A escassa hora e meia do emocionante concerto dos Blind Guardian no Vagos Metal Fest soube a muito pouco para aqueles que esperaram 15 anos pelo regresso dos bardos alemães a Portugal.
Após 400 anos, Morgoth quebrou o cerco de Angband com a vitória na Batalha da Chama Súbita, a Dagor Bragollach. Na hora mais sombria dos Noldor, quando o desespero mordia os seus corações como a geada, Fingolfin, o Alto Rei das suas hostes, tomou uma decisão que ecoou através dos tempos. O seu espírito, inquebrável pelas sombras de Angband, ansiava por um ajuste de contas. Ele enfrentaria o Senhor das Trevas em pessoa.
Sozinho, ele cavalgou, um farol solitário de desafio contra a noite que se aproximava. Os portões de ferro de Angband erguiam-se diante dele, negros e proibitivos como o coração de Morgoth. Com um grito que desafiava as próprias fundações da terra, ele desafiou o Senhor das Trevas a enfrentá-lo em combate aberto.
E foi assim que o duelo começou, um choque de titãs que abalou o mundo. Fingolfin enfrentou a forma monstruosa de Morgoth, que empunhava o gigantesco martelo Grond. No entanto, o coração do Rei estava cheio de uma luz que ardia mais brilhante do que qualquer estrela.
Sete vezes Fingolfin feriu Morgoth e sete vezes a terra tremeu com a dor deste, cuja força, no entanto, era como uma tempestade, e lentamente, inexoravelmente, foi desgastando o Rei que, num último e desesperado acto, atacou com toda a força que lhe restava, dilacerando profundamente a carne de Morgoth. Enfurecido, o Senhor das Trevas lançou-se sobre o Rei, o seu pé descendo como uma montanha. O mundo prendeu a respiração enquanto a vida de Fingolfin era esmagada.
Os Blind Guardian estão no Vagos Metal Fest a tocar “Time Stands Still (at the Iron Hill)”, malhão de contornos épicos que descreve numa sinestesia perfeita este colossal duelo da Primeira Era da Terra-Média. Tal como sucede no seu álbum de origem, “Nightfall In Middle-Earth”, a canção surge sensivelmente a meio do alinhamento. Até aqui, tudo foi perfeito: o som alinhou-se logo no final de “Imaginations From The Other Side”, a lista de canções vai misturando clássicos com novidades, ferocidade rítmica com baladas acústicas e os elogios constantes de Hansi Kürsch vão aumentando o fôlego coral da plateia.
Depois de 15 anos (ao contrário dos 17 referidos pelo frontman), esta é a quinta vez que vejo os Blind Guardian. Foram três visitas em território castelhano e essa data distante na última e estranha edição do Ermal. O choque maior é ter aguentado tanto tempo sem voltar a vê-los. Um choque quase tão grande como perceber que todos os nossos heróis envelhecem, como nós, olhando os longos cabelos alvos de Marcus Siepen. Como concordaram os que viram o concerto no Vagos Metal Fest ou que já tivessem anteriormente visto a banda em palco, não se esquece facilmente um concerto dos alemães.
Portanto, de entre esses cinco concertos, este foi o mais pesado e agressivo. Foi preenchido com uma intensidade suportada pelos primeiros quatro álbuns, num terço do seu alinhamento, e ainda a agressividade mais speed/thrash que o mais recente “The God Machine” procura no dealbar da banda. Num alinhamento mais épico e melódico, um tema como “Majesty” costuma soar algo inconsistente. Todavia, a proximidade de “Lost in The Twilight Hall” ou “Valhalla” deram uma aura santificada a este clássico favorito dos fãs.
Na verdade, considerando a opção dos alemães em não usar samplagem, optando por adaptar a complexidade de camadas sónicas de estúdio a um som mais despido em palco, usar de setlists de maior agressividade thrasher parece uma decisão acertada. Soa tudo mais pesado, mais visceral e, de facto, aproximado a “Battalions Of Fear” e “Follow The Blind”. Ainda assim, o desdobramento melódico das guitarras de André Olbrich garantiu que o essencial da vertente Queen dos Blind Guardian permanece intacta.
E de resto, não faltaram épicos. “Nightfall”, “Sacred Worlds” ou, no final, a obrigatória “Mirror, Mirror” encheram as medidas aos adeptos do carácter mais sinfónico do power metal dos Blind Guardian. O que faltou foi tempo a um concerto mágico que, acabou demasiadamente rápido. Havia que encarar o regresso a casa, mas ninguém se incomodaria por ter ficado, pelo menos mais meia-hora a ouvir os bardos de Krefeld.
Se me permitem o desabafo, alguns ciclos de quimioterapia, três internamentos e duas cirurgias depois, não imaginava tornar a ver Blind Guardian em Portugal, portanto não estive neste concerto profissionalmente, mas para deleite individual. De modo que, haveria muito mais a dizer, como podem imaginar. E apenas escrevo esta humilde crónica porque não encontrei nenhuma outra.
Haveria também muitas outras canções a serem ouvidas e, a título pessoal, dói sempre não ouvir “The Last Candle”. A setlist dos Blind Guardian no Vagos foi: Imaginations From the Other Side; Blood of the Elves; Nightfall; The Script for My Requiem; Violent Shadows; Skalds and Shadows; Time Stands Still (At the Iron Hill); The Bard’s Song – In the Forest; Lost in the Twilight Hall; Majesty; Sacred Worlds; Valhalla; Mirror Mirror.
