Na antecâmara do seu quarto álbum, eis uma retrospectiva aos Deserto, banda de Odivelas que cruzou rock alternativo, peso e identidade própria numa das discografias mais subestimadas da música portuguesa.
«Querem tornar-nos um deserto de cultura, um deserto de educação, um deserto de valores. A música pode mudar o mundo! Não é apenas um lugar comum. É a cultura, estúpido! Esta é a nossa contribuição!» É difícil discordar com o slogan que nos introduz os Deserto nas suas páginas oficiais nas redes sociais. Infelizmente, algo que se opõe ou contesta os valores, normas e padrões da cultura dominante costuma manter-se nas margens dessa mesma cultura.
Isso torna a banda de Odivelas marginal. Importa dizer que esse estatuto é tão apreciado como injusto. Numa altura em que os Deserto estão de regresso ao BuzzRoom, estúdio que lhes serve de quartel-general, para gravar o seu quarto álbum propomo-nos fazer uma retrospectiva ao caminho que está para trás. Um EP e três LPs são um bom pórtico.
À partida não seria bom lembrar que 75% do line-up original dos Deserto foi dos Ex-Votos. Porque a sonoridade das bandas tem muito pouco em comum, em favor da banda mais “recente”. Desde o início, os Deserto procuraram ter uma sonoridade com mais guitarra e mais potência. Ainda assim, as coisas até começaram por não soar tão distantes do, pedindo emprestado o termo aos The Clash, combat rock que o saudoso Zé Leonel (onde quer que estejas, um abraço, amigo!) explorou de forma quixotesca.

De facto, “Cantigas da Vida”, disco que os Ex-Votos editaram em 2001, parece o antecessor do homónimo EP de estreia dos Deserto. Um trabalho em que, apesar do currículo e experiência dos músicos, como sucede com qualquer outra banda, os Deserto soam como quem busca a sua identidade. “Apanha O Avião” ou “Faz Frio”, de modos absolutamente distintos, trazem consigo essas reminiscências dos Ex-Votos; “Sem Dormir” divaga demasiado, como se a banda tivesse gravado a sua jam session primordial, onde jogou as influências de cada um dos músicos.
Tema central do EP, “Num Só Dia” deixa bem vincado o carácter vocal de Miguel Mouta em harmonização plenificada com a restante banda. E, no final, essa é a maior nota deste trabalho: o encontro do antigo frontman dos Sugar Baby Condoms com Paulo Basílio (guitarra), Mário João (baixo) e Jô Gonçalves (bateria), três músicos que tocam juntos de olhos fechados.
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Em 2014, o seu álbum de estreia Filhos do Deserto ainda transparecia alguns conflitos silenciosos na personalidade sonora das partes. Na predominância da guitarra e na progressiva tendência high gain da sua estética, João Mário ouve-se ainda a procurar uma maior convergência de estilos, pois a sua execução mais post-punk encontra-se, por vezes, numa encruzilhada, entre a agressividade mais metal das guitarras e a performance mais tricotada da bateria, que acaba por não se sentir com a força necessária.
“TU”, logo a abrir, é tão capaz de entusiasmar com aqueles riffs propulsivos e o refrão antémico, como de revelar estes contrastes. Em “Febre” percebe-se que Miguel Mouta tem atitude e garganta. Todavia, deixava a banda mais exposta a associações a uma certa tipologia do rock português. Estas questões pareciam ser uma simples questão de mais trabalho nas estrofes e dinâmica dos temas, pois os refrões soam quase sempre orelhudos. E o quão pegajoso soava o som de guitarra em “Dói de Bom”. Na época, Paulo Basílio tinha como peças centrais do rig um cabeço Mesa Boogie 5:50 Plus, e um famoso pitch shifter da DigiTech.
Isto resultava num som monstruoso que, em composições com inclinação mais metaleira, se digladiava com os vocalizos de Mouta (muitas vezes apegado à referência Ornatos Violeta) pela frente da mistura e isto é muito claro num tema como “Tanto Me Faz”, também em “Morte” ou “Ponto Sem Nó” – malhas onde fica claro que Basílio andava encantado com os Mastodon. Em momentos como “A Chegar” ou “Mal Menor” (tremendo solo de guitarra) as idiossincrasias de cada um dos músicos parecem mais harmonizadas, o que resulta nos highlights do álbum de estreia dos Deserto.
