Guns N' Roses

Atlas & Nothing, O Crepúsculo dos Guns N’ Roses

“Nothing” e “Atlas”, as duas novas malhas dos Guns N’ Roses revelam uma banda dividida entre nostalgia calculada e reciclagem criativa, oferecendo competência sem fulgor num presente que já não arde perigosamente como o passado.

Há bandas cuja mitologia é tão pesada que cada novo lançamento se transforma numa prova de sobrevivência. Os Guns N’ Roses pertencem a essa categoria rara, quase maldita: um grupo cuja sombra é tão maior que o presente que qualquer canção divulgada depois dos anos 90 é automaticamente sugada para o buraco negro das comparações. E, apesar de tudo isso, continuam — teimosamente, heroicamente, ou simplesmente por inércia — a lançar música nova em doses homeopáticas.

No dia 4 de Dezembro 2025, chegam “Nothing” e “Atlas”, as duas malhas que acompanham o anúncio da tour mundial de 2026, e que confirmam tanto a vitalidade residual da banda como a sua criativa exaustão. É este paradoxo que importa compreender — e, acima de tudo, escutar sem piedade.

“Atlas” é claramente a mais sólida das duas. Tem a desenvoltura, o músculo e a teatralidade que sempre caracterizaram a fase Use Your Illusion. O riff principal tem aquela curvatura “Slashiana” que parece escrita com o pulso, não com a cabeça; a secção rítmica avança com um peso confortável, sem ameaçar ninguém; o refrão procura firmar-se no tipo de melodia antémica que a banda, nos seus melhores dias, escrevia com aparente facilidade. Mas, embora todos os elementos estejam lá — os traços de ADN, o verniz épico, a arquitectura reconhecível — algo falta.

“Atlas” sabe soar a Guns N’ Roses, mas não sabe porque é Guns N’ Roses. É um retrato fiel, mas sem vida interna, como se a banda tivesse estudado o próprio passado num laboratório e regressado com uma versão optimizada, limpa de riscos, imune ao caos que outrora lhes dava alma. Funciona, sim; entusiasma, às vezes; mas nunca chega a incendiar. No final, é uma canção que acena ao legado em vez de o expandir.

E depois há “Nothing”, que representa o problema crónico da era pós-reunião. Desde 2016, a banda insiste num jogo perigoso: continuar a publicar sobras e outtakes da era Chinese Democracy, polidos, rearranjados ou regravados por Slash e Duff, mas estruturalmente ainda peças de um passado estagnado. “Hard Skool”, “Absurd”, “Perhaps”, “The General” — todas carregam essa marca de Frankenstein sonoro, reanimado artificialmente.

“Nothing” insere-se nessa mesma tradição, tal como “Atlas”, mas com ainda menos personalidade. É uma balada melancólica, iniciada ao piano, construída com progressões que parecem familiares, mas não memoráveis. Tem um refrão competente, um solo elegante, um desempenho vocal tão digno quanto possível actualmente por parte de Axl Rose. E, no entanto, não deixa nada atrás. Não vibra, não surpreende, não implode.

O que parece evidente, ouvindo estas duas faixas, é que a banda se encontra presa num limbo incómodo: não quer arriscar um álbum de inéditos composto do zero, mas também não quer admitir que depende estruturalmente de material em arquivo. O resultado são canções que oscilam entre a nostalgia controlada e o reaproveitamento resignado.

“Atlas” tenta recuperar uma postura majestosa, mas falta-lhe a imprevisibilidade emocional que sempre diferenciou os Guns N’ Roses dos seus contemporâneos: o ataque selvagem, o excesso teatral, a arrogância romântica. Já “Nothing” é a epítome da fase incaracterística do pós-reunião — um som que tenta ser universal, mas torna-se genérico, que tenta ser emocional, mas acaba neutro, que tenta soar a banda e acaba apenas a soar a profissionalismo esterilizado que domina demasiadas produções tardias.

Mas talvez a análise mais honesta seja esta: os Guns N’ Roses de 2025 não disputam criatividade; disputam sobrevivência simbólica. Não competem com 1987 ou 1991 — seria uma batalha perdida à partida. Compete-lhes provar que existe ainda um motivo válido para a banda existir enquanto organismo criador, e não apenas enquanto máquina monumental de palco.

A verdade é que tanto “Atlas” como “Nothing” parecem pensadas como peças promocionais de uma tour, mais do que manifestações de uma vontade artística renovada. São singles úteis — activam os mecanismos mediáticos, alimentam o catálogo digital, devolvem o nome à boca do público — mas não são, de forma alguma, declarações de vitalidade criativa.

No entanto, não são uma vergonha. A banda poderia ter lançado algo francamente medíocre — e não o fez. O que lançou é apenas inofensivo demais, calculado demais, estéril demais para uma banda cuja grandeza sempre derivou do risco, do erro, do excesso. Guns N’ Roses nunca foi sobre contenção: foi sempre sobre tudo aquilo que podia correr mal e, milagrosamente, corria bem. “Atlas” e “Nothing” são canções que não correm risco nenhum — e por isso não atingem a transcendência. Não falham; simplesmente não ardem.

No fim, fica a sensação agridoce: a banda que um dia reescreveu as regras do rock continua viva, operante, tecnicamente capaz. Mas o fogo interno — aquele que queimava demasiado alto, demasiado rápido, demasiado perto da autodestruição — reduziu-se a uma brasa que ilumina, mas não incendeia. “Atlas” tenta reacender o velho clarão; “Nothing” confirma que a banda continua a reciclar o seu próprio passado. Entre as duas, há competência, resquícios de grandeza e uma honestidade formal que não se pode negar. Mas não há fulgor. Não há paixão. Não há aquele grito que derruba paredes.

É isto: os Guns N’ Roses ainda existem. Só não parecem lembrar-se porquê…

A foto que abre o artigo é de Kevin Mazur.

Leave a Reply