Entre fuzz, psicadelismo e ondas de verão, a edição SonicBlast 2025 provou porque este é um dos festivais mais autênticos de Portugal. Estivemos em Âncora durante três dias numa celebração que continua a crescer sem perder a alma.
DISCLAIMER: Abramos com uma confissão: foi necessário tempo para escrever estas palavras, perante a incapacidade de o fazer nas horas/dias seguintes ao término da edição do SonicBlast 2025, realizado mais uma vez na Praia da Duna dos Caldeirões, Âncora, Minho, Portugal, extasiados pelo ataque aos sentidos a que fomos sujeitos. A música, quando honesta, é perigosa. Um atentado ao juízo e à integridade. A curadoria do SonicBlast, cúmplice e reincidente, continua a entalar-nos com declarado bom senso e bom gosto. Saímos mais confusos que ao entrar. Saímos atravessados, desconstruídos, provocados.

Que melhor forma de abrir hostilidades do que com os Capela Mortuária, que não perdem tempo com grandes contemplações e rapidamente dizimam, bocado a bocado, o Palco 3 (ou Warm Up Stage) do SonicBlast 2025. A plateia começa a compor-se. Os minhotos escalpelizam com minúcia as propostas da sua, ainda, estreia “Monstro” (2023). É daquelas aberturas que ninguém sai indiferente.
E indiferentes não estão os BØW aquando da sua subida ao Palco Principal 2 do SonicBlast 2025 – trazem consigo uma alegria genuína, palpável, quase pueril. Uma plateia que lhes é merecida está ali para celebrar uma banda que equilibra a celebração com a visceralidade, a fragilidade com destemor. Derretem a cacimbada minhota com a efetividade de cada estalo dos manifestos presentes nos EPs “Infectious Salty Assault I” e “Infectious Salty Assault II”.
Os Hooveriii assumem as honras de abertura do Palco Principal 1 do SonicBlast 2025. Para quem não sabia ao que vinha, Bert Hoover e companhia trataram de se esmerar. Rigor e disciplina numa amálgama de psych, space, prog, kraut e pop. Há espaço para um pouco de tudo de forma fluída e desembaraçada. Há sensibilidade e há travo. Já a psicadelia punk dos Spoon Benders revelou maior interesse em abalar do que embalar os sentidos. Katy Black é pura determinação e conduz o quarteto de Portland, estabelecido em Los Angeles, com infindável pujança, especialmente quando saem de momentos de maior experimentalidade para ataques garage rock impregnados de alma punk. Kudos!
Quando voltamos ao palco principal para celebrar os Slomosa, o espaço já se revelava mais apertado para o imenso público que veio receber de braços abertos os quatro de Bergen. O tundra rock (ali entre o deserto californiano e o frio escandinavo) dos noruegueses tem tanto de desolador como de solene. “In My Mind’s Desert” ou “Horses” revelam-se exemplos perfeitos de quão cativantes e efectivos são os seus temas, criados propositadamente para a comunhão entre o público e a banda.











A explosão que se seguiria vinha na forma dos DITZ e a sua combinação catártica e caótica de elementos que devem a devida proporcionalidade ao punk, como ao noise e hardcore. O SonicBlast 2025 foi a segunda visita a solo nacional este ano, com os britânicos a apresentarem-se com o devido despudor e proximidade com os presentes. Expressão máxima desta comunhão corporizada por Cal Francis, com direito a exploração de andaimes, prova vínica e stage dive.
Ninguém diria, mas os Earthless revelar-se-iam o necessário tirasabores perante a enxurrada de estímulos a que, por esta altura, já tínhamos sido sujeitos no SonicBlast 2025. Uma experiência sensorial subtil impregnada de improviso e fluidez e que abriria a passadeira vermelha à estreia em solo nacional de King Woman. Há um pulsar de luzes que se aligeiraram de um rubro carmim para laranja palpitante que tem tanto de angelical como demoníaco. O tónico está dado. Os seus “Celestial Blues” entram na noite de Âncora congregados com “Utopia” (do anterior “Created In The Image Of Suffering”).