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Se estiverem familiarizados com “Taurus Bulba”, de Steve Vai, vão perceber o nível do elogio aqui feito ao som de guitarra de Paulo Basílio neste disco. Sente-se mal se começa a ouvir “Touro”. O balanço do tema, a conjugação de cada um dos elementos, a maior economia e consequentemente maior eficácia nos arranjos, tudo certo no segundo álbum dos Deserto.
O choque entre a intenção mais metaleira de Paulo Basílio e a divergente estética de João Mário e Miguel Mouta surge atenuada, resolvida mesmo, por um certo recuo da guitarra. Para usar referências, é como se a atração pelos Mastodon tivesse sido substituída pelos The Queens Of The Stone Age. Mas é injusto estar a mandar nomes para a equação quando o que se percebe é que foi a maturidade dos Deserto a criar essa harmonização. Algo claríssimo logo ao segundo tema: “INFECTA” soa como nenhuma outra banda. Malhão.
É preciso dizer ainda que Jô Gonçalves fez deste álbum o seu canto do cisne. Impedido de prosseguir por problemas de saúde, assina uma deslumbrante prestação de controlo dinâmica, de economia e poder de batida rocker. Ao ouvir “Tudo Igual”, ironicamente, percebe-se que Gonçalves conciliou o seu estilo com a necessidade das malhas, cujo carácter mais sincopado vai também de encontro ao idioma do próprio baterista.
No final, isso resume o disco: Manual do Deserto é um trabalho de convergência. Um álbum em que os arranjos abdicaram de uma urgência estridente em favor do contemplativo sentido lírico, como é tão claro a ouvir temas como “Aperto” ou “Em Espera”. E depois, mesmo quando as coisas são mais feitas de contrastes de intensidade, como “Chave” ou “Ferida Feita”, já não existe um fosso entre secções. Manual do Deserto é o disco em que os Deserto aprenderam a respirar nas suas paisagens inóspitas e a dosear o calor arrasador com o frio mortal.
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Os predicados exaltados no álbum anterior estão ainda mais afinados neste álbum. O contrário é que seria de estranhar, dirão. Mas nem sempre as bandas reagem bem a mudanças no line-up, principalmente entre músicos que tocaram tantos anos juntos e, depois de um recomeço, desenvolveram uma nova sonoridade. Acontece que Bruno Capelas ocupa o lugar de Jô Gonçalves com pés de veludo, aproveitando a assinatura deixada no disco anterior, mas com maior foco na energia, onde o seu antecessor era mais clínico.
As canções possuem refrões menos orelhudos. Na nossa perspectiva, isso favorece-as. Em Aberto é um disco menos pop, mais progressivo e com um fluxo mais natural nas suas canções. O estilo de cada músico está cada vez mais harmonizado com as composições e com a sonoridade geral. Desde os riffs pesadões de “Amigo Bandido”, “Amor É Químico” ou “Mata-me Devagar”, passando pelas contemplativas “Nunca Foi”, “Um Deus Debaixo de Mim” ou “Sentimonstros”, até as balada “Juro” e “Encanto-Força”, o controlo emocional da banda é notável. Parece longínqua a esquizofrenia do EP de estreia, que queria chegar a todo lado.
E talvez seja precisamente aí que reside a maior vitória deste disco e da banda: num panorama musical tantas vezes obcecado com fórmulas, algoritmos emocionais e refrões moldados para quinze segundos de atenção, os Deserto continuam a soar como quatro homens a tentar dizer qualquer coisa verdadeira através do ruído, da tensão e da beleza áspera das guitarras. Nunca foram uma banda de pertença imediata. Nunca procuraram ser. Há discos que servem para acompanhar viagens de carro; os Deserto fazem discos para acompanhar erosões interiores.
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Agora que regressam ao BuzzRoom para gravar um novo capítulo, não se sente apenas a expectativa natural de mais um álbum. Existe a sensação de continuidade de uma resistência. Quase duas décadas depois do início desta travessia, os Deserto permanecem um corpo estranho na música portuguesa: demasiado pesados para o rock de rádio, demasiado melódicos para o purismo metal, demasiado emotivos para o cinismo cool. E é precisamente nessa terra de ninguém que construíram identidade.
Talvez nunca deixem de ser marginais. Talvez seja inevitável num país onde a cultura frequentemente sobrevive mais por teimosia do que por estrutura. Mas há margens que acabam por definir o curso do rio. E, disco após disco, os Deserto têm feito exactamente isso: transformado isolamento em linguagem, fricção em personalidade e desencanto em canções que continuam a soar humanas, honestas e vivas.
