Com abertura de No Path e Utopium, um set focado no 30.º aniversário de Humanity Is the Devil e a chancela da HellXis, Dwid Hellion transformou o formato despido de quarteto dos Integrity numa parede de som arrasadora.
Na noite de 15 de Setembro de 2026, o RCA Club foi palco da confirmação de uma promessa antiga. O regresso a Portugal dos lendários Integrity — instituição fundada em Cleveland, Ohio, em 1988 por Dwid Hellion — não se traduziu apenas em mais uma data de digressão; foi uma celebração viva de história, peso e comunidade. A sala de Alvalade, espaço ideal para deixar que a densidade da música pesada se instale sem travões, esteve bem composta desde cedo.
A abrir a noite, a prata da casa não facilitou. Os No Path apresentaram-se respaldados por uma enorme falange de apoio. Munida de uma agressividade hardcore de sobra e sustentada por um som de baixo verdadeiramente esplendoroso e arrasador, a banda deu provas de ser um núcleo de apresentação já bastante coeso. Ficou, contudo, a sensação de um certo abuso nos breakdowns herdados da era Burn My Eyes dos Machine Head, deixando antever que estas canções directas e energéticas têm ainda um margem considerável para crescer.
Já os Utopium, que atravessam há cerca de dois anos um notório renascimento apoiado num lineup renovado, dinamitaram a sala sem contemplações. Se há uma década a banda parecia apenas prometedora, a parelha entre o frontman Rizzo e o guitarrista Tiago está agora elevar os padrões para patamares de excelência. Ancorados numa secção rítmica de elite — com Deris no baixo e Jordi na bateria —, entregaram uma actuação avassaladora, onde o destaque da noite incluiu a subida ao palco de Johnny dos Mouthful Of Grief, para berrar uma malha com a banda. O concerto teve no centro a urgência de Vicious Consolation / Virtuous Totality, deixando no ar a certeza absoluta de que um disco sucessor já peca por escandaloso atraso.
A Matriz do Hardcore e o Peso da Cena
Poucos grupos conseguiram redefinir o que um género pode ser sem o abandonar por completo. Desde os primeiros anos de actividade, Dwid Hellion conduziu os Integrity para territórios que o hardcore convencional da época hesitava em explorar: o metal extremo, o thrash, as atmosferas densas e uma violência sonora com uma dimensão quase litúrgica. O resultado foi um som que desafiou categorias e abriu caminho para o que mais tarde viria a ser designado como metalcore — embora essa etiqueta, hoje aplicada a realidades tão distintas, diga pouco sobre a densidade sombria original da banda.
Assistir aos Integrity ao vivo é escutar essa génese em tempo real: uma ponte directa que vai do caos matemático dos Converge à urgência visceral dos Planes Mistaken For Stars, por exemplo. Essa ascendência refletiu-se de forma exemplar na moldura humana que encheu o RCA Club. Na plateia, era notória a presença de músicos de várias gerações do circuito pesado nacional — elementos de bandas como BØW, Don’t Disturb My Circles, Manferior, Why Angels Fall, Process Of Guilt, Decline and Fall ou os já referidos Mouthful Of Grief, entre outros.
Enfim, uma presença massiva de pares que atesta a autoridade de Hellion, mas que sublinha também o trabalho contínuo da Hell Xis, que continua a travar uma luta incansável para erguer, nutrir e manter de pé um circuito alternativo vibrante em Portugal. Vai daqui um enorme bem-haja!
A Mutação de Dwid, Divebombs e o Enxame de Guitarras
Quando a banda assumiu o palco, bastaram os primeiros urros de Dwid Hellion em “Vocal Test” para desfazer qualquer distância para a plateia. No entanto, um dos aspectos mais marcantes e cativantes da noite foi o delicioso contraste na atitude do vocalista. Entre temas, Hellion mostrou-se incrivelmente divertido, leve e bem-humorado, trocando piadas e criando um ambiente descontraído com a sala. Mas, no milissegundo em que a bateria dava o sinal de arranque, essa boa disposição dava lugar a uma agressividade cega e possuída, regressando ao registo demónico com uma facilidade desconcertante.
Despidos de truques ou pistas de apoio, reduzidos ao formato clássico de bateria, baixo, uma única guitarra e voz, os Integrity preencheram o volume do RCA Club como se houvesse uma banda maior em cena. Grande parte do mérito recai sobre Harley McCoy, o guitarrista deste lineup: um autêntico shredder que espalhou divebombs à Eddie Van Halen ao longo de toda a actuação.
Foi com o álbum de 2017 que, pessoalmente, entrei no universo dos Integrity. Por isso, devo admitir que a minha impressão parte daí. A noite, todavia, esteve mais focada no 30.º aniversário do uber-clássico Humanity Is the Devil. Mas, mesmo sem irem buscar temas a Howling, For the Nightmare Shall Consume, era notório como a estética dessa era da terceira ou quarta refundação da banda — onde as camadas de guitarras se erguem como um enxame de fúria e melodia — estava integralmente transposta para o palco nesta abordagem a um só instrumento.
Quem já testemunhou a banda ao vivo sabe que o palco funciona como um espaço de confronto físico e emocional onde não existe distância segura. O alinhamento desenrolou-se com uma fluidez orgânica impressionante, quase integralmente ancorado nos discos históricos que resistiram ao tempo com uma autoridade rara.
Após o já referido choque eléctrico inicial de “Vocal Test” e a precisão cirúrgica de “Hollow”, o resgate de “Sarin” relembrou o peso bruto de Seasons in the Size of Days (1997), intercalado com marcos de Humanity Is The Devil (1996), a tensão harmónica de “Incarnate 365” e “Abraxas Annihilation” ou a cadência arrastada de “Systems Overload”, antes da sua furiosa explosão.
Quando a banda arrancou para “Those Who Fear Tomorrow”, o clássico de 1991 que continua a soar desconfortável e genuinamente ameaçador, o RCA Club ruiu num oceano de choque de corpos e vozes a disputar com Hellion para gritar a lírica mística e niilista a plenos pulmões.
A noite fechou em tom de celebração comunitária com um encore fuzilado através de uma versão de “Hybrid Moments” dos Misfits, selando um concerto memorável onde o rigor técnico, a boa disposição e a fúria cega provaram que quatro décadas de actividade não amansaram os Integrity um único milímetro.

A setlist integral: Vocal Test; Hollow; Psychological Warfare; Sarin; Taste My Sin; Incarnate 365; Abraxas Annihilation; Systems Overload; Rise + Diseased Prey Within Pre (Intro apenas); Judgement Day; Harder They Fall; Those Who Fear Tomorrow; Jagged Visions; Hybrid Moments. As fotos são da Solange Bonifácio.
