Burn My Eyes

Robb Flynn: Burn My Eyes, Malha a Malha

Robb Flynn recorda as origens e reflecte sobre cada um dos temas de “Burn My Eyes”, o devastador álbum de estreia dos Machine Head.

Eram anos de ouro para a Roadrunner Records. Um ano antes, para citar apenas dois exemplos, haviam sido editados os colossais “River Runs Red”, dos Life Of Agony, e “Bloody Kisses”, dos Type O Negative. E então surgiu esta besta de groove metal denominada “Burn My Eyes”. O titânico álbum de estreia dos Machine Head foi editado no dia 9 de Agosto de 1994, passando a ostentar uma marca triplamente decana. É Robb Flynn, o fundador e único membro constante do line up da banda, que (num artigo originalmente publicado na Kerrang) nos conduz, malha a malha, através do devastador “Burn My Eyes”.

Davidian

«Acho que posso dizer que “Davidian” surgiu bastante tarde no processo de composição. Provavelmente foi uma das últimas canções que escrevemos para o “Burn My Eyes”. Não tínhamos contrato quando a escrevemos, e recordo-me da primeira vez que a tocámos, tínhamos uma amiga punk que estava a tornar-se responsável e a arranjar um emprego de verdade, todas essas coisas, por isso queria fazer uma grande festa de despedida. Foi num armazém em Oakland e era Verão, por isso estava muito calor, e tocámos num parque de estacionamento que era a entrada para esse armazém, no distrito de matadouros de Oakland.

Éramos nós e algumas bandas punk, e recordo-me de só ter três letras na altura, e o refrão não era ‘Let freedom ring with a shotgun blast’, era algo verdadeiramente horrível e embaraçoso. Era mesmo mau! Recordo-me de tocar esta nova canção e chegarmos a este refrão que era ‘Get the fuck up to a bone breaking groove’. Lembro-me de dizer isso em voz alta e pensar: ‘Oh meu Deus, isto é uma merda! Tenho de mudar isto!’ Quando a mudámos, surgiu bastante rápido, e não queria que fosse sobre nada em particular, mas foi inspirada em toda a história do Branch Davidians, onde 74 pessoas foram assassinadas pela DEA e houve um impasse durante semanas.

Após o tiroteio de Las Vegas, disse que não queria voltar a tocá-la, e há milhares de pessoas que pensam que nunca mais tocámos “Davidian”, mas tocámo-la todas as noites da digressão Catharsis, excepto em Las Vegas. Depois do que aconteceu em Las Vegas, acordei com estas notícias horríveis, e estava a fazer uma coisa em directo no YouTube todas as terças-feiras, por isso as pessoas perguntavam sobre isso. Mas depois tornou-se uma notícia gigantesca, e tudo o que estava a dizer era que foi horrível e que nunca mais queria tocar aquela canção. Claro, o tipo não estava a usar uma espingarda de caça, mas eram tempos loucos, e disse isso e não me arrependo de o ter dito. Mas foi o tiroteio em massa mais horrível da história da América, e foi muito para absorver».

Old

«Na verdade, foi o Logan Mader quem trouxe aquele riff principal. Estávamos a ensaiar na San Pablo Avenue em Oakland, e era uma zona bastante perigosa; era só viciados em crack, sem-abrigo e prostitutas, e estávamos a ensaiar no estúdio de tatuagens de alguém, mesmo na rua principal. Começávamos a tocar e havia uma janela atrás do Chris toda cheia de grades, e todos esses sem-abrigo e viciados em crack ficavam atrás da janela a curtir.

