Muito Mais

Muito Mais, Beatriz Pessoa

No terceiro álbum de originais, Beatriz Pessoa transforma desencanto em liberdade criativa. Entre a pop, o jazz, a MPB, a salsa e a experimentação, Muito Mais é um disco de humor, irreverência e reconciliação com a vontade de fazer música sem pedir licença.

Há qualquer coisa de particularmente saudável na forma como Beatriz Pessoa se atira a Muito Mais. Não parece interessada em demonstrar que consegue fazer muitas coisas, nem em construir uma identidade musical cuidadosamente delimitada. Pelo contrário, o terceiro álbum de originais nasce da decisão de deixar de controlar aquilo que gosta, as referências que a acompanham e as possibilidades que lhe apetece explorar. O resultado é um disco de pop luminosa e descomplexada, atravessado por linguagens tão distintas como o jazz, a música popular brasileira, a salsa, a electrónica e a experimentação, mas unido por uma personalidade que não precisa de escolher apenas uma direcção.

A liberdade que percorre o álbum tem, contudo, uma origem menos despreocupada do que a sua superfície poderia sugerir. Depois de Prazer Prazer (2023), produzido por Marcelo Camelo, Beatriz atravessou um período de desencanto com a indústria musical, marcado pela frustração de sentir a carreira estagnada, pela escassez de concertos e por uma relação cada vez mais desconfortável com a importância atribuída às redes sociais. A maternidade coincidiu com essa fase, trazendo também uma experiência de protecção exterior que a própria não solicitara. Na entrevista à Lusa (que importa ler, no link), a cantora explicou que sentiu uma tendência para a protegerem, como se a nova condição pessoal implicasse uma menor disponibilidade artística.

É deste contexto que nasce “Pó de Palco”, a canção que abre o álbum e que funciona como uma espécie de declaração de intenções. O título, um pequeno exercício de ginástica verbal, introduz o humor que atravessa o disco, mas a sua origem é bastante mais incisiva: a relação ambivalente com um meio que provoca frustração e ansiedade, mas do qual Beatriz não quer sair. A resposta à desilusão não foi o afastamento, mas a música. Há uma consciência crítica da indústria e das suas exigências, sem que isso se transforme numa pose de distanciamento. Afinal, como a própria reconhece, nada substitui a experiência de cantar em palco ou a felicidade de construir um disco.

A influência de Rita Lee foi particularmente importante nesse reencontro com a vontade de criar. Beatriz leu a autobiografia da artista brasileira durante a primeira fase de construção de Muito Mais, encontrando nela um impulso para regressar ao meio artístico com outro entusiasmo.

Não é difícil perceber a afinidade: a irreverência, o sentido de humor, a liberdade formal e a capacidade de atravessar diferentes linguagens sem perder identidade encontram correspondência em várias passagens deste álbum. Mas o mapa de referências é bastante mais vasto. Kate Bush, Mina, La Lupe, Nat King Cole, David Bowie, David Byrne, Björk e Caroline Polachek fazem parte do universo de escuta da cantora, a que se junta uma redescoberta dos GNR, em particular da escrita de Rui Reininho.

Essa amplitude não é apenas decorativa. A formação de Beatriz Pessoa no Hot Clube de Portugal e na Escola Superior de Música permite-lhe movimentar-se entre estruturas e linguagens com naturalidade, sem transformar o conhecimento musical numa demonstração de competência. “A Pique C’est Chique”, recuperada de uma composição originalmente destinada a uma fadista e reconstruída com GUSS, inclina-se para uma pop de recorte imediato. “O Fim do Princípio” suspende o movimento numa balada de piano, enquanto “I Wish” introduz uma pulsação de inspiração latina. Em “Treme”, a energia torna-se mais dançável; “La Fúria”, breve e construída em torno de uma espécie de improvisação vocal sem sentido literal, mostra como a própria voz pode funcionar como instrumento lúdico.

A colaboração com GUSS, responsável pela coprodução de Muito Mais, é decisiva para esta fluidez. O entendimento entre os dois músicos permitiu que as ideias de Beatriz encontrassem forma sem perder espontaneidade. O tema-título, que os reúne também nas vozes, fecha o alinhamento com uma dimensão indie pop que sintetiza o espírito do projecto: em vez de procurar uma fórmula, Muito Mais prefere manter abertas as possibilidades.

Entre os momentos mais conseguidos está “Ai Quem Me Dera”, com Femme Falafel. A cumplicidade entre as duas artistas dá corpo a uma canção que aborda a comparação constante nas redes sociais e a insegurança no período pós-parto, mas que recusa a gravidade como única forma de expressão. O humor e o ritmo não diminuem o que está a ser dito; tornam-no mais próximo. Também “Espanta”, com Guilherme Gomes, dos Napa, abre espaço a uma abordagem mais experimental, enquanto “Figuração” deixa transparecer uma afinidade com a pop brasileira de Rita Lee e Júlia Mestre.

E depois há “9,99€”. Um dos singles mais irresistíveis do álbum, parte da linguagem dos cartazes publicitários e da sedução dos preços psicológicos para construir uma pequena sátira ao consumo. A ideia é tão simples quanto eficaz: transformar um mecanismo banal do comércio numa canção pop contagiante, cujo refrão parece querer instalar-se permanentemente na memória. A ironia não interrompe o prazer da escuta; é precisamente o que o alimenta. É difícil não sorrir perante uma música que consegue ser simultaneamente tão divertida e tão certeira na observação do quotidiano.

“Não, Não, Não”, por sua vez, revela uma faceta mais contida e expressiva. Com sopros e cordas, aproxima-se de uma sensibilidade soul e dá espaço à voz para ocupar o primeiro plano. É um dos momentos em que a maturidade de Beatriz se manifesta com maior clareza, não por abandonar a irreverência que caracteriza o resto do álbum, mas por mostrar que esta liberdade também comporta vulnerabilidade e contenção.

Muito Mais não é um disco revolucionário, nem precisa de o ser. A sua força está na coerência com que acolhe diferenças, no prazer evidente de experimentar e na recusa de transformar a carreira numa sucessão de expectativas por cumprir. Beatriz Pessoa não procura provar que é capaz de ser mais uma coisa; permite-se ser todas aquelas que já era. E, num meio que tantas vezes exige aos músicos que sejam também estrategas de comunicação, gestores de imagem e promessas permanentes, há algo de genuinamente libertador nesta escolha. Muito Mais é, acima de tudo, um disco de alguém que voltou a divertir-se a fazer música — e que já não parece disposta a pedir desculpa por isso.


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