O álbum de estreia dos Glass Animals cumpriu todas as expectativas dos dois EPs anteriores. Sentámo-nos com Dave Bayley no Cais do Sodré, a falar da intrigante sonoridade de “Zaba”.
Inspirado no livro infantil “The Zabajaba Jungle”, a sonoridade exótica de “Zaba”, o álbum de estreia dos Glass Animals, reflecte o ambiente conceptual que é a sua base. Foi originalmente editado no dia 9 de Junho de 2014, seguindo a visão do compositor e multi-instrumentista Dave Bayley.
Materializando essa visão no mundo real esteve uma lenda como Paul Epworth, cuja assinatura, além deste disco de Glass Animals, está impressa em trabalhos de nomes como Adele, Florence and the Machine, Foster the People, John Legend, Azealia Banks, Paul McCartney, Crystal Castles, Bloc Party ou Primal Scream, para dizer mesmo só alguns.
O som de “Zaba” em particular, e de Glass Animals, no geral, é apenas aparentemente minimalista. A sua sonoridade rica e as “perturbações” estruturais que surpreendem durante a audição foram o motivo de uma conversa que tivemos com Dave Bayley, num bar no Cais do Sodré, quando os Glass Animals passaram no MusicBox, no cartaz do ido festival Jameson Urban Routes no ano de edição do álbum.
Temos uma tendência para, levianamente, pensarmos que as coisas são foleiras.
Dave Bayley
Há um sentido pop, 4/4, nos Glass Animals e, ao mesmo tempo, somos surpreendidos com desconstruções desse sentido mais óbvio. Qual o truque?
Penso que isso acontece porque alguns dos membros da banda possuem um défice de concentração. Se a canção for muito “mesmista” torna-se aborrecida para eles. Para estarmos todos em harmonia precisamos dessas invasões de um novo som, de um novo beat, na estrutura. Temos uma tendência para, levianamente, pensarmos que as coisas são foleiras.
Quando se fala de Glass Animals, surge muitas vezes o nome de Alt-J. Se fizesse esse tipo de exercício, falaria mais em Peter Gabriel, ali nos 80s, ou Brian Eno…
A sério? Amo esses tipos. O trabalho a solo do Brian Eno é uma influência gigantesca. Ou o trabalho que desenvolveu com os Talking Heads. Altamente dizeres isso. Em termos de ambiente sonoro, também parto de muito soul antigo ou krautrock. Ouço bastante. Talvez aquilo que ouça mais seja hip hop dos 90s, carradas de Dr. Dre e Missy Elliot, o “Supa Dupa Fly” é um discão, tal como o “Voodoo”, do D’Angelo. Vem muito daí.
Há muita experimentação neste álbum dos Glass Animals ou assim parece. Como são construídas as canções?
A maioria das canções começa como acordes e voz. As outras começam como beats, electrónicos, de bateria ou synths. E aí, normalmente, esses beats surgem através de estar “de volta” de synths ou de sons de bateria que encontro. Deixo a rodar e vão surgindo camadas de ideias. Trabalho no Pro Tools aparelhado ao Ableton, para poder fazer aí a sequenciação. Não há melhor que o Ableton para sequenciar, e não há melhor que o Pro Tools para gravar. Assim tenho o melhor de dois mundos.
Trabalhar nesse ambiente pode levar-te a perder horas à procura da configuração perfeita de sequenciação, efeitos, isso acontece-te com Glass Animals?
Sim! Às vezes consigo irritar o resto dos rapazes. Estamos em estúdio e passo uma hora a rodar os potenciómetros a um sintetizador. Acabas por aprender como um synth funciona, mas eles não ligam tanto a isso como eu [risos]. É assim que passo a minha vida, a descobrir sons.
E quais são as unidades a que estás mais afeiçoado?
Ao vivo não usamos o mesmo equipamento com que gravamos. Tivemos sorte, gravámos o álbum num estúdio muito bom, mas não podemos viajar com esse equipamento. Os synths para os quais tendo são um Putney VCS3 [Electronic Music Studios] e um Jupiter-6 [Roland]. Adoro o Jupiter-6, mas também posso usar um Prophet 5 [Sequential Circuits] aliás, em estúdio usámos um Prophet 10 que, basicamente, são dois Prophet 5 juntos. Adoro esses synths também. Há um pouco de modulação, principalmente para efeitos sonoros. Corro muitas coisas através do VCS3, como a distorção que posso conseguir através do input dos pré-amps. Synths é mais ou menos por aqui… Guitarras? Posso falar das guitarras?
Ná! Não quero saber nada disso…
[Risos] Fender Jazzmaster! Uso imensas nas gravações. Elas soam… Bem, soam jazzy e soam bastante à madeira. Mas a que usei mais foi a Hofner Galaxie, de ’63, é a minha guitarra favorita. São guitarras frágeis, estragam-se constantemente e estou sempre a comprar peças sobressalentes ou réplicas e a montá-las. Mas têm um som muito bom de madeira e uma certa crueza.
O baixo tem um som tremendo no disco. Parece muito processado e, ao mesmo tempo, bem dinâmico. Como trabalharam isso?
Nos amps usámos um pouco o Ampeg B-15, misturado com um Jazz Chorus – que está em todo o lado. O Jazz Chorus não é, propriamente, para baixo, mas conseguimos tirar o som “certo” dele, soa com o ataque que procurávamos em muitas das canções. Isso em combinação com DI, que ligamos sempre a um pré Telefunken V72.
Os Jazz Chorus, no tempo em que faziam as cabeças, eram também muito usados para baixo…
Oh, é verdade. Ligava-se tudo a isso. São espantosos e o Chorus soa incrível! Usamos o Chorus desse amp o tempo todo, através do pedal que fizeram só com o efeito do amp, o Boss CE. Voltando aos amps, para as guitarras qualquer amp vintage da Fender serve.
