O livro “Awakening Of The Gods” é um compêndio da fanzine com o mesmo título, publicada entre 1994 e 1996. Um documento essencial do underground português e europeu.
Entre 1994 e 1996, quando o metal extremo em Portugal ainda era um território de ninguém — sem infra-estruturas, sem imprensa especializada consistente, sem Internet a organizar o caos — havia quem fizesse aquilo que sempre sustentou o underground: fanzines, cartas, cassetes e obsessão. Awakening Of The Gods nasceu exactamente desse caldo primordial.
Editada por Ricardo Pereira, sob o pseudónimo Wanderer (o velho Odin), a fanzine foi pensada e escrita não a partir da distância crítica, mas desde dentro das próprias próprias cicatrizes de guerra. Pereira não era um espectador: era o vocalista dos Nifleheim, um dos projectos mais obscuros e radicais da primeira vaga do black/death nacional, ainda muito preso ao imaginário pré-segunda vaga: caos, primitivismo, anti-técnica assumida. Já nos anos em redor da primeira década do segundo milénio, foi frontman dos Decayed numa fase crucial da sua história e depois disso envolveu-se nos Göatfukk, projecto que assume sem pudor o lado mais bestial, provocatório e anti-civilizado do black/death metal (abre link). Essa vivência infiltra-se em cada página.
Ricardo Pereira decidiu reabilitar esse período de acervo promocional e histórico do underground da música extrema, compendiando a zine em livro. Awakening Of The Gods agora publicado inclui entrevistas e materiais produzidos nessa época preservando o espírito DIY original: perguntas directas, sem filtro, layouts crus, linguagem não higienizada. Não há aqui nostalgia domesticada, nem tentativa de reescrever a história à luz do presente. O que existe é documento.
As entrevistas atravessam uma cena internacional ainda em estado algo larvar, onde o black metal não era ainda um género institucionalizado, mas uma ideia difusa e violenta. Bandas como Mortuary Drape, Kawir, Decayed, Therion, Nuclear Death ou Invocator surgem não como “nomes de catálogo”, mas como cúmplices de uma mesma urgência subterrânea: criar algo hostil ao mainstream, à moral dominante e à profissionalização precoce.
O título, emprestado aos Kreator, funciona menos como referência thrash e mais como declaração de princípios. Awakening Of The Gods fala de um despertar — pagão, anti-cristão, estético e espiritual — que atravessava grande parte do metal extremo europeu nos anos 90, ainda antes da cristalização de códigos, cenas e dogmas.
Hoje, este livro vale tanto como objecto histórico quanto como testemunho ético. Mostra-nos um tempo em que o underground não era uma identidade de marca, mas uma condição material: precariedade, isolamento, excesso e convicção. E lembra-nos que, antes das plataformas, dos algoritmos e das narrativas oficiais, havia gente a construir memória com fotocópias, envelopes e noites mal dormidas.




Awakening Of The Gods não é um epitáfio. É um registo de ingenuidadse e, consequentemente, de pureza numa era que se vai tornando mais e mais artificial. Em formato A5, com 68 páginas, na Europa, o livro pode ser adquirido em lojas como a Iron Bonehead (abre link), por exemplo.
