Brent Hinds, fundador e guitarrista dos Mastodon, morreu aos 51 anos num acidente de mota em Atlanta. Eis um pequeno tributo ao seu legado, das guerras internas à guitarra que moldou o metal moderno.
Brent Hinds morreu como sempre viveu: em movimento, em confronto, em plena velocidade. Na noite de 20 de Agosto de 2025, o guitarrista e fundador dos Mastodon perdeu a vida em Atlanta, num acidente de mota brutal que o arrancou da estrada e do tempo. Tinha 51 anos. E deixa atrás de si um rasto de riffs que se tornaram mitos, um legado impossível de apagar e um final amargo, marcado pela guerra aberta com aqueles que um dia foram os seus irmãos de banda.
Nos últimos meses, Hinds tinha-se tornado presença constante nas manchetes pelos motivos errados. Depois de um anúncio corporativo e asseptizado da separação — a banda a falar de “decisão mútua”, ele a sentir-se expulso —, o guitarrista não mediu palavras: chamou os Mastodon de «banda de merda com seres humanos horríveis», acusou-os de o humilharem, de o relegarem a um papel de figurante nas sessões de Hushed and Grim. As feridas eram antigas, agora públicas. Mas, por trás das declarações explosivas, havia a mesma essência que moldou os riffs de “Blood and Thunder” ou “Oblivion”: a recusa em ser domesticado.
Brent Hinds nasceu William Brent Hinds a 16 de Janeiro de 1974, em Helena, Alabama. Cresceu com o country e o rock sulista, moldou os dedos no banjo antes de empunhar a guitarra eléctrica, e trouxe para o metal aquela cadência híbrida, quase bluegrass, que se tornou assinatura. Em 2000, ao lado de Troy Sanders, Brann Dailor e Bill Kelliher, fundou os Mastodon em Atlanta. Dois anos depois, Remission rasgava os circuitos underground; em 2004, Leviathan transformava-os em titãs do metal moderno. Seguiram-se Blood Mountain (2006), Crack the Skye (2009) — provavelmente o seu disco mais ambicioso — e uma sequência de álbuns que cimentaram o quarteto como uma das bandas mais influentes do novo milénio.
Mas Hinds nunca foi apenas Mastodon. Fiend Without a Face, West End Motel, Giraffe Tongue Orchestra, Legend of the Seagullmen — projectos onde explorava outras texturas, onde se permitia ser mais sujo, mais livre, menos polido. Essa inquietação constante alimentava tanto os seus solos desconcertantes como os atritos internos. Era, no fundo, o preço de carregar nas mãos uma música maior do que qualquer banda.
Na morte, como na vida, Brent Hinds deixa um legado denso, que merece ser redescoberto. Oito álbuns essenciais com os Mastodon — de Remission a Hushed and Grim — são apenas a superfície de uma discografia que moldou uma geração de músicos e fãs. A sua guitarra era mais do que técnica: era narrativa, era visceral, contava histórias do Sul profundo, do caos interior, da beleza encontrada no peso. Ouvir “Sleeping Giant” hoje é ouvi-lo falar connosco de onde quer que esteja.

Para redescobrir Brent Hinds com Mastodon importa ouvir, uma e outra vez, os álbuns Leviathan (2004), Crack the Skye (2009), Emperor of Sand (2017); e as malhas essenciais como “Blood and Thunder”, “Oblivion”, “The Czar”, “Sleeping Giant” e “Sultan’s Curse”. Side projects: Fiend Without a Face (2011), Broken Lines (2016, com Giraffe Tongue Orchestra), Legend of the Seagullmen (2018).
Para os fãs, o choque será longo; para o metal, a ausência será eterna. Brent Hinds foi, para o bem e para o mal, um dos últimos verdadeiros rockers da sua era. Contraditório, genial, autodestrutivo. Um homem que nunca aceitou caber no molde que a indústria tentou impor-lhe. E é assim que devemos lembrá-lo: de guitarra em punho, a cuspir notas contra o tédio e o conformismo, a provar que o metal, quando é honesto, é uma forma de vida.

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