Muito daquele misticismo que os The Cult exalam no seu hard rock advém de Billy Duffy e da sua sonoridade única, com um sentido estético bastante desenvolvido, sobre a qual o guitarrista nos fala.
Billy Duffy tornou-se um guitarrista influente muito além da sua técnica e da personalidade que acrescentou à guitarra gótica, se pensarmos nos primeiros trabalhos dos The Cult. A sua importância na música é quase tão decisiva como a sua própria cidade. No final dos anos 70, o guitarrista fundou uma banda de carreira curta, mas para a qual convenceu Morrissey a tornar-se vocalista.
Assim, os The Nosebleeds (que se separaram após alguns concertos) foram a primeira banda em que Morrissey cantou; a influência de Billy Duffy parece ser ainda maior se atentarmos a histórias que nos dizem que foi o guitarrista dos The Cult que encorajou Johnny Marr a pegar numa guitarra. É como se Billy Duffy fosse o padrinho dos The Smiths…
A dinâmica bem vincada dos The Cult faz parte do manual do rock, grande frontman e um grande guitarrista solo. Longe dos tempos que motivavam mais conflitos de ego entre ambos o que, necessariamente, se reflectia na produtividade da banda, os The Cult passam por fase de grande fulgor. Aproveitando o mote dado pela edição do álbum “Choice Of Weapon”, Billy Duffy falou-nos sobre o seu som de guitarra, na altura, numa conversa publicada na extinta edição impressa Arte Sonora #26.
O nono álbum dos The Cult procurou regressar a uma certa pureza hard rocker e conectá-la com o sentido exploratório que Billy Duffy tinham assumido com os imediatamente anteriores EPs “Capsule”. Com Chris Goss e Bob Rock na produção, “Choice Of Weapon” é um álbum sólido. Aqui trilhavam com eficácia o hard rock mais musculado, iniciado nos esforços em conjunto com o produtor Bob Rock em “Beyond Good And Evil” e expandido com a entrada de John Tempesta para a bateria, no álbum imediatamente anterior.
Como escrevo as músicas, na maioria das canções dos The Cult, estas são orientadas pela guitarra.
Billy Duffy
Com os EPs “Capsule” havia ficado a dúvida se tornariam a editar LPs. O que acabou por ditar a edição de “Choice of Weapon”?
Gostámos de fazer os “Capsule”, foi uma forma de experimentação. E no final, acabámos por perceber que continuamos a ser escritores de canções e podíamos avançar com um LP. Fazer o disco foi continuar aquilo que sempre fizemos. Mas fazer os “Capsule” foi algo importante porque manteve as coisas em andamento – não foi necessário escrever 15 canções ou assim, apenas algumas que permitiram aos fãs perceber as novas direcções e dessa forma ganharmos a confiança para o novo disco. Esse foi um factor que ditou os EPs. O Ian [Astbury] estava muito confiante em editar música de forma diferente, em sermos nós mesmos a lançar o nosso trabalho. Bom, tínhamos um parceiro discográfico, mas ele queria estar mais envolvido nessa experiência.
Esteticamente, os The Cult têm vindo a desenvolver mais “músculo” nas guitarras…
Penso que essa é uma afirmação justa. Continuam a estar presentes muitos dos elementos clássicos dos The Cult. Mas penso que é muito importante apresentá-los de uma forma refrescada, modernizada. Nesse sentido, penso que conseguimos um bom equilíbrio.
O John Tempesta entrou em “Born Into This”. Tendo tocado com bateristas como o Eric Singer ou o Matt Sorum o que um baterista vindo do thrash metal trouxe para o som da banda?
O John esteve quase a fazer uma audição para os The Cult em 1993 ou ’94. Acabou por ser contratado o Scott Garrett. O John conta a história que eu e o Ian não aparecemos para a audição, o que pode muito bem ser verdade! Conhecemos o John em New York, quando ele era drum tech do Charlie Benante (dos Anthrax), algures em ’86. Foi aí que gravámos o “Electric” e encontrávamo-nos com esse pessoal, nessa altura. Contudo, só tomei conhecimento do seu trabalho de bateria quando ele tocou com o Rob Zombie – se o visse apenas como uma baterista de thrash metal isso seria uma negativa para tocar connosco, mas se podia fazer as coisas do Zombie, que eram bastante pesadas e ritmadas, então decidimos experimentá-lo na nossa sonoridade. Deixámo-lo tocar o seu estilo e as coisas soam muito bem. Por exemplo, o Matt Sorum fez parte de uma tour dos Motörhead… Estes tipos conseguem variar. Para tocar em The Cult um baterista precisa de ter swing.
Mas tendo trabalhado com um número considerável de bateristas e sendo o som dos The Cult basicamente um power trio, depois com o Ian a cantar, quão influente se torna a dinâmica da bateria na sonoridade da banda?
