Bradley Hall, fã da era Marty Friedman dos Megadeth, fartou-se de esperar por um som que não volta e criou um álbum das lendas do thrash do zero, em apenas 24 horas. “Megabeans” é genial, idiota, delirante e brilhantemente ridículo.
Bradley Hall é um daqueles casos raros em que o YouTube deixou de ser apenas uma plataforma para entretenimento e passou a funcionar como laboratório musical. Guitarrista virtuoso, humorista, imitador e produtor, construiu uma audiência fiel graças à capacidade de combinar um conhecimento profundo da guitarra eléctrica e do metal com um humor absurdista que raramente cai na simples paródia. Os seus vídeos oscilam entre desafios técnicos, recriações impossíveis, sátiras à cultura metal e experiências musicais que, por mais disparatadas que pareçam, acabam quase sempre por revelar um enorme respeito pelo material original.
Um dos exemplos mais impressionantes dessa abordagem surgiu quando decidiu reimaginar integralmente a banda sonora composta por Howard Shore para The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring na linguagem do heavy metal. O resultado foi uma verdadeira epopeia de mais de três horas, atravessando doom, power, black, death e metal progressivo, numa demonstração simultânea de devoção pela obra de Tolkien e pela música pesada.
Depois de concluir esse projecto monumental, Hall voltou-se para outra obsessão pessoal: os Megadeth. Como o próprio admite sem rodeios, Rust in Peace continua a ser o seu álbum de metal favorito de sempre (o qual já tocou num único take, incluindo solos) e, na sua opinião, a banda nunca mais voltou a atingir aquele nível criativo, apesar da qualidade de vários discos posteriores. Foi dessa frustração — assumida com muito humor — que nasceu Megabeans, um álbum completamente original concebido como se fosse o sucessor espiritual da fase clássica dos Megadeth.
Outro dos aspectos curiosos do projecto é o papel atribuído à inteligência artificial. Bradley Hall recorreu ao ChatGPT para gerar ideias e letras inspiradas nos tiques poéticos de Dave Mustaine, mas toda a música — riffs, harmonias, solos, arranjos, produção e interpretação — foi criada por si. O resultado funciona menos como um exercício de “música feita por IA” e mais como uma demonstração de que estas ferramentas podem servir de apoio criativo sem substituírem o trabalho do compositor.
The Sick, The Dying… And The Dead! foi geralmente recebido como o melhor álbum dos Megadeth da era pós-Marty Friedman, recuperando parte da agressividade e da inspiração thrash que muitos fãs sentiam perdida. Ainda assim, para Bradley Hall isso não bastou. Se Dave Mustaine não escrevia o sucessor espiritual de Rust in Peace, alguém teria de o fazer — ainda que em tom de brincadeira. Para tornar tudo isto mais interessante, Hall desafiou-se a concretizar a tarefa em apenas 24 horas e transmitiu o processo ao vivo no Twitch. Afinal, pode ser um álbum “fake”, mas é genuíno!
«O álbum Rust In Peace [dos Megadeth] é, sem dúvida, o meu álbum de metal preferido de todos os tempos e, por muito que ache que os álbuns dos últimos 20 anos são bons, nada se compara aos álbuns clássicos dos anos 90 com o meu amigo Marty Friedman. Por isso, há uns tempos, pensei para mim mesmo: ‘Em vez de esperar que os Megadeth deixem de fazer asneiras e voltem a escrever um álbum de sucesso, porque não o faço eu?’», diz Bradley Hall (transcrito pelo Metal Injection).
O resultado chama-se Megabeans e é simultaneamente homenagem, sátira e carta de amor aos Megadeth dos anos 90. Malhas como “Master of Muppets”, “Hangry Again” ou “Chronic Incontinence” exageram todos os clichés associados a Dave Mustaine — da voz nasal às obsessões com conspirações, política e, claro, ao ressentimento eterno pela expulsão dos Metallica.
O humor funciona porque nasce de um conhecimento profundo da banda, não da caricatura fácil. É um projecto delirante, absurdamente bem executado e uma prova de que, quando o talento encontra uma boa ideia, até uma paródia pode soar perigosamente convincente.



