Estreado em 2023, “Mutiny in Heaven” é o explosivo documentário onde o realizador Ian White explora as forças contrastantes no núcleo dos Birthday Party, as lendas pós-punk australianas fadadas à auto-destruição.
Em 1981, num aterro nos arredores de Melbourne, uma banda está a gravar um vídeo. A ideia é recriar uma visão do inferno. Uma caveira ‘cartoonesca’ com seis membros pisca na tela. Vemos um Nick Cave jovem e escanzelado – «um pequeno insecto gordo» – a dançar em torno de um mastro no meio de uma tenda de circo. A música é uma ode ao desprezo de si mesmo intitulada “Nick the Stripper”. Atrás dele, os Birthday Party balançam e tropeçam. Após um ano em Londres, a banda – originalmente designada Boys Next Door – retornou à sua cidade natal, transfigurada numa fera diferente e muito mais ameaçadora, para gravar o seu primeiro álbum completo, “Prayers on Fire”.
De volta ao aterro nos arredores de Melbourne, a melodia, se é que podemos chamá-la assim, depende de um fantasmagórico refrão de três notas do guitarrista Rowland S. Howard. A acção move-se para fora da tenda. Além de um grupo de amigos, os Birthday Party trouxeram residentes de uma instituição de saúde mental; um deles está em cima de um cadafalso. Cave usa uma tanga diminuta. Há uma cena marada que envolve um bode…
Editado em 2023, o documentário sobre os Birthday Party, “Mutiny in Heaven”, destaca esse grotesco carnaval de almas durante todo o vídeo de quatro minutos. O realizador do filme, Ian White, diz que seria uma pena não usá-lo na íntegra. «É um trabalho tão extraordinário e captura a banda num momento crucial na sua evolução», diz ele. Está à distância de meio-mundo e duas gerações do Nick Cave de hoje, que dispensa palavras semanais de conforto, sabedoria e humor através da sua newsletter “The Red Hand Files”. Mas os Birthday Party, banda central da cena pós-punk que se formou em torno da famosa Crystal Ballroom, em St. Kilda, no início dos anos 80, foi o lugar onde tudo começou.
White testemunhou a banda no seu perturbante apogeu durante esse período. «Mesmo 40 anos depois, esses concertos ainda ressoam para mim. Provavelmente, os dedos de uma mão chegam para contar os que vi posteriormente que tiveram esse tipo de impacto», diz White, que aponta como motivo a sensação palpável de perigo que cercava a banda, embora temesse mais pela segurança dos membros dos Birthday Party do que pela sua.
O medo era justificado, diga-se. Howard, que tal como Cave enfrentou uma década de luta contra a heroína, sucumbiu a um cancro no fígado aos 50 anos, em 2009. Tinha acabado de concluir o seu último álbum, “Pop Crimes”, cuja capa é um retrato angustiante de si já moribundo. O baixista, Tracy Pew, não chegou aos 30: morreu vítima de lesões na cabeça, causadas por uma convulsão epiléptica, em 1986.
Mick Harvey – companheiro de Howard nas guitarras dos Birthday Party, que continuou a trabalhar ao lado de Cave como multi-instrumentista nos Bad Seeds por mais 25 anos – é frequentemente questionado sobre como manteve a sanidade durante esse período. A resposta óbvia é que permaneceu sóbrio; Harvey, impassível, diz que estava apenas a jogar com as cartas que lhe foram dadas.
«Era algo que apenas estávamos quando éramos miúdos, fora da escola, a improvisar. Actualmente, tornou-se senso comum que muitos homens não crescem e não saem do seu comportamento adolescente até por volta dos 25 anos e dizer 25 talvez seja generoso! A banda tinha acabado antes de qualquer um de nós completar 25 anos», refere Harvey na sua casa em Melbourne.

Phill Calvert recorda principalmente uma aventura jovial, se não exactamente grandiosa. «Estávamos a viver com quase nada, passámos frio e fome no primeiro ano em Inglaterra, não foi nada divertido. Mas isso preparou-nos para o que estava por vir e, se não o tivéssemos feito, teríamos apenas ficado na Austrália e provavelmente desaparecido», diz o baterista da banda.
Não que os Birthday Party fossem para durar. Eles fizeram apenas mais um álbum, “Junkyard”, após o qual Calvert foi demitido abruptamente no final de 1982. Algo do qual não guarda ressentimentos: «Não demorou muito, depois de ter ido embora, para que outra pessoa tivesse que ser encontrada como bode expiatório, e é claro que foi o Rowland, e depois foi o fim da banda».
Grande parte do documentário gira em torno de entrevistas com Rowland S. Howard; em determinado momento, Howard recorda quando viu imagens dos Doors no Hollywood Bowl, onde a polícia separou Jim Morrison da multidão: «Para mim, isso encapsulou o que a música rock deveria realmente ser – assustadora o suficiente para ter uma fileira de chuis entre a banda e o público».
Captar a perspectiva de Pew foi mais difícil. O baixista era fundamental para o som do Birthday Party – as suas linhas de baixo cambaleantes influenciaram uma geração de grupos norte-americanos de noise-rock, dos Sonic Youth aos Big Black e Jesus Lizard, e o seu visual era distinto: um cowboy com bigodaça, de calças de couro e colete, com um chapéu Stetson, como um gajo do interior australiano entre um bando gótico. Pew centrava a contradição no núcleo dos Birthday Party. «A banda era enigmática, porque era uma estranha contradição de coisas diferentes – inteligente e literária, mas visceral e brutal. Vê-los entediados ou de mau-humor era tão bom como vê-los no auge das suas capacidades», diz White.
Mas Pew não viveu para contar a história e restam apenas fragmentos. A sua citação mais famosa refere que a música rock, na medida em que seria lembrada, seria como o ânus da cultura. «O áudio que tínhamos do Tracy a falar, fosse a inventar uma história, a contar a verdade ou a exaltar-se com o entrevistador, era muito difícil de usar no contexto», diz White.

O realizador dependeu quase inteiramente de fontes de arquivo para fazer o seu filme. A ideia – e o efeito – era mergulhar o espectador num mundo que já não existe. Há ainda breves trechos de áudio de Thurston Moore e Lydia Lunch. Em contrapartida, as explosivas imagens de concertos têm espaço para se desenrolar, com o mínimo de comentários a atrapalhar.
Na sua última digressão pelos Estados Unidos da América, Nick Cave começou a tocar “Shivers”, a música escrita por Howard que ele cantou pela primeira vez ainda nos Boys Next Door e que havia ostracizado durante décadas. E Harvey não consegue resistir a provocar o seu antigo colega de banda: «Está tudo muito bem, esses gestos magnânimos à distância segura de agora, mas onde raio estavas há 14 anos»?
Os dois músicos desentenderam-se, após a saída de Harvey dos Bad Seeds, mas reconciliaram-se (em grande parte) entretanto. «Colocamos tudo isso de lado. Ele meio que me pediu desculpas, em ocasiões e lugares públicos, do jeito dele em público. Mas ele nunca realmente me disse nada pessoalmente. Essa é a maneira de ser dele».
Harvey alterna entre um esgar e um sorriso. «Ele podia dizer-me alguma coisa, o cabrão!»
Este é um artigo original de Andrew Stafford, publicado no The Guardian, e aqui traduzido e adaptado. As fotos são de David Corio e Rainer Berson.

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