip-hop cavernoso de Robert “3D” Del Naja e Grant “Daddy G” Marshall à voz inconfundível e “Beefheartiana” de Tom Waits, num registo que é tanto uma peça de arte política quanto um exercício de sonoplastia perturbadora.
A escolha de Tom Waits para este regresso dos Massive Attack não é fortuita. O músico norte-americano, que raramente participa em colaborações externas, terá submetido as suas vozes há alguns anos, mas a sua relevância parece ter-se acentuado com o tempo. Num comunicado droll e tipicamente sombrio, Waits comentou a longevidade temática da canção: «Hoje, tal como em todos os ‘ontens’ da humanidade, garante-se que esta canção nunca passará de moda».
A malha estende-se por sete minutos (na sua versão completa com vídeo), sendo quase três deles consumidos por uma introdução e um coda focados na respiração pesada e laboriosa de Waits. A letra, escrita do ponto de vista de um belicista boçal, toca em temas de violência sistémica e militarização, com Waits a rugir versos sobre morte e conquista com uma crueza que remete para os seus álbuns mais experimentais.
Fiéis ao seu historial de activismo, os Massive Attack utilizaram este lançamento para consolidar a sua rutura com o modelo dominante de streaming. “Boots on the Ground” é o primeiro tema da banda distribuído sob uma política de isenção do Spotify. Esta decisão surge como protesto directo contra o CEO da plataforma, Daniel Ek, e os seus investimentos em tecnologias de Inteligência Artificial para fins militares (assunto que a ROMA INVERSA explorou em profundidade).
O single está disponível para venda directa na loja oficial dos Massive Attack (abre link) e em plataformas independentes, priorizando o suporte físico e o download de alta fidelidade. Para os coleccionadores, a edição em vinil de 12 polegadas inclui um lado B exclusivo: “The Fly”, uma peça de spoken word sardónica entregue por Tom Waits.

A preocupação com a pegada de carbono, que levou a banda a colaborar com o Tyndall Centre for Climate Change Research, manifesta-se aqui na vertente técnica da edição. Os Massive Attack estabeleceram uma parceria com a Good Neighbor para produzir o que chamam de prensagem “EcoSonic”. Ao contrário do vinil tradicional feito de PVC (cloreto de polivinilo), estes discos são fabricados a partir de PET 100% reciclado (rPET), através de um processo de moldagem por injeção que reduz drasticamente o consumo de energia. As capas são produzidas com papel reciclado com certificação FSC e as embalagens exteriores utilizam polietileno reciclado, estabelecendo um novo padrão de sustentabilidade para a indústria fonográfica.
thefinaleye
O vídeo que acompanha o single foi criado em colaboração com o fotógrafo documental norte-americano thefinaleye. Trata-se de uma montagem de alta intensidade que retrata a militarização das forças domésticas, rusgas de agências de imigração (ICE) e os maiores protestos públicos da história recente dos EUA. A imagem serve de alicerce visual para a produção de 3D, Daddy G e Stew Jackson, onde pianos melancólicos flutuam sobre batidas arrítmicas e caixas militares.
A malha é uma obra difícil, que recusa a nostalgia de clássicos como “Teardrop” ou “Unfinished Sympathy”. É uma música de resistência, desenhada para ser desconfortável. Não é um tema destinado a entrar nas tabelas de vendas, mas sim a documentar o estado de vigilância e conflito de 2026. Os Massive Attack provam que, mesmo com um ritmo de produção lento, a sua capacidade de intervenção cultural permanece intacta.
