Visceral

Visceral, Eyes, Teeth and Bones

Em “Eyes, Teeth and Bones”, os Visceral tornam a ostentar brutalidade cirúrgica e atmosferas de violência e horror. O segundo álbum dos algarvios transporta ainda ecos de uma estética sónica que lhe é ancestral.

Após reclamarem estrondosamente a atenção do underground luso com o tremendo álbum de estreia, “The Tree of Venomous Fruit”, disco que solidificou a reputação de Bruno Correia como arquitecto da violência sónica, a banda portuguesa Visceral regressou com um line-up renovado e um foco ainda mais aguçado para desferir o segundo golpe.

Lançado em Abril de 2025, “Eyes, Teeth and Bones” não é apenas um sucessor, mas uma exibição implacável e magnífica da ferocidade do death metal dos Visceral, forçando os limites do género com uma precisão esmagadora. Este disco consolida a visão de Correia e da sua crew como uma força a ter em conta no espectro mais extremo do metal, elevando a fasquia da intensidade e da densidade textural.

Desde o primeiro instante, o álbum estabelece as premissas simples dos Visceral: death metal de alta intensidade que assenta numa base old-school, mas que não se coíbe de explorar paisagens sonoras sombrias e dissonantes. O disco, que contou com a produção e mistura do próprio Correia e foi masterizado pelo conceituado Dave Otero (conhecido pelo seu trabalho com Cattle Decapitation e Vitriol), apresenta um som limpo, porém punitivo, onde cada nota e cada batida atingem o ouvinte com um impacto físico e inegável.

Esta abordagem na produção resgata, de uma forma espantosamente eficaz, a sonoridade pela qual Correia se notabilizou em projectos anteriores. Existe uma inegável aproximação estética ao trabalho desenvolvido nos In Tha Umbra, especialmente na forma como as guitarras e o baixo se fundem em múltiplas camadas, soando como um enxame voraz e interminável que se abate sobre o ouvinte. Mais assumidamente blackened death que “The Tree of Venomous Fruit”, a massa sónica é tão densa e compacta que parece engolir a luz, transformando os riffs em texturas de esquizofrenia e desespero, numa sinestesia com as demenciais pinturas do brabantino Jeroen van Aken, mais conhecido pelo seu pseudónimo Hieronymus Bosch.

Contudo, este registo traz consigo um ponto de discussão incontornável: o som da bateria. Se a brutalidade intransigente do disco é a sua primeira característica evidente, a frieza do kit é a segunda. O som dos timbalões e bombo apresenta-se quase maquinalmente esterilizado, incrivelmente rápido e tecnicamente irrepreensível, mas com uma precisão cirúrgica que pode gerar discussão entre aqueles que preferem o calor mais orgânico do death metal mais tradicional. No entanto, já latente no anterior disco dos Visceral, não é um defeito, mas sim uma escolha estética que acrescenta uma camada de fatalismo apocalíptico e controle técnico à destruição sónica, fazendo com que a violência pareça calculada e inevitável.

No centro desta tempestade textural está a monstruosa performance vocal, o elemento mais singular e versátil do álbum. Longe de se limitar a uma única técnica, o trabalho vocal metamorfoseia-se constantemente, utilizando uma paleta ampla de agressão para dar corpo à narrativa de horror. As vozes oscilam entre guturais cavernosos e profundos, capazes de evocar o medo mais prímevo, harmonizações (ou sobreposições) demoníacas e guinchos de agonia maníaca, assegurando que, mesmo nos momentos de velocidade vertiginosa, a verbalização é sempre visceral e hostil. Este dinamismo vocal é fundamental para a diferenciação das malhas, funcionando como uma âncora emocional (ou anti-emocional) no meio da incessante violência instrumental dos Visceral.

O álbum é uma jornada implacável por treze malhas que, embora partilhem o mesmo núcleo de ferocidade, são individualmente esculpidas com um caráter distinto. “Where the Wretches Are” abre as hostilidades com vocalizos graves e sinistros, banhados em pavor, enquanto a secção rítmica arrasta o ouvinte por uma paisagem ominosa e de peso esmagador. Esta atmosfera de terror é rapidamente substituída pela velocidade de “Unsurmountable”, uma verdadeira torrente de blast beats hiper-rápidos em que vozes adquirem malignidade a cada compasso, sobrevoando uma paisagem melódica que se contorce sob os tempos mutáveis.

A complexidade dinâmica atinge um ponto alto em “Heave Down the Teeth”, que, embora ancorada em riffs de ritmo médio, coloca o foco nas variações vocais em camadas, com guitarras dissonantes a soarem histericamente à volta da loucura central. É um tema que se contorce e se transforma, alternando momentos de velocidade concisa com passagens de melodia fugaz, culminando num exalar cru e primordial. A seguir, o suspense toma conta de “Indelible”, tema construído pelos Visceral com contrastes de adamento que criam uma tensão palpável, antes de desaguarem numa paisagem sonora mais contemplativa, mas que rapidamente escalam a intensidade para um último assalto punitivo.

Um dos momentos mais inesperados e emocionalmente envolventes é “Of Breath and Poison,” que se distingue pela sua narrativa desesperada. O ritmo oscila entre a alta velocidade percussiva e passagens lentas e melancólicas. Neste ponto, emerge uma beleza sombria e desoladora, com riffs melancólicos a subir e a descer, presos a uma entrega vocal crua e quase vulnerável. É um dos temas que atesta a capacidade dos Visceral de injectar profundidade e melancolia, sem nunca comprometer a ferocidade inerente. A atmosfera de reflexão é reforçada pela textura ambiente e efémera de “Anfisbena Thrice”, uma peça curta com um toque espectral que se desfaz como cinzas.

A recta final do segundo álbum dos Visceral é dedicada à destruição maciça. “Wells” começa com ruídos fantasmagóricos e o som do vento antes de detonar num assalto rítmico e gutural, onde o groove e pinch harmonics das guitarras cortam a barreira impenetrável de blast beats. Seguem-se “Dense” e “Ascending Weight,” onde riffs ominosos se interligam com repetição contundente, culminando numa ponta apocalíptica e destrutiva. O segundo destes, começando com um estalar de transmissão quebrada, transforma-se num moer constante de riffs dissonantes, desacelerando lentamente para se tornar esmagador.

No entanto, o pico de contraste e um dos momentos mais memoráveis é atingido em “Loathe,” com a participação da artista Celia Ramoz. Neste tema, as expressões guturais, esparsas e crípticas, são justapostas de forma brusca a harmonias angelicais assustadoras, criando um contraste chocante, mas de uma beleza singular: uma escuridão embrulhada em desespero etéreo e raiva silenciosa. É o melhor exemplo da ousadia composicional dos Visceral. O golpe final é desferido com a versão de “On Frozen Fields,” um clássico dos Dismember, que garante um epílogo brutal e feroz, mantendo a carnificina até ao último segundo.

“Eyes, Teeth and Bones” é uma audição poderosa e esmagadora, que transcende a definição de speedfest ao injectar emoção e ambiência sombria no seu núcleo implacável. Os Visceral criaram um álbum onde cada malha, embora feita dos mesmos elementos centrais, possui um carácter inconfundível e cimenta a posição da banda como acólitos de um blackened death metal complexo e inegavelmente viciante.

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