O segundo dia do Primavera Sound Porto 2026 viveu da fricção: o suor da chegada fundiu-se com a delicadeza de Rita Vian, a catarse abrilina de Gisela João e as guitarras terapêuticas dos Slowdive. Pelo meio, os Viagra Boys deram-nos irascibilidade alcalóide e os Gorillaz provaram que são o maior “bug” da história da pop.
Mais um dia de suor a pingar pelo corpo na chegada ao Parque da Cidade no dia 12 de Junho e a sensação imediata de que se a jornada anterior testou a resistência ao calor, esta – o único dia oficialmente esgotado do festival – vai pautar-se por uma densidade humana tão desafiante de navegar como a riqueza do cartaz internacional de luxo em confronto com a proverbial prata da casa.
A responsabilidade de abrir as hostilidades do Primavera Sound Porto 2026 no palco principal coube a Rita Vian. A artista emergente trouxe na bagagem os temas do seu último trabalho, Liga Dura — álbum que conta com a participação de Manel Cruz —, provando que a sua electrónica de raiz tradicional assenta que nem uma luva nas primeiras horas do festival. Quase em simultâneo, no Palco ZYN, a norte-americana Annahstasia encantou com a sua voz hipnótica, atraindo uma moldura humana invulgar para o início da tarde. Grata pela recepção, confessou o seu espanto por ver «tanta gente tão cedo».
Pouco depois, as colinas do palco principal do Primavera Sound Porto 2026 receberam o sismo Baxter Dury. O britânico brindou-nos com a despedida do seu concerto ao som de “Allbarone”, tema-título do seu último disco, disparando uma electrónica fina que carrega deliciosas lembranças de John Grant. Dury passou cerca de uma hora sem pausas numa autêntica festa cinicamente elegante, destilando ainda malhas como “Cocaine Man” e “Baxter (these are my friends)”. Deixou a promessa de um regresso breve, fácil de acreditar para este já habitué em terras lusas.
No Palco Vodafone do Primavera Sound Porto 2026, Panda Bear jogava em casa — a sua residência em Portugal há vários anos é de conhecimento geral. Sem precisar de apanhar aviões, Noah Lennox rodeou-se de talentos nacionais na sua banda, destacando-se a omnipresente Maria Reis. Bem unidos num palanque no centro do palco, enquanto animações variadas surgiam em fundo (incluindo uma torrente de emojis de dedinhos do meio em riste a pairar em “Shepard Tone”), a banda flutuou pela atmosfera de “Song for Ariel” antes de desaguar na belíssima “Ferry Lady”, extraída do mais recente Sinister Grift.










Todas as fotos de © Hugo Lima (abre link).
Gisela João trouxe ao Primavera Sound Porto 2026 um concerto que quebrou qualquer rigidez clássica do fado luso. Surgindo descalça no palco, completamente entregue, transformou a actuação num manifesto de pura catarse e intimidade confessional. A abrir com a declamação de “Acordai”, seguida por uma versão arrepiante de “A Morte Saiu à Rua” de Zeca Afonso, a fadista desenhou uma setlist focada na liberdade. Interpretações cruas como “Vejam Bem” silenciaram a plateia, além das derivas electrónicas com Xinobi em “Fado para esta Noite”.
Slowdive: Círculos Concêntricos de Guitarras ao Pôr do Sol
Os Slowdive são um dos monumentos vivos do shoegaze e a prova viva de que as reuniões de bandas não têm de ser armadilhas nostálgicas. Desde o regresso em 2014, após duas décadas nas sombras, e com o lançamento do álbum homónimo em 2017 que os tratou como estreantes, Neil Halstead, Rachel Goswell e companhia apenas viram o seu culto crescer.
Ao pôr do sol no Parque da Cidade, os britânicos ofereceram uma lição magistral muito apreciada por uma imensa minoria. A viagem arrancou com as texturas recentes de “shanty”, mas foi quando recuaram mais de trinta anos até ao imorredoiro Souvlaki (1994) que o feitiço se completou. Carregar no play daquelas guitarras continua a ser como atirar uma pedra ao meio de um lago: as melodias espalharam-se em círculos concêntricos de forma totalmente hipnótica, servindo de banda sonora perfeita para uns imaginados primeiros dias de Outono.





