Em Fevereiro de 2019, os Mastodon encerravam em Lisboa o ciclo de Emperor of Sand, um álbum marcado pela morte, pela doença e por um inesperado Grammy. Nos bastidores da Sala Tejo, Bill Kelliher falava de exaustão, de tecnologia, de futuros possíveis — sem saber ainda qual deles se tornaria real.
Relida hoje, esta entrevista a Bill Kelliher funciona como um documento de outro tempo, um momento antes de se perceber que nada seria para sempre. Em 2019, Bill Kelliher falava de um álbum por decidir. Em 2025, sabemos que decisões foram tomadas — e quais ficaram pelo caminho.
Na verdade, não foram só decisões e ideias que ficaram para trás. Também Brent Hinds. Primeiro, abandonou a banda. Depois destroçou-a. A morte de Brent Hinds, no Verão passado, dá a esta conversa um peso que ela não tinha quando foi feita. Cada palavra de Bill Kelliher sobre continuidade, sobre criatividade e sobre a excitação de escrever o que viria a seguir ressoa agora como o eco de uma banda que perdeu um dos seus pilares. O que antes era expectativa tornou-se lembrança; o que era apenas um “antes” tornou-se fragmento de história.
Quase profético, “Emperor Of Sand”, o sétimo álbum de estúdio dos Mastodon, exigiu muito da banda. O álbum reflecte sobre a morte, sobre a forma como se enfrenta o anúncio de doenças terminais. Afinal, o baixista Troy Sanders e o guitarrista Bill Kelliher enfrentaram essa situação durante o processo de composição do disco. A morte nunca deixa de ser actual.
Ao mesmo tempo, o disco viria a tornar-se alvo de enorme sucesso comercial e aclamação crítica, levando os Mastodon a vencerem o Grammy na categoria de “Best Metal Performance”, na 60ª Gala Anual dos Grammy Awards, em Janeiro de 2018. O prémio foi atribuído ao single “Sultan’s Curse”, tendo ainda o álbum sido nomeado para a categoria “Best Rock Album”.
No seu seguimento, os Mastodon embarcaram numa digressão mundial que, de forma faseada, durou cerca de dois anos. Digressão que passou duas vezes por Lisboa. Primeiro em 2017, após uma ausência de cinco anos no nosso país, depois no dia 17 de Fevereiro de 2019, onde encerraram o ciclo de “Emperor Of Sand” ainda como um bloco indivisível, com Bill Kelliher ainda a falar de longevidade, de riffs e de digressões, de como continuavam a superar-se após quase vinte anos de estrada. Havia humor, entusiasmo, confiança — e uma energia que hoje sabemos ser efémera.
Nas horas que antecederam esse concerto, conversei com Bill Kelliher, que fez uma retrospectiva deste período e até levantou um pouco a ponta do véu em relação a um próximo álbum. O guitarrista também explicava os motivos para algumas mudanças de gear na altura, a saída da Gibson, com quem criou dois deslumbrantes modelos de assinatura (fora de produção), e a parceria com a ESP, e o quão fã se tornou da Line 6 Helix. A título de curiosidade, Bill Kelliher descartou ainda a possibilidade de alguma vez tornar a trabalhar com Steve Austin.
Reabilitar esta entrevista a Bill Kelliher hoje é perceber como os Mastodon já estavam cansados, mesmo no auge. Não se trata de dramatizar ou transformar nostalgia em espectáculo. Trata-se de ler a voz de alguém que falava de futuro, com a ingenuidade e a esperança que apenas quem ainda não perdeu pode ter. E de perceber que, em qualquer arte, como na vida, a eternidade é sempre relativa. Este arquivo não é só sobre o Bill Kelliher ou os Mastodon em 2019. É sobre tempo, perda e memória, e sobre a forma como a música que amamos se torna testemunho de vidas que não podemos manter intactas.
2019
Agora que fecharam o ciclo do álbum “Emperor Of Sand”, que retrospectiva consegue o Bill Kelliher fazer a este par de anos?
Sinto que o “Emperor Of Sand” é o nosso melhor disco. Demos muito da nossa alma e do nosso coração, para o fazer. Algo que teve muito que ver com escrevê-lo. Para mim, foi um processo muito emocional. A minha mãe tinha um cancro no cérebro, o qual acabou por a vitimar, mas durante esse período em que estávamos a escrever, foi como uma ignição para dar tudo aquilo que tinha a esse processo… [Bill Kelliher faz uma pausa].
Acabámos por ganhar um Grammy, o que é algo tremendo e nunca imaginei que isso pudesse acontecer. As digressões têm vindo a tornar-se cada vez maiores e melhores. Somos uma banda com quase vinte anos. É muito tempo. Muito tempo a tocar com os mesmos gajos. Esta digressão tem sido excelente, provavelmente a nossa digressão mais bem-sucedida. E cada digressão transmite essa sensação, cada vez que saímos para a estrada as coisas suplantam as anteriores. Isto continua a acontecer após estes anos todos.
Há algum segredo para essa longevidade em crescendo?
Devo dizer que o segredo é saber fazer folgas. Digressões de um mês. Normalmente não fazemos digressões que durem mais de um mês. Fizemo-lo com os Primus, a nossa digressão norte-americana mais recente, andámos cerca de nove semanas na estrada. Foi muito longa, mas foi uma boa digressão. Não pareceu durar tanto tempo.
Foi um desgosto essa digressão não passar na Europa. Tal como saber que a digressão do 10º aniversário de “Crack The Skye”, com Coheed And Cambria e Every Time I Die também não irá passar.