E entre o sofrimento que carrega na voz, dir-se-ia que Kristina Esfandiari tem uma alma quase fadista (aceitemos as devidas distâncias), e uma procura recorrente pelo calor do publico. Há partilha, há fragilidade e há bravado até ao final, com a rendição arrebatadora de “I Wanna Be Adored”, dos Stone Roses.
Obliteradores como sempre, os Amenra dimensionam a sua viagem à medida da abertura com “Razoreater”. Na gíria: Jarda.
Bernardo Matos
De peito aberto navegamos uns metros para o lado. Os Amenra são suspeitos habituais nas lides festivaleiras a norte, maioritariamente em sala ao invés de palco aberto destas dimensões. Obliteradores como sempre, no SonicBlast 2025 dimensionam a sua viagem à medida da abertura com “Razoreater”. Na gíria: Jarda. Enquanto isso somos encaminhados para o fosso dilacerador que são os belgas, conduzidos até à quase incepção da banda com “Silver Needle. Golden Tail”. Curiosidade é reparar que ao volante das 4 cordas que alimentam o som primitivo dos fundadores da Church of Ra está agora, ao que parece oficialmente, Amy Barrysmith, dos Year of The Cobra.










Uma das mais valias do SonicBlast 2025 foi, precisamente, a capacidade de dirigir o público entre estímulos variados sem que isso pareça forçado ou constrangedor. Prova disso é o distanciamento a que são votados ambos os cabeças de cartaz, quando ao Palco 1, após o breu belga, sobe precisamente o ensolarado stoner rock dos Fu Manchu, que já levam 40 anos nestas lides. 4 décadas na crista da onda.
Essa longevidade permite-lhes atravessar o percurso que vai de “No One Rides For Free” (1994) a “The Return of Tomorrow” (2024) com plena autoridade, mantendo intacta a sua identidade. Pelo caminho, não faltam clássicos como “Evil Eye”, “King of the Road” ou “California Crossing”. No fim, o saldo do concerto no SonicBlast 2025 é simples: sorrisos por toda a parte.
O encerrar da noite veria o bis dos Máquina no cartaz do SonicBlast 2025 e, já no Palco 3, o stoner épico dos canadianos Heavy Trip e o crossover dos Inhuman Nature. Só para duros.
Do Cheiro a Napalm Pela Manhã ao Embalo Crepuscular
Quando entramos no recinto para a segunda leva de actos a animarem as hostes do SonicBlast 2025, já o japoneses Tō Yō estão a findar a sua actuação carregada de psicadelismo identitário, apoiada no álbum “Stray Birds From The Far East” (2023). Música do mundo para abrir a mente dos presentes ao que se seguia. Uma alvorada atómica perpetuada pelos Nagasaki Sunrise que dizimam os seus hinos bélicos infundidos de heavy trash oitentista, punk e riffs sísmicos complementados com a habitual dose técnica.
Manteve-se a toada lusa no SonicBlast 2025 com os Sunflowers, banda portuense em ascensão no cenário independentemente nacional. O trio enverga os seus hinos de protesto com uma clareza e minúcia respeitáveis. Há momentos de evidente beleza em contraste com tomos de violência sónica inflexível. Suavidade e ângulo. Garage, punk, surf, férias no Camboja. Bem-vindos, a Âncora.





Por esta altura, muitos dos presentes no SonicBlast 2025 já se perguntavam que horda era aquela de figuras de chapéus desabados, vermelhos e pontiagudos. A resposta é simples — ridiculamente simples: os Gnome estavam prestes a tomar de assalto o Palco 2. Por entre o leve misticismo indumentário, que ao que parece encontra parelha numa camisa havaiana, os belgas que tem em “Vestiges of Verumex Visidrome”, o seu LP do ano passado, a tábua rasa para este concerto no SonicBlast 2025, calcorreiam com eficácia temas como “The Ogre” ou “The Gods Are Evil”, até ao final apoteótico com “Ambrosious”, tratado de rock pedrado com a devida injecção de peso.
À medida que o Sol teima em ofuscar-se, Emma Ruth Rundle assume sozinha o Palco 1 para, com a sua aparente fragilidade e lisura, nos embalar apenas acompanhada da sua guitarra. Tinha outro sabor vê-la ladeada de músicos, o que oferece às suas composições outra pujança? Talvez. Mas talvez o doce embalo de temas como “Dark Horse” ou de “Marked For Death”, revisitados na sua forma mais crua e despida, fosse previamente desenhado para nos lembrar que há canções que vivem mais intensamente quando expostas ao osso.
