Bruce Dickinson

The Chemical Wedding, Bruce Dickinson

“The Chemical Wedding” de Bruce Dickinson é um testemunho vibrante de exploração artística e da vontade de quebrar paradigmas. Ao fundir música, literatura e arte visual, o álbum oferece uma experiência multidimensional que convida a ponderar questões filosóficas profundas enquanto se usufrui de uma riquíssima tapeçaria de sons.

Originalmente editado no dia 15 de Setembro de 1998, “The Chemical Wedding” é um álbum axiomático na carreira de Bruce Dickinson. Muito mais que os três discos anteriores, este trabalho a solo cavou definitivamente um enorme fosso entre aquilo que era o seu legado nos Iron Maiden.

“Tattooed Millionaire”, o ponto de partida em 1990, foi um disco de convergência. Menos heavy metal e mais hard rock que os Maiden, agora não parece tão distante de “Fear Of The Dark”, no sentido em que há exploração de novas dinâmicas de guitarra e de novas possibilidades melódicas nos dois discos. Depois, “Balls To Picasso” foi o primeiro álbum que Bruce Dickinson gravou após deixar o cargo de frontman das lendas britânicas da NWOBHM. Com mais atenções concentradas em si, Dickinson sacou esse mega single intitulado “Tears Of The Dragon”. Foi também aqui que se iniciou a significativa colaboração com Roy Z.

Mas Bruce Dickinson precisava de um maior golpe de asa e se, nos dois primeiros trabalhos preocupou-se em não radicalizar as mudanças estéticas, em “Skunkworks” (1996) houve rédea solta. Foi aí que começou a aproximação à estética ao grunge e, em particular, dos Soundgarden, a um carácter mais pessimista traduzido na coloração sónica do disco e das guitarras. Tudo mais negro e mais sujo, sob a alçada de Jack Endino. Mas o disco acabou por ter pouca expressão.

Ainda assim, a mensagem pareceu ter passado perfeitamente e, quando Roy Z foi novamente recrutado para trabalhar com Bruce Dickinson, o processo de metamorfose sónica ficou completo em “Accident Of Birth”. A sujidade de “Skunkworks” deu lugar a um sentido épico de prog metal e as guitarras começaram a descer substancialmente a sua afinação, com a riqueza sónica do álbum aumentada por sintetização densa e ambiental. Para muitos (como nós, de resto), no entanto, a grande chave da transformação foi o recrutamento do seu antigo colega nos Maiden para a guitarra. Adrian Smith emprestou o seu ouvido melódico aos arranjos e a um par de composições.

Então chegou a obra-prima. Com o cantor, Adrian Smith e Roy Z perfeitamente alinhados nas guitarras e a sobriedade da secção rítmica com o baixista Eddie Casillas e o baterista Dave Ingraham, “The Chemical Wedding” abandona definitivamente as raízes heavy metal de Bruce Dickinson e mergulha no universo prog rock, com uma soberba fusão de guitarras pesadíssimas, um som carregado de texturas, ocultismo e ainda a enigmática expressão artística de William Blake. O álbum é inovador não só sonicamente como na sua intrincada imersão na arte visual e na filosofia esotérica.

Vejamos, “The Chemical Wedding” apresenta uma evolução sónica que se distancia da persona Iron Maiden de Dickinson. O álbum explora uma gama mais ampla de estilos musicais, incluindo um trabalho de guitarra mais pesado, como dito, e intrincado, tal como intrincados são os arranjos e há mais ênfase em elementos atmosféricos e progressivos. Músicas como “King in Crimson”, “Book of Thel” e “Jerusalem” misturam riffs de guitarra com melodias vocais complexas e letras instigadoras. A voz de Bruce Dickinson abrange um espectro mais amplo, de melódico, bucólico e introspectivo, a poderoso e apaixonado (ou febril), espelhando os temas líricos do álbum.

William Blake

O álbum deriva o seu título e essência temática do trabalho de William Blake, particularmente do seu enigmático poema narrativo “The Marriage of Heaven and Hell” e da colecção de ilustrações que o acompanha. A filosofia visionária de Blake, os temas místicos e as obras de arte vívidas influenciaram profundamente a estrutura concetual do álbum. As letras de Bruce Dickinson recorrem frequentemente ao imaginário de Blake, explorando temas de transformação espiritual, dualidade e a interacção entre o céu e o inferno.

Olhando, como exemplo, as malhas atrás referenciadas. “King In Crimson” estabelece a vibração do álbum. Poder vocal de Bruce Dickinson e melodias orelhudas para cacete, coladas a um tremendo groove e peso sónicos. Liricamente, entramos no delírio cósmico e é explorada a transformação de corpos celestes e a fusão de forças opostas.

“Book Of Thel” inspira-se no poema homónimo de Blake, reflectindo sobre o conceito filosófico da inocência e da experiência. Nos arranjos musicais, é dos temas mais desenvoltos no disco. “Jerusalem” é absolutamente antémica e adapta o poema de Blake “And did those feet in ancient time” enquanto encapsula a fusão de misticismo, história, filosofia e exploração musical presente neste extraordinário álbum.

O seu impacto na música reside na demonstração de como a visão de um artista pode transcender géneros e ligar-se ao público a vários níveis. A título pessoal, este é o melhor disco “Maiden related” após “Seventh Son of a Seventh Son”.

Um pensamento sobre “The Chemical Wedding, Bruce Dickinson”

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