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Uma horinha de contemplação terapêutica no Primavera Sound Porto 2026 que culminou de forma impecável com os hinos “Alison” e “When the Sun Hits”. As coisas boas de 1993 continuam a salvar-nos.
Viagra Boys: Terapia de Choque Contra o Cinismo do Quotidiano
Se os Slowdive elevaram as almas, os suecos Viagra Boys trataram de puxar os corpos de volta à terra com uma violência libertadora no Palco Vodafone. Esquecidos os facilitismos caóticos de outras eras — como em 2019, neste mesmo festival, quando o vocalista Sebastian Murphy passou o concerto deitado no chão —, a actuação do Primavera Sound Porto 2026 foi o momento do “clique” definitivo.
Trazendo um post-punk musculado com raízes na década de 70, o sexteto de Estocolmo provou porque é a definição viva de subversão. O seu álbum mais recente, coroado pela Rough Trade como o melhor de 2025, serviu de combustível para um concerto que funcionou como uma batalha campal contra o cinismo dos nossos dias. “Man Made Of Meat” atirou-se à jugular («If it was 1970 I’d have a job at a factory / I am a man that’s made of meat / You’re on the Internet looking at feet»), gerando vigorosa rebaldaria nas filas da frente.
Murphy, contorcendo-se e vociferando com uma intensidade que lembrava o compatriota Pelle Almqvist (The Hives), disparou a sujidade de “Punk Rock Loser” e ironizou sobre os bilionários da actualidade, temperando as grandes questões sociais com piadas sobre dentes e vociferações em favor da Palestina.
Um dos melhores concertos do Primavera Sound Porto 2026. Uma experiência estranhamente terapêutica para quem pensa o punk muito para além do som — e que terminou com um belíssimo elogio aos cachorros-quentes portuenses.










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Gorillaz: O Triunfo Humano do Maior “Bug” da Pop Virtual
Na viragem do milénio, os Gorillaz nasceram como o verdadeiro “bug do Y2K”. O que começou como um grupo virtual habitado por 2-D, Noodle, Murdoc e Russel acabou por se revelar o projecto mais livre, expansivo e comunitário da pop contemporânea. Sabendo que por trás do projecto de pop-funk abstrato e hip-hop psicadélico estavam duas mentes de carne e osso — Damon Albarn e o ilustrador Jamie Hewlett —, a passagem do plano virtual para o físico tornou-se o maior acontecimento deste dia esgotado.
A carga emocional da noite já vinha de trás: no Verão de 2024, Albarn e Hewlett perderam os respectivos pais num espaço de dez dias. O luto moldou o novo álbum, The Mountain (2026), transformando a ideia da morte não num fim, mas numa transformação pacífica. O espetáculo no Primavera Sound Porto 2026 arrancou com o homónimo tema do último disco, “The Mountain”. Uma introdução de flauta — com um travo místico sobre tablas e cítaras — abriu caminho a esse instrumental espiritual.
A partir daí, o concerto dividiu-se entre as paisagens texturais do novo disco e o casino de clássicos da banda. Os Sparks foram projectados em fundo para a vibrante “The Happy Dictator”, enquanto Albarn, de barrete vermelho e megafone em punho, assumia a sua faceta de capitão de uma banda de 13 elementos. O momento mais comovente aconteceu em “The Shadowy Light”: a voz da falecida cantora indiana Asha Bhosle (1933-2026) ecoou pelo Parque da Cidade enquanto milhares de pessoas erguiam as lanternas dos telemóveis, criando uma constelação humana no Primavera Sound Porto 2026 que visivelmente emocionou o timoneiro britânico.
Se a nível internacional a digressão se faz rodar por uma lista irreal de convidados, no Porto o espírito comunitário foi selado com ouro local: Joe Talbot, o vocalista dos IDLES, saltou inesperadamente para o palco para incendiar os microfones em “The God of Lying”, exibindo uma cumplicidade de sorrisos com Albarn que fez lembrar um Sérgio Godinho de Londres a gerir os seus convidados de honra.
Depois de passagens obrigatórias por “19-2000” e pela doçura de “On Melancholy Hill”, o clímax fez-se com o livro de cheques da nostalgia. “Feel Good Inc.” gerou a loucura colectiva e “Clint Eastwood”, conduzido pelos presets do Suzuki Omnichord, fechou as hostilidades, transfigurando-se a meio na sua icónica versão remix acelerada com a cadência reggae de Sweetie Irie a explodir nas colunas. Uma produção de topo no Primavera Sound Porto 2026 que justificou a frase de despedida de Albarn: «Uma banda que só aparece uma vez na vida».















Todas as fotos de © Hugo Lima (abre link).
Para os resistentes que recusavam recolher a casa, a madrugada ainda guardava a ferocidade sónica e experimental dos Melt-Banana no Palco ZYN. O power duo japonês, composto por Yasuko O e Ichiro Agata, apareceu no Primavera Sound Porto 2026 com o propósito claro de deitar abaixo o que restava do Parque da Cidade. Um bombardeamento, com sequências de oito músicas despachadas em pouco mais de um minuto cada.