Sem a rede de apoio instrumental, cada acorde soa como uma confissão, cada pausa como uma ferida aberta, e o silêncio entre as notas tão eloquente quanto as próprias melodias. No fim, a ausência de ornamento revelou-se força, e não fragilidade: um exercício de despojamento que nos fez sair do Palco 1 do SonicBlast 2025 não mais pesados, mas paradoxalmente mais leves.
Ainda na ressaca dos DITZ, cabe aos Chalk preencher a lacuna noise orelhuda e confrontacional do segundo dia do SonicBlast 2025. O trio de Belfast assume-se mais “pós” que propriamente punk, mais pulsante do que caótico. É a nível de estímulos que nos sentimos imersos, como se a sua música fosse um choque eléctrico constante entre o corpo e a mente, arrastando-nos para uma rave sombria onde cada batida pesa tanto quanto um grito distorcido.
Havia imensa expectativa para o mantra deambulatório dos My Sleeping Karma, aqui numa função conseguidíssima de abrir caminho para os não menos esperados Witchcraft. A instrumentalidade dos alemães foi um óptimo tónico para a ceia de luxo servida pelos suecos.
Entre o post rock denso, a espaços tribal e seco, crivado de crescendos dos primeiros e a abordagem rock de final dos tempos, plena de ocultismo moderno travestido de crítica social dos segundos, o Palco 1 do SonicBlast 2025 viu-se à pinha até muito perto da 01h da manhã do dia seguinte, altura em que as contas são de novo baralhadas e a polirritmia synth punk industrializada dos catalães Dame Area toma conta dos corpos resistentes prontos a serem devidamente sacudidos.
O recente EP “Sub Rosa” dá aos Daevar, já no Palco 3, o crivo necessário para sacudirem os corpos restantes com o seu doom modernaço, cabendo aos Witchthroat Serpent, que abraçam uma visão mais classicista do referido estilo (e Wizard ou Saint Vitus poderão servir de farol estético), o papel de mergulhar o público numa espiral de riffs densos e hipnóticos, resgatando o peso ritualístico das origens e recordando a todos porque o vetusto género assume tamanha intemporalidade.
A Realidade Crua Punk HC & Escapismo
E chegamos ao terceiro dia do SonicBlast 2025. A situação já flui escorreita, em piloto automático festivo. O borburinho junto ao Palco 1 é elucidativo do quão aguardados são os Messa. “The Spin” é para muitos um dos lançamentos de 2025. Como “Close” foi um dos lançamentos de 2022. O doom elegante dos italianos tem na vocalista Sara um elemento de foco hipnótico que permite ao quarteto manter-se elevado até nos momentos de maior opressão sonora. Nada parece forçado.
O Sol resolveu aparecer, o que deslocou um pouco singles como “At Races” ou “Fire on the Roof”, mas complementa na perfeição a chegada dos The Atomic Bitchwax, o trio com ligações a Monster Magnet. Os 45 minutos em que assumiram os comandos do Palco 2 do SonicBlast 2025 talvez não sejam suficientes para explorar as três décadas de riffs, fuzz e energia cósmica que carregam às costas, mas bastaram para deixar uma marca incandescente e provar, mais uma vez, porque continuam a ser uma das forças mais consistentes e respeitadas do stoner rock.




Do groove impulsionador de adrenalina passamos à viagem cósmica meditativa dos King Buffalo, faces duma mesma moeda plena de densidade e crescendo. Sonoridade pilar do SonicBlast 2025 (como da génese do festival,) além do peso ou volume, o stoner é, antes de mais, acerca da viagem. Deixemo-nos conduzir. Uma viagem que continua à boleia dos Dead Ghosts e do seu rock comemorativo, com infusão de garage lo-fi que nos traz à memória os The Black Keys.