De facto, a bateria é muito a extensão do baterista enquanto ser humano. 10 bateristas poderiam tocar a mesma música e ela soaria 10 vezes diferente. Como escrevo as músicas, na maioria das canções dos The Cult, estas são orientadas pela guitarra, normalmente tem que ser o baterista a ajustar-se a isso. Têm que encontrar o seu espaço naquilo que estou a tocar, até porque em termos práticos eu inicio muitas das canções e tendo escrito as mesmas estabeleço o feeling. Isso pode fazer com que as coisas não funcionem, por exemplo, o Eric Singer é um excelente baterista e quando fez as demos para o “Sonic Temple” o Bob Rock achou que não era mesmo aquele o feeling para o álbum – isso não aconteceu por o Eric ser um mau baterista, de modo algum, mas apenas pelo feeling, que era um pouco diferente daquilo que queríamos. Isso acontece com os músicos. O Johnny encaixou-se muito bem e é muito consistente! Desde que está na banda, em 7 anos, houve dois concertos em que esteve doente – não devia ter tocado sequer devido ao seu estado – e não tocou muito bem, mesmo assim foi bastante bom. 2 concertos! É muito consistente, mantém os mesmos níveis de energia e dinâmica em cada concerto e isso torna-nos uma banda muito consistente ao vivo. Isso certamente advém da resistência que se adquire a tocar com uma banda como os Testament! Já toquei com bateristas que podem ser fenomenais num dia e horríveis no dia seguinte [risos].
Voltarem a trabalhar com o Bob Rock foi determinante nesse processo – a conjugação entre o clássico e o moderno?
Foi uma combinação com aquilo que havia sido feito nos “Capsule”, com o Chris Goss (que trabalhou com o Ian, no seu álbum a solo), que pela especificidade desse trabalho gastou um pouco do “gás” quando estávamos a trabalhar neste álbum. Daí ter surgido o Bob Rock que nos ajudou a cortar a meta. Ele consegue ser muito directo a fazer as coisas, não há rodeios – ele surgiu e sabia aquilo que tinha de ser feito. Inicialmente gravamos sempre juntos, mas depois reparamos e refazemos algumas coisas. 9 em 10 vezes gravamos enquanto banda, para apanhar aquele feeling – essa é a essência de gravação. Inclusivamente, se o Ian já tiver alguma coisa grava logo vozes também.
E aproveitando essa intimidade de trabalho com o Bob Rock permitiu usarem alguns “velhos” truques de gravação/produção?
Gravámos em Pro Tools, não tínhamos orçamento para gravar old school. Ainda que, os “Capsule” tenham sido gravados em fita. Na verdade, actualmente, não consigo notar diferenças. O último que gravámos mesmo “à antiga” foi o “Electric”. Neste momento, e neste disco, estamos mais concentrados nas canções, na performance da banda a gravar – quanto ao som a confiança é total no Bob Rock, ele trata disso.
Por falar em sons, és bastante zeloso do teu som de guitarra. Que rig usaste?
Usei uma combinação de coisas no álbum. Ao vivo, basicamente, uso um BadCat misturado com um Matchless – ambos são combos. Uso também um Marshall JCM800 para algumas coisas e ainda uso um Roland JC120. Ocasionalmente uso outra coisa, como aconteceu enquanto trabalhámos com o Chris Goss e que gravei muita coisa através de um Supro – ele tem uma colecção de Supros, dos anos 50 –, alguns solos e outros apontamentos, para conseguir dar um som realmente distinto à guitarra. Mas nada do outro mundo, o Supro foi o único amp mais exótico que usei. Quanto a micros para captar não tenho qualquer input – apenas decido se gosto do som de guitarra ou não – esse é o tipo de coisas que deixo totalmente nas mãos de tipos como o Chris Goss ou o Bob Rock, os engenheiros, cada um tem as suas técnicas.
E nos takes usaste o backline todo ligado ou gravaste um amp de cada vez?
Normalmente separo o JC120 e o Matchless – para sons mais limpos – ou então o Marshall com o Matchless também, para o tipo de sons contrário. Raramente tenho todos activos, como acontece ao vivo. A única vez que captei o rig como uso ao vivo foi para corrigir um enorme erro de guitarra que dei num dos concertos que estão em DVD (o “Live Cult – Music Without Fear”), então montámos o rig e fiz um take para substituir a gravação original. Ao vivo, já raramente ando com todo o material. É tudo alugado. Fica muito caro enviar os amps dos USA para a Europa, então contento-me com os pedais e com as guitarras. Na verdade não precisas mesmo do teu material. Tudo bem, permite mais consistência. Mas, actualmente, é fácil ter um bom Marshall ou o JC120 e muitas vezes acabo por tocar com um Vox AC30, para me dar o som que tenho com o Matchless – embora tenha um pouco mais de treble serve bastante bem.
Posso deduzir que não és grande adepto das emulações?
