A lucidez do Apocalipse. Os Deafheaven recusam a maturidade dócil e assinam em “At Work in the Fields of the Bomb” o registo mais visceral da sua carreira.
A evolução humana, dificilmente uma linha recta em direção à serenidade, é frequentemente associada à descoberta progressiva da crueldade do mundo. Quando somos jovens, tacteamos o escuro em busca de uma identidade, oscilando entre a incerteza e a necessidade de afirmação. Foi precisamente nesse estado de pós gestação que os Deafheaven, em 2011, se apresentaram com Roads to Judah. Era o som de uma banda a tentar encontrar-se, mas já despida da ingenuidade que, aquando do pubertário salto para Sunbather, os afirmou como uma entidade única, definida e idiossincrática.
O polimento de arestas manteve-se com a maturação do quinteto californiano, assente numa matriz sincopada e confrontacional, dando espaço à contemplação e dissolvendo a agressividade em texturas e atmosferas mais permeáveis. O afastamento da crueza inicial foi dando lugar a uma sensibilidade mais deslumbrante, contida e, a espaços, sensual.
Poderiam ser assumidos os contornos de uma aceitação quase resignada – Ordinary Corrupt Love (2018) e Infinite Granite (2021) são mais belos do que propriamente perigosos. Lonely People With Power (2025) acabou por se revelar um verdadeiro tour de force e um momento pleno de antagonismo, indo dos três momentos Incidental que compõem o álbum (dois deles colaborativos), até ao crescendo texturizado de “Amethyst” ou ao magnetismo ríspido de “Doberman”. É uma banda em estado adulto, no pleno das suas capacidades e certezas, que com este registo na bagagem assinalou duas passagens marcantes em solo nacional (Lisboa – RCA e Âncora – Sonicblast).
Todavia, o verdadeiro estado adulto nem sempre se vê bafejado pela paz. Por vezes, traz a lucidez aterradora da realidade. Com o EP At Work in the Fields of the Bomb, recusam o conforto dessa maturidade dócil. Não há aqui o desejo de suavizar o impacto: confrontada com a industrialização da guerra, a indiferença geopolítica e o colapso moral do nosso tempo, a banda reage não com resignação, mas com a fúria visceral de quem finalmente compreendeu a gravidade do status quo.

O resultado é a sua obra mais directa, ríspida e devastadora até à data. Longe de ser uma provocação gratuita, o tema central inspira-se directamente no livro fotográfico homónimo de Robert Del Tredici. A obra explora o contraste perturbador entre a banalidade do quotidiano industrial, as rotinas das fábricas e dos produtores de armas nucleares, e as consequências catastróficas dos seus produtos. Como observou George Clarke, nas entrevistas à Rolling Stone e à Kerrang!, vivemos uma era em que a guerra e a indústria militar se tornaram rotineiras, onde a indiferença social nos conduz lentamente ao pior dos cenários — como «a rã dentro de água a ferver».
Essa consciência política e existencial reflecte-se de forma fulminante no som produzido por Arthur Rizk (conhecido pelo seu aclamado trabalho com bandas de thrash e metal extremo, e recentemente em destaque no podcast Hardlore, caso o queiram conhecer melhor). O registo corta radicalmente com o lado mais sensível e etéreo da sonoridade recente da banda. Não há aconchego nem momentos contemplativos. A excelente produção de At Work in the Fields of the Bomb é seca, crua e incisiva, projectando o grupo directamente para o epicentro da agressividade.
Composto por três malhas — “Hunter” (lançada com uma curta-metragem escrita por Clarke e realizada pelo oscarizado Janusz Kaminski), “Three Princes” e a imponente “Sorry Laid The Hearth” (que se estende ao longo de 12 minutos) —, o At Work in the Fields of the Bomb apresenta-nos o registo mais pesado e técnico da carreira dos Deafheaven até à data, encontrando paralelo apenas na génese mais crua do quinteto. A entrega aos ambientes directos e ásperos é total e incessante.
A performance vocal de George Clarke acaba por se destacar. Surge carregada de fel e de uma rispidez ainda mais gélida que o habitual, evocando a estética mais implacável do género e aproximando o grupo do som magnânimo de nomes como Abigail Williams. Impulsionadas por uma bateria implacável recheada dos habituais blast beats, ritmos à velocidade da luz e riffs cirúrgicos, são composições de uma complexidade e intensidade física elevadas que prometem ser desafios exigentes para interpretar ao vivo. De momento acompanham os Mastodon e Alcest em tour pelos Estados Unidos.
Com este lançamento, que tem tanto de surpresa com surpreendente, os Deafheaven provam que a maturidade não significa necessariamente um suavizar de intentos. Interpretar o quotidiano representa armar-se de toda a violência necessária para responder ao ruído do mundo real.
O texto é do Bernardo Matos.