A cena com os Primus foi a convite deles. Achava que devíamos ter trazido isso à Europa, seria altamente. Mas nós apenas tocamos numa banda, tomamos decisões, mas não nos perguntam se queremos levar tal digressão para a Europa. Não mandamos nisso. São os promotores que vêm ter connosco e nos dizem «queremos trazer os Mastodon à Europa, os valores são estes». Por vezes, não faz muito sentido.
Acredites ou não, nem toda a gente quer ver uma digressão europeia com os Primus e os Mastodon. Ou seja, nem sempre o que parece bom no plano teórico é bom na perspectiva dos promotores, etc. Adorava ter feito essa digressão na Europa. Os gajos dos Primus são muito porreiros, são uma excelente banda e grandes músicos. Divertimo-nos imenso.
Butterslax vs. Helix
Referiste há quanto tempo tocam juntos. Também no equipamento que usam vocês são dados a longas relações. Estão associados à Orange há muitos anos, o Brann sempre usou Tama. Tu mudaste algumas coisas. Estiveste muito tempo com a Gibson e mudaste para a ESP, com um modelo Bill Kelliher…
Nunca quis deixar a Gibson. Tocava exclusivamente com as guitarras deles e gosto mesmo muito da Gibson. Mas as coisas na empresa tornaram-se mesmo estranhas. Todas as pessoas com quem tratava de forma mais próxima foram despedidas. Ninguém me estava a dar qualquer atenção e decidi que estava na altura de mudar.
A ESP permitiu-me criar o meu próprio modelo [ESP Bill Kelliher e LTD BK-600], algo que a Gibson nunca faria. Não sinto que me tenham retribuído o amor que lhes dei. Não foi recíproco. Tem sido óptimo trabalhar com a ESP. Usava pickups Lace, mas eles tornaram-se algo manhosos comigo, as coisas tornaram-se um pouco estranhas e deixei. Estou a estudar algo com a Seymour Duncan, com quem já estive há vários anos atrás. Espero que dê certo. Não uso muito a Orange, à parte das colunas, afinal criei o meu próprio cabeço com o Dave Friedman.
Ia-te perguntar, precisamente, por esse amp. Pelo Bill Kelliher Butterslax.
É um excelente amp. É como um Marshall modificado, um JCM800 com mais músculo. Um pouco como o JCM800 de assinatura do Kerry King. Voltando à pergunta anterior, gosto de mudar um pouco as coisas ao fim de alguns anos. Actualmente, estou a usar a Helix da Line 6. É super versátil. Não preciso de andar com uma carrada de pedais atrás e tem um excelente som.
Por algum motivo, pensava que usavas Kemper Profiling…
Não curto Kemper. Comprei um e tentei funcionar com ele, mas simplesmente não consegui. Usei um Axe-Fx [Fractal Audio] algum tempo, gosto dessas unidades, mas acho que a Line 6 é melhor para o que estou a fazer, no fim de contas. Está tudo incluído no circuito da Helix, em formato pedalboard, o ecrã é muito bom, consegues mudar ou ajustar muito facilmente todos os teus parâmetros e é um equipamento com um visual muito sexy [risos]. A seguir ao concerto aqui em Lisboa, vamos para Israel e não posso levar todo o meu equipamento. Nesses casos, levo a pedalboard, ligo a um power amp e estou pronto.
Apenas emulas os amplificadores que possuis na sua versão original ou experimentas emulações de outros modelos?
Procuro usar os mesmo amps e os mesmos sons que fiz em estúdio. Este tipo de tecnologia ainda não é perfeito, está próximo, mas ainda não chegou lá. Quero dizer, oiço o som de algumas pessoas e é fenomenal, acho que os sons dos amps que uso também são muitos bons, especialmente para gravar algumas ideias.
Tendo vindo a acompanhar-vos ao vivo desde 2006 ou 2008, a forma como soam ao vivo parece vir a aproximar-se com som dos Metallica na altura de “Master Of Puppets”. Estarei a ser imbecil?
Por mim tudo bem, esse é um dos meus discos favoritos, de sempre [risos]. Tomo isso como um elogio. É mesmo um excelente álbum ao qual ser comparado. Não sei…
Em todos os nossos álbuns há muita coisa a acontecer “atrás” da música, muitos samples, teclados e outros sons. E carrego tudo isso num pedal que usamos como click track, para o Brann seguir. Fazemo-lo para aumentar a experiência do ouvinte. E se não fosse com esse sistema teríamos que andar com um teclista, com outro tipo a disparar e a controlar os samples. Tentamos tornar o concerto memorável, com os ecrãs e luzes. É um concerto diferente de Metallica, mas agradeço o elogio.
Ainda agora estão a encerrar este ciclo, mas o que me podes dizer sobre um próximo álbum?
Estamos sempre a escrever. Agora que iremos ter dois meses de folga, devemos escrever mais algumas canções. Tenho muitas ideias e riffs e, quando chegar a casa e ao meu home studio, vou começar a trabalhar nisso. Já terminámos uma canção. No sentido em que já está totalmente misturada e masterizada. Também pretendemos fazer algo com o Scott Kelly, um EP ou algo assim, mas não sei ainda naquilo em que nos iremos focar, se num novo álbum, se num álbum com o Scott, se faremos só uma coisa em vez de duas separadas. Não decidimos ainda.
E tornar a fazer algo como aquele tremendo disco de Today Is The Day, “In The Eyes Of God”, que tu e o Brann fizeram?
Não. Isso foi uma tortura. O Steve é um tipo louco. Não posso voltar a uma coisa dessas. Não teríamos saído se ele fosse porreiro connosco, mas ele foi meio idiota.
Esta entrevista a Bill Kelliher foi feita, transcrita e editado pelo autor, originalmente publicada na Arte Sonora.