Não, de todo. Preciso de estar a pisar qualquer coisa. A Line6 foi muito simpática comigo e deu-me aquele delay verde, o DL. Soa bastante bem, tenho experimentado muito em casa, mas não tenho a certeza se já estou pronto para usar isso em palco. Na verdade prefiro as coisas da BOSS, funcionam muito bem. Já uso os delays da BOSS desde 1983! No “Sonic Temple” e no “Ceremony” usava um sistema de rack, com alguns delays KORG – uma recomendação do Bob Rock, soavam muito bem usados pelo John Sykes. Nos últimos anos voltei a usar os pedais no chão e, simplesmente, prefiro o som. Tenho uma rack, mas não a uso. Como está a indústria actualmente, fazemos alguns flying gigs, coisas pontuais. E preciso de ter um rig simples e funcional que tenha um bom som. E ter a rack, ter que estar sempre a ajustar montes de efeitos… Para os Rolling Stones ou os U2 isso é ajustável, mas para uma banda normal não é muito prático.
Não sei explicar isso, faz-me sentido assim, usar um som ou uma ou duas notas mais fora do comum, que dão essa aura mais mística.
Billy Duffy
E em estúdio usas logo o processamento ou apenas acrescentas os efeitos na mistura?
Isso depende da situação. Na maior parte das captações não uso muitos efeitos, se é que uso alguns. Já não usamos fita, portanto isso já nem importa muito. Gravo com o sinal seco, a receber algum reverb ou delay, e ajusto depois. Mas, a gravar alguns overdubs ou solos, gosto de gravar o som logo com os efeitos – porque soa diferente se estiveres a fazer algo pouco usual. Aí comprometo-me logo com o processamento, não gosto de mexer depois.
Esse compromisso fez-te desenvolver aquele sentido quase místico tão presente no teu som de guitarra?[Risos] É apenas como ouço as coisas na minha cabeça. Não sei explicar isso, faz-me sentido assim, usar um som ou uma ou duas notas mais fora do comum, que dão essa aura mais mística. Os pedais podem influenciar-te, contudo o meu som está muito definido. Mas a procurar algo invulgar ou especial para que o álbum soe de modo diferente… Acabas também por adivinhar, e isso é o bom de trabalhar com produtores que são também guitarristas e calculam «não seria engraçado usar este pedal através daquele amp, como irá soar»? É uma das partes mais divertidas ao gravar um disco. A experimentação.
A experimentação nesses detalhes, por vezes, pode surgir acidentalmente – aí admites o uso de samples ao vivo, para reproduzir determinados detalhes?
Nas tours do “Sonic Temple” e “Ceremony” tínhamos um teclista que disparava alguns samples de guitarra para reforçar a estrutura rítmica da banda. Mas, exceptuando essas duas digressões procurámos sempre ser orgânicos. Eu próprio nunca usei samples, não consigo concentrar-me nisso. Sou um guitarrista muito de feeling. Contudo, é engraçado que o menciones, pois actualmente quando gravas com o Pro Tools a dinâmica dos temas pode mudar bastante e, por vezes, acabo a ter que reaprender as canções. Por exemplo, gravamos com um tipo de arranjos e depois esses arranjos mudam na edição, do que acabam por tornar-se as estruturas finais, e tenho que ir aprender todos os detalhes para torna-los coesos para os tocar ao vivo. De facto, antes de ligares, estava a fazer isso com a canção “Elemental Light” [risos], estava a aprender todas as partes diferentes que gravei para as conjugar num bloco a ser tocado ao vivo.
Referias novamente o “Ceremony”, esse álbum é “a cena”. O som de guitarra aí é qualquer coisa!
A sério? É engraçado, é capaz de ser o álbum que menos gosto. Talvez devido a motivos pessoais entre mim e o Ian. Realmente gosto muito dos sons que consegui no “Ceremony”. Não gosto do álbum como um todo, as coisas entre mim e o Ian, não gosto de algumas das suas letras, não gostei de alguns dos meus riffs e das canções, com algumas excepções… A “Wild Hearted Son”, a “White” ou a “Wonderland”, são boas. Mas som de guitarra, o álbum sonicamente, é fantástico! Ainda me faz ter mais pena que as canções não tenham sido tudo o que podiam ser.
Os Falcões Brancos & LPs Custom









Praticamente desde que começou a sua carreira nos The Cult que Billy Duffy usa o modelo White Falcon da Gretsch. Tem várias delas, inclusive algumas vintage dos anos 70, mas usa mais vezes a G7593 – embora, o guitarrista remova, normalmente, o pickguard dourado de modo a não ter tanta reflexão e assim um som tão treble na guitarra. Billy Duffy viu também a Gretsch criar-lhe o modelo de assinatura G7593T em 2013.
Além disso, o guitarrista usa também imensas Gibson Les Paul – principalmente na altura dos álbuns “Electric”, “Sonic Temple” e “Ceremony”, quando havia um som de rock mais clássico na banda. Assim, é normal ver Billy Duffy com uma Les Paul Custom, preta ou goldtop, em palco.
A foto de Billy Duffy que abre o artigo é de Eric Fairchild, na Gretsch Guitars. As fotos dos instrumentos são extraídas do site e das redes sociais oficiais de Billy Duffy.

Um pensamento sobre “Billy Duffy, O Falcão Branco de Manchester”