No Pukkelpop 2025, os Amenra e a Atomic Orchestra transformam monumentos post doom em ritual sonoro. Silêncio, peso e intensidade pura extraídos da actuação no festival e nas Atomic Sessions belgas, que a antecederam. Dois documentos sónicos e visuais obrigatórios.
O que aconteceu no Pukkelpop 2025 não cabe facilmente na categoria de concerto. Também não é exactamente uma colaboração, pelo menos não no sentido previsível que o metal aprendeu a associar a orquestras. Foi antes uma interrupção do fluxo normal do festival, um gesto que obrigou o tempo a abrandar num contexto construído para a velocidade e a dispersão. “Duas” canções apenas, interpretadas pelos Amenra com a Atomic Orchestra, ou vice-versa, bastaram para criar um dos momentos mais densos, incómodos e memoráveis do evento.
Amenra nunca foi uma banda de adaptação. Desde Kortrijk, no final dos anos 90, que o grupo construiu uma linguagem própria baseada na contenção, na repetição e numa relação quase ritual com o som. A discografia organizada mas Masses não funciona como conceito decorativo, mas como um processo contínuo de confrontação emocional. Os Amenra não escrevem para aliviar, escrevem para permanecer. Ao vivo, essa postura traduz-se numa presença que recusa o espectáculo enquanto entretenimento. Há sempre uma sensação de exposição crua, de algo que não deveria ser observado com distância confortável.
Esse modo de existir musicalmente é o que torna possível — e credível — o encontro com a Atomic Orchestra. O ensemble belga, dirigido artisticamente por Jo Hermans, nasce fora da lógica da orquestra sinfónica tradicional. O seu trabalho situa-se no cruzamento entre música contemporânea, performance, cinema e artes híbridas. A Atomic Orchestra não funciona como suporte ilustrativo nem como dispositivo de engrandecimento. Funciona como corpo colectivo, como massa sonora capaz de gerar tensão, densidade e silêncio activo.
Nos últimos anos, este colectivo tem desenvolvido um projecto específico chamado Atomic Sessions. Não se trata de uma série de concertos convencionais nem de um formato replicável. Cada sessão é pensada como um encontro único entre a orquestra e um artista convidado, num contexto determinado, sem promessa de continuidade discográfica ou exploração comercial. O objectivo não é produzir versões definitivas, mas explorar o que acontece quando universos sonoros distintos partilham o mesmo espaço físico e temporal.
É neste contexto que surge a aproximação a Amenra. Não como uma ideia de “metal com orquestra”, mas como uma extensão lógica de duas práticas que já pensavam o som em termos de espaço e duração. Os Amenra escrevem como quem constrói grandes planos sonoros, deixando vazios deliberados, silêncios carregados de intenção. A Atomic Orchestra entra precisamente aí: não para preencher com melodia, mas para tornar esses vazios ainda mais pesados.
De Evenmens
Os arranjos orquestrais apresentados no Pukkelpop foram concebidos no seio da própria Atomic Orchestra, num trabalho colectivo orientado pela sua direcção artística. Não há aqui partitura pensada para brilhar por si mesma. As cordas funcionam como drones prolongados, os metais substituem feedback e ruído, a percussão orquestral assume um papel quase físico, mais próximo de uma marcha fúnebre do que de qualquer ideia rítmica tradicional. Tudo se move lentamente, como se cada som exigisse esforço.
A escolha das canções é reveladora. “Heden” e “A Solitary Reign” surgem fundidas num único fluxo contínuo, reforçando a ideia de inevitabilidade e de progressão sem libertação. “De Evenmens”, por sua vez, expõe a fragilidade estrutural da música de Amenra: uma composição que resiste ao clímax e se constrói sobre a repetição exausta. Nesta configuração, o peso habitual da banda não desaparece, mas é redistribuído. O ataque directo das guitarras cede espaço a uma pressão constante, difusa, quase atmosférica.
No contexto do Pukkelpop, este momento assumiu um carácter quase anti-festival. Num evento marcado pela sobreposição contínua de estímulos e pela lógica da circulação permanente, Amenra e a Atomic Orchestra recusaram qualquer tentativa de adaptação. Não houve encurtamento das peças, nem aceleração de tempos, nem concessões à expectativa de impacto imediato. O silêncio entre notas tornou-se tão importante quanto o som. O público foi forçado a parar, a escutar, a permanecer dentro de algo que não oferecia saída rápida.
O papel de Colin H. van Eeckhout neste contexto é particularmente revelador. O seu canto surge ainda mais interiorizado, menos performativo do que no formato eléctrico habitual. Não há gestos teatrais nem explosões catárticas. A voz funciona quase como um elemento adicional da massa sonora, um corpo vulnerável exposto no meio de uma arquitectura que não procura protegê-lo. A Atomic Orchestra não acompanha emocionalmente, não sublinha, não comenta. Limita-se a estar presente, a testemunhar.
O efeito é profundamente desconfortável porque recusa a lógica da redenção. Estas versões não conduzem a um clímax libertador, não oferecem resolução. As cordas não consolam, os metais não anunciam triunfo. Tudo aponta para a aceitação do peso, para a permanência naquilo que dói. É música que não promete salvação.
Heden / A Solitary Reign
Talvez por isso faça sentido que esta colaboração no festival exista apenas nestas duas peças. Não há aqui material para álbum nem necessidade de expansão. O impacto reside na sua condição efémera, na consciência de que este encontro pertence a um momento específico das Atomic Sessions e a um contexto muito particular do festival. Mais do que isso seria redundante.
No Pukkelpop 2025, as coisas sentiram-se ainda mais solenes e opressivas, Amenra e a Atomic Orchestra não apresentaram uma nova fase da banda nem um desvio experimental calculado. Apresentaram, antes, uma intensificação extrema de algo que sempre esteve presente no núcleo de Amenra: a música como confronto, como resistência ao conforto, como permanência no silêncio pesado. Num festival, isso não é apenas raro. É quase um acto de violência silenciosa.
A Atomic Orchestra no Pukkelpop foi liderada e dirigida pelo maestro Jo Hermans, figura central da orquestra e responsável pela sua visão artística no palco do festival. Nos arranjos e na construção das versões Atomic Sessions, a série foi pensada e executada com a colaboração de Jo Hermans e Gilles Coulier, com arranjos de Wietse Meys — uma informação que vem do anúncio oficial das Atomic Sessions feito por Studio Brussel & Pukkelpop.
