O Primavera Sound Porto 2026 arrancou sob um calor arrasador. Entre o regresso imersivo dos The xx e a fúria política dos Kneecap, foi a armada portuguesa — com a despedida histórica dos PAUS, o transe dos Sensible Soccers e a honestidade de Inês Marques Lucas — que roubou o coração do Parque da Cidade.
O arranque do Primavera Sound Porto 2026 fez-se sob o signo dos extremos. Com os termómetros a roçar uns sufocantes e provocadores 35 graus, o Parque da Cidade encheu-se cedo de uma multidão munida óculos de sol e uma sede (literal e figurativa) colectiva de celebrar a música sem reservas. Se o calor era intenso, a urgência artística foi ainda maior, desenhando um primeiro dia assente num ecletismo absoluto. E embora os headliners internacionais arrastassem multidões, foi a música de matriz portuguesa que deu ao festival a sua verdadeira alma e espinha dorsal nesta abertura.
A viagem pelo Palco Primavera fez-se com o coração nas mãos. Os lisboetas PAUS surgiram no Primavera Sound Porto 2026 movidos por uma urgência histórica e agridoce: o concerto inseria-se na sua digressão de despedida, celebrando o lançamento do último disco, apropriadamente intitulado ENTERRO. Quinze anos após a sua estreia neste mesmo festival, Makoto Yagyu, Hélio Morais, Fábio Jevelim e Quim Albergaria provaram porque fazem parte daquele grupo selecto de bandas que ama demasiado o rock para o deixar oxidar ou estagnar. O público aderiu em massa a esta que é uma das derradeiras oportunidades para ver o quarteto em ação.
Em palco, a famosa configuração de “bateria siamesa” de Joaquim Albergaria e Hélio Morais, como sempre fez ao longo destes anos, ditou as regras do jogo. Ao vivo, as malhas funcionam como um cruzamento impossível e musculado entre o math rock e o rock progressivo andaluz, ideal para quem vibra com a energia de projectos como Derby Motoreta’s Burrito Kachimba ou WU LYF. Foi uma celebração eléctrica de uma história que ligou 2008 a 2026, deixando claro que os PAUS sabem exactamente quando é a altura certa de partir, saindo em ombros e com o público rendido.
Antes disso, a tarde já tinha começado com a pop e a folk independente de Emmy Curl no palco principal (Estrella DAMM) do Primavera Sound Porto 2026, servindo de anestesia perfeita contra o sol abrasador para um recinto já surpreendentemente composto. Entretanto, pelas 17:40, a frescura e a delicadeza de Inês Marques Lucas inauguravam as hostilidades no Palco Vodafone. Apontada como uma das novas vozes do pop alternativo português, a artista trouxe ao Parque da Cidade um estilo de composição honesto e quase confessional, onde o importante não é impressionar pelo ruído, mas sim conectar-se pela emoção.
Transitando entre o indie pop e a faceta clássica de cantora-compositora, Inês Marques Lucas agarrou a audiência ainda tímida do Primavera Sound Porto 2026 ao cantar sobre as agruras da rotina laboral do quotidiano (o eterno ‘9 to 5’). Temas como “Do Avesso” mostraram como a sua música é concebida para ser apreciada com o peito: arranjos simples que permitem à voz respirar e que crescem aos poucos, piscando o olho a fãs de Phoebe Bridgers ou Cláudia Pascoal. Foi o momento perfeito em que o festival abrandou sem perder uma nesga de emotividade.
Mais tarde no Primavera Sound Porto 2026, o mesmo Palco Vodafone transformou-se numa elegante pista de dança com os Sensible Soccers. Nem mesmo um pequeno contratempo técnico antes do início beliscou a electricidade do momento; o groove da experimentalidade da banda nortenha foi de tal ordem que obrigou todos os que descansavam na relva a levantar-se num ápice para comparecer em força.
Misturando indie electrónica, krautrock e música de dança alternativa, os Sensible Soccers especializam-se em criar malhas que aumentam de intensidade gradualmente. O seu som baseia-se em grooves repetitivos, guitarras limpas e sintetizadores luminosos — como os da magnética “Palmeiras Negras” — que criam uma sensação de viagem contínua, mais próxima de um transe suave do que de um sucesso imediato. O nome da banda, piscadela de olho ao lendário videojogo Sensible Soccer, traduz-se na sua música: dinâmica, viciante e repetitiva.




















Todas as fotos de © Hugo Lima (abre link).
Encaixando-se na perfeição na cultura de “clube ao ar livre” que define o Primavera, os Sensible Soccers puseram toda a gente a dançar sem perceber quanto tempo já tinha passado, ao melhor estilo de Caribou ou Hot Chip. Em simultâneo, no vizinho Palco ZYN, rusowsky dava uma autêntica lição de pop urbana no Primavera Sound Porto 2026, operando como um íman para o público mais jovem e verdadeiramente eclético que ali se aglomerava.
O Catarse de Ethel Cain, os Big Thief e o Regresso Imersivo dos The xx
À medida que o Sol dava tréguas, o Palco Vodafone mudou de pele para acolher a norte-americana Ethel Cain. Num concerto cuja moldura humana fez lembrar a enchente dos Deftones na edição de 2025, Cain assinou uma catarse gótica e confessional. A abrir com “American Teenager”, guiou um público comovido e sereno, arrancando lágrimas nas primeiras filas assim que soaram os acordes magnéticos de “Crush”.
No palco principal do Primavera Sound Porto 2026, os Big Thief apresentavam o reverso da moeda: uma doçura serena guiada pela voz de Adrianne Lenker. O público balançou ao som de clássicos como “Vampire Empire” — ainda que a banda tenha optado por surpreender ao excluir “Velvet Ring” do alinhamento —, enquanto no Palco ZYN, os lendários Texas Is the Reason injectavam o seu post-hardcore noventista, medindo forças com a audiência para ver quem quebrava o limite de decibéis primeiro.
E então, chegaram os grandes protagonistas da primeira noite do Primavera Sound Porto 2026. O regresso dos britânicos The xx ao palco principal foi muito mais do que um concerto; foi uma experiência sónica e visual imersiva. Apoiados por uma produção gráfica minimalista e sofisticada, Romy, Oliver e Jamie xx conduziram o Primavera Sound Porto 2026 por uma amálgama de sentimentos onde coexistiram o amor, a melancolia e o groove. A generosa setlist pintou-se com as cores de “Crystalised”, “I Dare You”, “Angels” e o hino geracional “Intro”.




















Todas as fotos de © Hugo Lima (abre link).
