Bruce Dickinson

Bruce Dickinson: William Blake, Mandrágora & Ragnarok

A esotérica curta-metragem de “Afterglow Of Ragnarok”, primeiro single de “The Mandrake Project” de Bruce Dickinson, torna a mergulhar no vórtice de multiplicação de significâncias das visões de William Blake, alimentadas pelas propriedades alucinogénicas da mandrágora.

William Blake, o poeta, pintor e visionário inglês do século XVIII, frequentemente (para não dizer sempre) incorporava elementos místicos e simbólicos nas suas obras. O conceito da mandrágora aparece em alguns dos poemas e ilustrações de Blake, especialmente nos seus livros proféticos, como “The Marriage of Heaven and Hell”, “Jerusalem” e “Milton”.

Na simbologia de Blake, a mandrágora é frequentemente associada a qualidades místicas e transformadoras. A raiz da mandrágora em si tem uma longa história no folclore e é tradicionalmente referida como tendo propriedades mágicas. Em várias culturas, acredita-se que gritava ao ser arrancada do solo, causando a morte ou a demência, ou insanidade aos que ouviam esse grito. Este aspecto mítico da mandrágora é provavelmente incorporado na obra de Blake como um símbolo do poder transformador da experiência visionária.

Uma instância notável da mandrágora na poesia de Blake surge em “The Marriage of Heaven and Hell”, onde ele escreve: «The Gods of the earth and sea, Sought thro’ Nature to find this Tree But their search was all in vain: There grows one in the Human Brain».

Aqui, a árvore da mandrágora é uma metáfora para a iluminação visionária e espiritual que não é externa, mas está enraizada dentro da mente humana. Blake sugere que a verdadeira fonte do conhecimento divino e do poder transformador não está no mundo externo, mas nos reinos internos da psique humana. Nas suas pinturas e ilustrações, Blake frequentemente retratava cenas simbólicas e alegóricas que complementavam os seus temas poéticos.

A imagem da mandrágora pode aparecer nessas obras visuais, enfatizando ainda mais a interconexão da sua visão poética e artística. E depois, o grande presente da mandrágora para a humanidade são as suas propriedades anestésicas e alucinogénicas: eliminar ou adormecer a dor, permitindo ao indivíduo prosseguir quando oprimido – tornando a realidade transitiva, ampliada e mágica.

No geral, o conceito da mandrágora nos poemas e pinturas de William Blake serve como um símbolo de transformação interna, experiência mística e busca do conhecimento espiritual dentro da mente e da alma humana. Reflecte a mistura única de misticismo, mitologia e filosofia visionária que caracteriza o seu corpo de trabalho. É este o portal aberto por Bruce Dickinson.

The Mandrake Project

Em desenvolvimento desde 2014, “The Mandrake Project” será lançado no dia 1 de Março de 2024 pela BMG. Ao longo de dez faixas inventivas, expansivas e absorventes, Bruce Dickinson e o seu parceiro de composição e produtor de longa data, Roy “Z” Ramirez, criaram um dos álbuns de rock pesado que mais expectativas foi capaz de gerar nos últimos anos. Sonoramente pesado e rico em texturas musicais, Bruce Dickinson dá vida a uma visão musical há muito em construção e apresenta mais um dos seus poderosos desempenhos vocais.

Gravado na maioria no Doom Room, em Los Angeles, com Roy Z a fazer as vezes de guitarrista e baixista, o alinhamento de “The Mandrake Project” foi completado por Mistheria (synths) e Dave Moreno (bateria), ambos também presentes no último álbum de estúdio a solo de Bruce Dickinson, “Tyranny Of Souls”, em 2005.

“The Mandrake Project” não é apenas um álbum, mas uma história sombria de poder, abuso e luta pela identidade, tendo como pano de fundo o génio científico e oculto. Criada por Bruce Dickinson, a série de banda desenhada é escrita por Tony Lee e ilustrada de forma deslumbrante por Staz Johnson para a Z2 Comics, sendo lançada em 12 edições trimestrais que serão reunidas em três romances gráficos anuais. O primeiro episódio será lançado nas lojas de banda desenhada a 17 de janeiro de 2024.

Afterglow Of Ragnarok

Na primeira noite de Dezembro de 2023, Bruce Dickinson revelou o dramático vídeo de “Afterglow Of Ragnarok”, o primeiro single do seu próximo álbum solo “The Mandrake Project”. Diante de uma plateia lotada no dia de abertura da CCXP23, a enorme Comic-Con do Brasil, em São Paulo, o vocalista dos Iron Maiden estreou o intenso filme e revelou mais detalhes sobre o álbum e a próxima série de banda-desenhada em parceria com a Z2, incluindo o lançamento de 2.000 versões exclusivas da CCXP.

