Foi realizado, pela primeira vez, um censo especificamente dedicado a músicos no Reino Unido. As conclusões que se podem retirar a respeito da desigualdade entre géneros, com severos problemas de paridade salarial, discriminação, assédio laboral, revelam que há ainda um longo, longo caminho a ser percorrido…
O primeiro Censo para Músicos do Reino Unido confirmou a dimensão do problema da desigualdade de género na indústria, com o estudo a indicar que as mulheres têm muito mais probabilidades de sofrer discriminação, assédio e barreiras ao desenvolvimento da carreira do que os homens, escreve Ben Rogerson no MusicRadar.
Com base em 2526 respostas de músicos do Reino Unido que se identificam como mulheres, o censo – que foi realizado pela instituições Help Musicians e The Musicians’ Union – indica também que as mulheres recebem menos do que os seus homólogos masculinos e têm mais probabilidades de verem as suas carreiras interrompidas, apesar de terem um nível de formação mais elevado.
O mais chocante, sem dúvida, é que cerca de um terço das mulheres (33%) diz ter sido assediada sexualmente enquanto trabalhava enquanto músico e um quarto das mulheres (25%) diz ter testemunhado outras a serem assediadas. Mais de metade das mulheres inquiridas (51%) confirmam ter sofrido discriminação de género enquanto trabalhavam, o que contrasta fortemente com os 6% de homens que afirmam ter sofrido o mesmo tratamento.
O impacto desta situação reflecte-se no facto de 62% das mulheres considerarem que os abusos ou o assédio relacionados com o trabalho constituem um obstáculo à sua carreira e de 60% das pessoas que consideram que a discriminação é um obstáculo ao desenvolvimento da carreira serem mulheres – algo que, por exemplo, Marnie Stern referiu, em entrevista promocional ao álbum “Comeback Kid”, que publicámos na ROMA INVERSA.
Há também implicações financeiras: o rendimento médio de uma mulher é de 19.850 libras, enquanto o de um homem é de 21.750 libras. Entretanto, dos que ganham mais de £70.000 por ano com a música, apenas 19% são mulheres. Isto apesar do facto de mais 14% das mulheres terem uma licenciatura em música do que os homens e 15% terem uma pós-graduação em música. A longevidade da carreira também é um problema: enquanto 47% dos músicos activos com idades compreendidas entre os 16 e os 55 anos são mulheres, este número desce para 26% com mais de 54 anos. 29% das mulheres afirmam que os compromissos familiares são um obstáculo à sua carreira.
O censo também confirma que há muito menos mulheres do que homens em funções técnicas na indústria musical. Apenas 15% dos engenheiros de som ao vivo e 12% dos engenheiros de estúdio/masterização são mulheres, menos de um quarto dos produtores (24%) e apenas 29% dos DJs.
Comentando os resultados do recenseamento, Sarah Woods, Directora Executiva da Help Musicians e da Music Minds Matter, afirmou: «As conclusões do último relatório do Censo mostram que ainda há muito trabalho a fazer para garantir que o trabalho como músico seja equitativo para todos. Esperamos que estas conclusões incentivem a indústria a continuar a colaborar para reduzir as barreiras baseadas no género e garantir a equidade de género em todos os sectores da música».
Naomi Pohl, Secretária-Geral do Musicians’ Union, observa: «As conclusões do Censo, apresentadas neste relatório, ilustram as muitas práticas e comportamentos discriminatórios que continuam a travar as mulheres nas suas carreiras musicais. Há muito que defendemos uma melhor divulgação das diferenças salariais e esperamos que as conclusões do Censo incentivem a indústria a tomar medidas, a ser mais transparente e a fazer mudanças».
Ainda que não se conheça um estudo deste género, salvo erro, em Portugal, não é difícil imaginar que os resultados sejam semelhantes. Podem ler o relatório completo no website Musicians’ Census.
