Onze anos após o adeus de Neil Peart, Geddy Lee e Alex Lifeson regressaram à estrada com a ‘Fifty Something Tour’. O segundo concerto dos RUSH no Kia Forum não foi apenas uma homenagem; foi uma demonstração de força que resgatou raridades esquecidas há trinta anos – sim, a suite “2112” integral – e consagrou a baterista Anika Nilles.
Há datas que ficam gravadas na história do rock como cicatrizes. Para os fãs dos RUSH, o dia 1 de Agosto de 2015 era, até há pouco tempo, o capítulo final. Foi nessa noite, no Forum de Los Angeles, que a banda encerrou a sua digressão comemorativa R40. Ninguém o sabia oficialmente na altura, mas aquele seria o último concerto de Neil Peart. O lendário baterista e letrista faleceria a 7 de Janeiro de 2020, aos 67 anos, vítima de um cancro no cérebro, mergulhando o mundo da música num luto que parecia ditar o fim definitivo do icónico power trio canadiano.
Contudo, a música tem formas misteriosas de resistir ao silêncio. Onze anos depois de recolherem os instrumentos, Geddy Lee e Alex Lifeson decidiram que era hora de voltar a celebrar. Quando a ‘Fifty Something Tour’ foi anunciada em Outubro de 2025, os corações dos fiéis devotos da banda dividiram-se entre a excitação pura e o ceticismo inevitável. Afinal, como substituir o insubstituível?
A resposta começou a desenhar-se num alinhamento de 12 datas pelo continente norte-americano, com início apropriado a 7 de Junho de 2026 no mesmíssimo KIA Forum, em Los Angeles. O anúncio trazia o aval emocionado de Carrie Nuttall-Peart e Olivia Peart (viúva e filha de Neil), mas a verdadeira prova de fogo estava guardada para o palco. E foi na segunda noite na Califórnia, a 9 de Junho, que a nova encarnação dos RUSH provou que este regresso não é um mero exercício de nostalgia comercial, mas sim um novo e audaz capítulo artístico.
O grande foco de todas as atenções estava, compreensivelmente, sentado atrás do imenso kit de bateria. Assumir o posto de Neil Peart é, provavelmente, o papel mais ingrato e intimidante da história do rock progressivo. A escolha de Geddy e Alex recaiu sobre Anika Nilles, a baterista, compositora e produtora alemã de 41 anos. Com uma bagagem que inclui colaborações com o saudoso e genial Jeff Beck e quatro álbuns a solo, Nilles trouxe para os RUSH o elemento exacto de que a banda precisava: respeito absoluto pela partitura original combinado com uma identidade técnica irrepreensível.
O impacto de Anika no Kia Forum foi avassalador. Em vez de tentar mimetizar cada tique de Peart de forma robótica, a alemã atacou as composições complexas e poderosas com uma fluidez impressionante. O público purista, inicialmente em guarda, rendeu-se à evidência de que a envolvência rítmica estava em mãos soberbas.





A esta engrenagem juntou-se outra mudança histórica nos RUSH. Rompendo com o formato tradicional de power trio, Lee e Lifeson cumpriram a promessa de expandir a formação em palco. A adição do teclista Loren Gold (conhecido pelo seu trabalho com os The Who e Chicago) acabou por ser o ingrediente secreto da noite. Ao libertar Geddy Lee da obrigação de se desdobrar permanentemente entre os sintetizadores e as linhas de baixo complexas, a banda ganhou uma lufada de ar fresco, permitindo ao vocalista focar-se na entrega interpretativa e na sua icónica presença de palco.
RUSH: o Resgate de 2112
Os concertos desta digressão dos RUSH estão desenhados no formato An Evening With, divididos em dois atos por noite. Se no anúncio inicial a banda falava em extrair temas de um poço de 35 canções, Geddy Lee confirmou mais tarde à Rolling Stone que a fasquia subiu para quase 40 clássicos, prometendo rotatividade total. «Se fores a quatro concertos em Toronto, vais ouvir quatro alinhamentos diferentes», garantiu o baixista.
A promessa cumpriu-se de forma espectacular na passada terça-feira. A segunda noite em Los Angeles tornou-se instantaneamente histórica quando os RUSH atacaram a monumental suite “2112”. Pela primeira vez em quase 30 anos, a banda tocou a obra de ficção científica na sua totalidade, resgatando as secções “Part III: Discovery”, “Part V: Oracle: The Dream” e “Part VI: Soliloquy” — movimentos que não eram interpretados ao vivo desde a digressão de Test For Echo, em 1997.
O público presente no Kia Forum entrou em transe, e os vídeos amadores que já circulam na internet (e que abaixo partilhamos) mostram uma banda rejuvenescida, capaz de recriar a urgência dramática de 1976 com uma precisão cirúrgica. O momento em que Alex Lifeson inicia os acordes acústicos de “Discovery” e Geddy Lee acompanha com as primeiras linhas vocais, agora apoiados pela subtileza de Loren Gold nos teclados, é passível de nos encher de lágrimas.
Além do colosso “2112”, a noite foi generosa em estreias na digressão: “The Analog Kid” (do álbum Signals, de 1982), “Leave That Thing Alone” e “Headlong Flight” fizeram a sua aparição, a par do clássico de Hemispheres, “The Trees”, que não era tocado ao vivo desde 2008.