Bruce Dickinson descreve oportunamente “Afterglow Of Ragnarok” como «uma música pesada e com um grande riff a conduzi-la, mas também com verdadeira melodia no refrão que mostra a luz e a sombra que o resto do álbum transporta». Contrastes vividamente captados no cinematográfico vídeo que acompanha o single.

Realizado por Ryan Mackfall, escrito por Dickinson Dickinson e pelo aclamado autor britânico Tony Lee (cujos longos créditos incluem “2000AD”, “Dr. Who” e “Star Trek” e uma profusão de trabalhos na DC e na Marvel, do Spider Man aos X-Men), o filme revela o Dr. Necropolis, o protagonista nuclear de “The Mandrake Project”. Também estabelece o cenário para a história que se segue, reflectindo a narrativa sombria contida na prequela de oito páginas da banda desenhada que acompanha o 7” do single.

Ryan Mackfall comentou a curta-metragem: «Muitos anos antes de ser realizador, tenho boas recordações de vários vídeos musicais que me inspiraram e um deles foi “Can I Play With Madness” dos Iron Maiden. Para mim, definiu o que é um vídeo musical. Mal sabia eu que, muitos anos mais tarde, estaria ao telefone com uma das estrelas desse vídeo, o Sr. Bruce Dickinson, a discutir ideias para um vídeo musical. O Bruce revelou-se como uma alma gémea para mim desde esse momento e assim tentámos dar vida à história de “Afterglow Of Ragnarok”».

O mérito não é apenas do vídeo, de acordo com Mackfall: «Naturalmente, a música é uma grande parte do motor deste vídeo e esta malha deixa uma forte impressão desde a primeira reprodução. Aém disso, acredito firmemente que é também a paixão do artista que define os resultados – a paixão de Bruce é inigualável. Espero realmente que os fãs se encontrem na viagem de Necropolis com o sumo de mandrágora uma e outra vez. Este é apenas o início de algo muito especial!»

O Casamento do Céu e Inferno

“Tattooed Millionaire” foi um disco de convergência. Menos heavy metal e mais hard rock que os Maiden, agora não parece tão distante de “Fear Of The Dark”, no sentido em que há exploração de novas dinâmicas de guitarra e de novas possibilidades melódicas nos dois discos. Depois, “Balls To Picasso” foi o primeiro álbum que Bruce Dickinson gravou após deixar o cargo de frontman das lendas britânicas da NWOBHM. Foi também aqui que se iniciou a significativa colaboração com Roy Z.

Mas Bruce Dickinson precisava de um maior golpe de asa e se, nos dois primeiros trabalhos preocupou-se em não radicalizar as mudanças estéticas, em “Skunkworks” (1996) houve rédea solta. Foi aí que começou a aproximação à estética ao grunge e, em particular, dos Soundgarden, a um carácter mais pessimista traduzido na coloração sónica do disco e das guitarras. Tudo mais negro e mais sujo, sob a alçada de Jack Endino. Mas o disco acabou por ter pouca expressão.

Ainda assim, a mensagem pareceu ter passado perfeitamente e, quando Roy Z foi novamente recrutado para trabalhar com Dickinson, o processo de metamorfose sónica ficou completo em “Accident Of Birth”. A sujidade de “Skunkworks” deu lugar a um sentido épico de prog metal e as guitarras começaram a descer substancialmente a sua afinação, com a riqueza sónica do álbum aumentada por sintetização densa e ambiental. Para muitos (como nós, de resto), no entanto, a grande chave da transformação foi o recrutamento do seu antigo colega nos Maiden para a guitarra. Adrian Smith emprestou o seu ouvido melódico aos arranjos e a um par de composições.

Então chegou a obra-prima. Com o cantor, Adrian Smith e Roy Z perfeitamente alinhados nas guitarras e a sobriedade da secção rítmica com o baixista Eddie Casillas e o baterista Dave Ingraham, “The Chemical Wedding” abandonou definitivamente as raízes do heavy metal tradicional de Bruce Dickinson e mergulhou no universo prog rock, com uma soberba fusão de guitarras pesadíssimas, um som carregado de texturas, ocultismo e ainda a enigmática expressão artística de William Blake. O álbum é inovador não só sonicamente como na sua intrincada imersão na arte visual e na filosofia esotérica.

Aparentemente, “The Mandrake Project” vem fechar este círculo, no sentido em qie, uma vez mais, explora uma gama ampla de estilos musicais, incluindo um trabalho de guitarra mais pesado, como dito, e intrincado, tal como intrincados são os arranjos e há mais ênfase em elementos atmosféricos e progressivos. Tudo se sente melódico, bucólico e introspectivo, poderoso e apaixonado (ou febril), espelhando os temas líricos do álbum.

As pré-encomendas estão já disponíveis, seguindo o site oficial de “The Mandrake Project”.

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