A torrente de público que, pelas 20h, se agrega para ver os Monolord no SonicBlast 2025 é justificada pelo estatuto e carácter único que o outrora power trio já cimentou. Não ficam de fora petardos obrigatórios como “Rust” ou “Emperess Rising” que, por estes dias, já imploram um acompanhamento renovado (“Your Time To Shine” já data dos amaldiçoados tempos pandémicos de 2021). Ainda assim, nem só de death metal vive a Suécia e a b anda de Gotemburgo é prova viva disso, quando cunham marteladas de doom que têm tanto de atmosférico como sombrio, de directo quanto hipnótico.
Os confrontacionais Patriarchy vieram para deixar a sua marca em quem escolheu abraçar o duo de Los Angeles. São de tal forma disruptivos e marcantes que damos por nós boquiabertos. Descritos como partes iguais de ABBA e Nine Inch Nails, fundem pop electrónica com intensidade industrial numa performance desafiadora, visual e sensorialmente. Todavia, estava na altura de um dos actos mais aguardados do SonicBlast 2025, e com um espírito morno e acolhedor os Circle Jerks dão-nos um concerto demolidor, veloz e cheio de momentos que relembraram porque permanecem um dos pilares do punk hardcore californiano e mundial. Num alinhamento com 29 temas, a noite foi uma viagem frenética pelo legado dos norte-americanos, sempre conduzidos pela energia imparável de Keith Morris.
A cada par de temas, Morris mantinha o seu habitual tom politizado e bem-humorado, ora interrompendo para pedir desculpa pela actual regência americana, celebrar as outras bandas californianas que pisaram os palcos do SonicBlast 2025 e, claro, agradecer à moldura humana que encheu o recinto, deixando evidente a ligação calorosa entre banda e público. A setlist foi um desfile de clássicos atemporais: “Wild in the Streets”, “Live Fast Die Young” ou “When the Shit Hits the Fan”, entre outros, que transformaram os sonic blasters numa massa em ebulição. Cada tema recebido com a intensidade devida.







Sem cedências a modas ou reinvenções desnecessárias, os Circle Jerks entregaram exactamente aquilo que os trouxe até aqui: velocidade, sarcasmo, crítica social e uma energia punk que resiste ao tempo. E, após uma lição de punk hardcore directo e inveterado nada melhor que viajar até à Bielorrússia e dançar com os Molchat Doma e o seu pós-punk minimalista com laivos de synth e darkwave que tem vindo a evoluir estruturalmente tornando-se mais hipnótico e chamativo. A estética brutal contrasta com a sua movimentação liberta e extravagante. Percorrem a sua ainda jovem discografia, que não dá sinais de abrandar. A energia é palpável. Saímos ilesos. Por pouco.
Já da segunda aparição dos fantásticos Castle Rat no SonicBlast 2025 — depois de já terem incendiado a noite de warm-up — não há como escapar: somos imediatamente sugados para o seu universo de fantasia tingido de medievalismo. A imersão é tão poderosa que não resta senão reconhecer que estamos diante de uma banda destinada a conquistar o mundo. Riley Pinkerton, magnética no papel de Rat Queen, exala teatralidade e sensualidade até ao momento em que encara a própria morte (na figura da Rat Reaperess ou de Death Herself). Todo este aparato cénico encontra eco no peso e na grandiosidade do doom épico que pulsa em “Into The Realm” (2024), disco que confirma a promessa e o feitiço.
De doom, sludge e crust se vestem os Dopethrone, que com a sua fúria transcanadiana vem encerrar o Palco Principal 1. Entre o arrasto de uns Electric Wizard e a sujidade dos Eyehategod, cospem-se os temas de forma viperina, infundidos de brutalidade e violência. Vince Houde continua como força motriz, saturande e distorcivo. Catarse colectiva perante estes ritos de devastação, enquanto nos aproximamos do fim, que viria na forma dos Vinnum Sabbathi, erguendo paredes de gravidade tectónica e atraindo ao Palco 3 todas as almas corajosas, dispostas a receber a derradeira unção do SonicBlast 2025.
O SonicBlast continua sem nos afagar — desafia! Saímos diferentes: confusos, inquietos… melhores. Depois do eco, tudo muda. Venha depressa o 5 de Agosto de 2026. O texto é do vosso escriba Bernardo Matos, as fotografias do SonictBlast 2025, extraídas ao Facebook oficial do SonicBlast, são do Iago Alonso.
