Uma banda e um disco que, das cinzas do hair metal, rejuvenesceu a face do hard rock. O álbum de estreia dos Alice in Chains, o arrebatador “Facelift”, e a reedição de luxo do seu 30.º aniversário.
No fim dos anos 80, Seattle era uma cidade cinzenta, industrial, mais associada ao café barato e à chuva persistente do que a qualquer promessa cultural. Mas nas suas caves húmidas e pequenos bares, algo fervia. Foi nesse caldo que nasceram os Alice in Chains, banda que, mais do que qualquer outra, se posicionaria no ponto de interseção entre o peso do metal e a crueza emocional do rock alternativo que, pouco depois, o mundo viria a chamar de grunge.
A história começa em 1987, quando Jerry Cantrell, guitarrista com raízes no metal e no rock clássico e ouvido apurado para harmonias vocais, conhece Layne Staley, um vocalista que vinha de um passado em bandas de glam metal locais. A química entre os dois foi instantânea: Cantrell tinha riffs densos e angulosos; Staley, uma voz elástica, capaz de saltar da melodia mais suave para o grito mais rasgado sem perder emoção. Juntos, começaram a desenhar o esqueleto de um som que, sem abandonar a estrutura pesada herdada do metal, incorporava algo mais sombrio e introspectivo.
A formação completou-se com Mike Starr no baixo e Sean Kinney na bateria, ambos vindos da cena musical local e com uma noção de groove que dava corpo àquelas composições carregadas de tensão. Era um quarteto que respirava os contrastes da própria Seattle: uma cidade economicamente deprimida, mas artisticamente à beira de uma explosão.
The Treehouse Tapes
Foi um promotor local, Randy Hauser, quem primeiro percebeu o potencial dos Alice in Chains, depois de os ver ao vivo. Impressionado, ofereceu-se para financiar a gravação de uma demo. Mas, no dia anterior à entrada da banda no Music Bank, o estúdio em Washington foi encerrado pela polícia, numa operação que ficou conhecida como a maior apreensão de cannabis da história do estado. Ainda assim, em 1988, os Alice in Chains conseguiram concluir uma demo, baptizada The Treehouse Tapes, que viria a mudar o destino da banda.
A gravação chamou a atenção das agentes Kelly Curtis e Susan Silver — esta última, também responsável pelos Soundgarden —, que fizeram chegar o material a Nick Terzo, representante de A&R da Columbia Records. Terzo não hesitou: levou a demo ao presidente da editora, Don Ienner, e, com base nesse registo, a banda assinou contrato com a Columbia, em 1989. A partir daí, os Alice in Chains tornaram-se uma das principais apostas da editora.
Em Julho de 1990, lançaram o primeiro registo oficial, o EP “We Die Young”, cujo tema-título rapidamente conquistou espaço nas rádios dedicadas ao metal. O sucesso foi tal que a Columbia decidiu acelerar a gravação do álbum de estreia, confiando a produção a Dave Jerden. Segundo Jerry Cantrell, a intenção era clara: criar um disco com uma “aura sombria”, reflexo directo do ambiente pesado e melancólico de Seattle naquela época.
Facelift
Quando “Facelift” chegou às lojas, em Agosto de 1990, poucas bandas conseguiam soar tão ameaçadoras e, ao mesmo tempo, tão melódicas como os Alice In Chains. O single “Man in the Box”, impulsionado pelo talk box de Cantrell e pela interpretação visceral de Staley, tornou-se rapidamente uma pedra angular nas rádios rock e na pubescente MTV. Mas o álbum é mais do que um único hit: temas como “Bleed the Freak”, “Sea of Sorrow” ou “Love, Hate, Love” revelavam um domínio surpreendente de dinâmica musical — pesadas como chumbo nos riffs, quase etéreas nas harmonias vocais.
O sucesso de “Facelift” foi gradual, mas decisivo. Ao contrário do boom súbito que viria com o “Nevermind” dos Nirvana, um ano depois, os Alice in Chains conquistaram espaço com uma perseverança quase subterrânea: tour atrás de tour, partilhando palcos com bandas de hard rock e metal, sem ainda pertencer totalmente a nenhum desses universos. Essa posição híbrida foi a chave: metalheads, punks e fãs de rock alternativo viam algo nos Alice in Chains que lhes pertencia, mesmo quando a banda não parecia dever nada a ninguém.
O que realmente distinguia “Facelift” era a combinação de peso e vulnerabilidade. Os riffs de Cantrell não eram apenas pesados, eram opressivos, quase claustrofóbicos, enquanto as letras de Staley carregavam um tipo de introspecção que fugia aos clichés da época. Havia solidão, frustração, um sentido de deslocamento que se tornaria marca registada da banda. Essa honestidade crua fez com que, quando o grunge explodiu, os Alice in Chains fossem vistos como pioneiros — ainda que a banda nunca tenha abraçado totalmente esse rótulo.
Hoje, mais de três décadas depois, “Facelift” mantém-se como um disco inaugural raro: não soa a banda em construção, soa a banda já dona de um território próprio. É um retrato de uma época e, ao mesmo tempo, um álbum que transcende essa moldura. Entre a sujeira dos riffs, a urgência rítmica e a dor latente da voz de Staley, ergueu-se uma linguagem que influenciaria não só os pares da cena de Seattle, mas também gerações inteiras de músicos que veriam, naquele disco, um mapa para a catarse.
30th Anniversary Deluxe
Foram os Alice In Chains que anunciaram esta reedição, que chegou no dia 29 de Janeiro de 2021, apesar de o disco ter completado 30 anos da sua estreia a 21 de Agosto de 2020 (os problemas de prazos nas fábricas de vinil, devido ao confinamento, imperavam). Como referido, “Facelift” é um dos grandes álbuns da década de 90, cujos riffs, liderados pela melodia com talkbox do single “Man in the Box”, pavimentaram o caminho para a ascensão do rock alternativo e do grunge. No ano seguinte, em 1991, chegariam os mega sucessos dos Nirvana e Pearl Jam, “Nevermind” e “Ten”, respectivamente.
Quanto à reedição, é quanto baste para meter qualquer fã dos Alice In Chains com a cabeça a andar à roda, cheia de objectos coleccionáveis como está. Surge numa caixa acrílica meio transparente e reúne um duplo vinil (picture disc) com o álbum remasterizado; a sua respectiva versão em cassete; um livro de fotografia em capa dura; poster com duas faces; tapete para o gira-discos; autocolantes; um laminado da digressão e quatro impressões do artwork.

O conjunto é vendido por 152 dólares (aprox. €130). Se 130 paus está fora da vossa contenção de custos, a boa notícia é que uma versão normal de duplo vinil preto, também remasterizado, chegou no passado dia 13 de Novembro. Esta reedição não contempla temas extra ou outtakes de estúdio. Mas com clássicos como a já referida “Man in the Box”, “We Die Young” ou “Bleed the Freak”, não está propriamente mal servida de malhões.
De forma separada, mas de alguma forma relacionada com este período criativo da banda, os Alice In Chains também reeditaram uma edição especial em vinil do seu EP “Sap”, numa acção integrada no evento Record Store Day’s Black Friday, a 27 de Novembro de 2020. A primeira vez que o EP ficou disponível individualmente em vinil.

Um pensamento sobre “Alice In Chains, O Rejuvenescimento do Hard Rock”