Dikranon

Dikranon: Why Angels Fall & Parménides

Os Why Angels Fall lançaram Dikranon, o primeiro capítulo de uma nova série intitulada “Gustave Doré Collection”. Iniciado pela filosofia de Parménides, o projecto visa revisitar a discografia completa da banda através de takes alternativos e remisturas, oferecendo uma nova perspectiva sobre a sua música.

Formados no início dos anos 2000, os Why Angels Fall construíram uma sonoridade única, combinando riffs elaborados com guitarras limpas e piano, criando paisagens sonoras introspectivas e envolventes. Com lançamentos como o EP …to the Sun (2004) e o álbum The Unveiling (2010), a banda conquistou algum reconhecimento na cena underground, mantendo sempre uma abordagem independente e artística.

Numa forma de assinalar duas décadas da sua estreia, os Why Angels Fall acabam de lançar Dikranon, o primeiro capítulo de uma nova série intitulada “Gustave Doré Collection”, um projecto em que a banda revisita a sua discografia completa através de takes alternativos e remisturas exclusivas. Com esta série editorial, o grupo propõe-se a abrir novas leituras sobre o seu percurso musical, revelando camadas até agora inéditas e reinterpretando temas que marcaram a sua identidade sonora. Dikranon inaugura este ciclo com intensidade e frescura, servindo de porta de entrada para o universo expandido da banda.

«Parménides foi um defensor da unidade do Ser (tudo parte do Ser, está no Ser e caminha para o Ser), fora da qual não existe movimento, apenas ilusão. O Professor Carlos Silva, no seu curso de Filosofia Clássica na Faculdade de Teologia, recorreu à imagem de um “Y” e ao termo grego dikranon (forquilha, encruzilhada) para ilustrar este conceito. Fiquei profundamente marcado por esta ideia, e esta canção reflecte sobre a estase existencial e o fluxo que surge da escolha errada na encruzilhada — a condição da existência humana fora dessa unidade. A ilusão do movimento», refere o guitarrista/vocalista Nero.

Ponto de Contacto: A Natureza da Realidade Última

Para o pré-socrático Parménides de Eleia, o verdadeiro Ser (o que é) é único, eterno, imutável, indivisível e completo. Não há “vir-a-ser” (nascimento) nem “perecer” (morte), pois o Ser sempre foi e sempre será. O que experimentamos através dos sentidos—o movimento, a mudança, a multiplicidade—é uma mera ilusão, uma aparência que não corresponde à verdade do Ser. O “não-ser” é impensável e impossível.

Na fé cristã, Deus é a realidade primeira e última. Alfa e ómega. É descrito como eterno, imutável, omnipotente e a fonte de todo o Ser. Tal como o Ser de Parménides, a essência de Deus não muda. Ele não está sujeito às limitações do tempo ou da mudança. A Sua existência é completa em si mesma.

Ambos os sistemas postulam uma realidade definitiva, esta dikranon que é imutável e eterna, acima do mundo das aparências e da mudança que percepcionamos. O Ser de Parménides é o absoluto filosófico; o Deus cristão é o absoluto teológico.

Ponto de Divergência: A Existência do Mundo (A analogia desfaz-se, porém, de forma radical na questão da existência do mundo material e da mudança).

Para Parménides, a existência de um mundo em movimento e pluralidade é uma impossibilidade lógica. Como o “não-ser” não existe, o Ser não pode ter vindo do nada, nem pode tornar-se outra coisa que não ele próprio. O mundo que vemos é uma contradição com a lógica do Ser e, portanto, não é real. A única realidade é o Ser; tudo o que está “fora” dele é ilusão.

Na fé cristã, pelo contrário, Deus, o Ser último, não nega o mundo da mudança e da pluralidade — Ele cria-o. A doutrina da creatio ex nihilo (criação a partir do nada) afirma que Deus trouxe o universo à existência a partir do nada. Esse “nada” não é o “não-ser” de Parménides, mas uma ausência de existência que só a vontade e o poder divinos podem preencher. Deus é distinto da sua criação, mas sustenta-a e interage com ela. O mundo material e o ser humano são reais, mesmo que distintos da realidade eterna de Deus.

Em resumo, a grande diferença é que, para Parménides, o Ser existe apenas “em si mesmo”, negando a realidade de qualquer coisa “fora” dele. Na fé cristã, Deus é o Ser último, mas a sua existência não nega o mundo; pelo contrário, a sua vontade cria a realidade que existe “fora” dele. O mundo não é uma ilusão, mas uma manifestação da vontade divina.

Dikranon

É nesta tensão—entre a visão estática e absoluta de Parménides e a visão dinâmica e criadora da fé cristã—que Dikranon encontra a sua atmosfera. A canção reflecte sobre a estase (stasis) existencial, a ilusão do movimento e o fluxo que nasce da escolha errada na encruzilhada—a condição humana quando, nessa encruzilhada, na dikranon, se afasta dessa unidade do Ser.

«Dikranon foi originalmente gravada para o EP …to the Sun, edição auto-lançada em 2004. Alguns anos mais tarde, com a remodelação da formação da banda, surgiu a oportunidade de retrabalhar o tema (Nero e Paulo Basílio acrescentaram alguns solos de guitarra limpa na segunda parte, reforçando o evidente toque à Gilmour) e de registar as vozes em português, a língua em que os versos tinham sido originalmente escritos. Quando foram planeados conteúdos extra para a edição limitada envolta em tecido que a Bubonic criou para The Unveiling, Luimen [Luís Mendes] criou um remix verdadeiramente fora da caixa da canção», refere o press release.

O mesmo documento aponta que ainda não estão agendadas datas para os próximos lançamentos da colecção, mantendo viva a expectativa em torno dos futuros capítulos. O single Dikranon encontra-se disponível exclusivamente no Bandcamp dos Why Angels Fall.

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