Estávamos mesmo a ouvir muito hip-hop neste período de composiçáo do “Burn My Eyes”, e obviamente em Oakland estamos constantemente expostos a isso, por isso entre as nossas músicas fazíamos jam às músicas hip-hop populares da altura, como Wu Tang Clan, Cypress Hill, e coisas do género. E todos esses sem-abrigo ficavam tipo, ‘Oh pá, estes gajos brancos sabem mesmo tocar.’ De um modo estranho, tocar para os viciados da vizinhança acabou por moldar a música, e começámos a incluir um pouco disso, só por causa da reação que estávamos a ter deles. Esse groove do ‘Old’ é provavelmente um dos mais baseados em hip-hop, mesmo o riff sendo pesado como a porra e a letra maligna e blasfema, sobre o Jesus descer e ser baleado, tipo se ele descesse hoje, nada do que ele dissesse teria o efeito que teve naquela altura. Mas pusemos isso num beat com groove e deixou a música mesmo fixe.

Há muitas músicas sobre religião no “Burn My Eyes”. Nunca fui religioso, mas a minha mãe tinha-se tornado recentemente cristã renascida, e o irmão gémeo do meu pai tinha entrado numa seita. Quando era miúdo, fomos lá tentar tirá-lo da seita, e não conseguimos, falhámos. Simplesmente fomos embora, e o meu pai não falou com ele durante décadas, foi uma loucura. Então a lente através da qual eu vejo a religião é essa; o irmão gémeo do meu pai entrar numa seita e não conseguir tirá-lo, e ver o dano que isso causou. É mesmo sobre isso que o ‘Old’ fala».

A Thousand Lies

«Tínhamos [os Estados Unidos] acabado de entrar na primeira guerra do Iraque, por isso o Bush pai era presidente, e aquela música foi uma declaração muito forte contra a guerra e contra o racismo. Estávamos a ouvir muito punk rock na altura de escrever para o “Burn My Eyes”, e estávamos a ensaiar num espaço partilhado com cinco bandas punk, por isso era muito político e isso estava mesmo a influenciar o que estávamos a fazer, com certeza».

None But My Own

«Essa pode ter sido a última música que escrevemos para o “Burn My Eyes”, e sou apenas eu a lidar com algumas coisas muito pessoais. É uma música muito zangada, muita merda da minha infância, só raiva e fúria contra uma pessoa em particular. Não é uma balada, mas é uma das primeiras músicas que cantei meio-baixinho, o que foi estranho para mim, e estava meio intimidado com o que as pessoas pensariam sobre isso, mas adoraram».

The Rage To Overcome

«Tivemos um baterista diferente durante algum tempo, um tipo chamado Tony Costanza, e ele escreveu e refinou cerca de metade do disco. Esta é uma das músicas que escrevemos com ele, e ele teve a ideia da intro da bateria. Esta música era mesmo sobre ‘empowerment’, lutar pelo que acreditas, e defender-te a ti próprio. Basicamente, a inspiração e uma das letras desta música do “Burn My Eyes” vieram de um artigo de opinião que li no Oakland Tribune. O tipo estava mesmo fulo com a guerra e estava a desabafar como um condenado. Acabou com ‘an open mind with a closed fist’, e eu fiquei tipo, ‘Caralho, isso é poderoso como a merda!’ Inspirou-me totalmente, por isso peguei nisso e basicamente organizei toda a música em torno da ideia. O Logan escreveu o riff de intro».

Death Church

«”Death Church” foi a primeira música que escrevemos para o “Burn My Eyes”. Ainda estava nos Vio-lence quando escrevi essa música, e estava a ficar maluco com o disco “Streetcleaner” dos Godflesh. Acabei de os ver abrir para os Napalm Death, e fiquei tipo, ‘O que é isto, pá?’ Era incrível! Pesado e estranho, e escuro e deprimente, e tão claustrofóbico. Tirei muita inspiração do “Like Rats”, a primeira música desse disco, e inspirei-me nisso para ‘Death Church’. Eram os dias em que vias os pregadores evangélicos na televisão a dizer que precisavam de dinheiro para um jato privado, e eu costumava ver esta merda, e, novamente, era anti-religioso. Passei por uma fase de heroína, e, na verdade escrevi o segundo verso à heroína. Quando olhei para trás, pensei, ‘Oh, isto está fixe’, que foi provavelmente a única vez que olhei para trás e achei que estava bom. Todas as outras vezes foi merda».

A Nation On Fire

Outra música grande do Logan Mader. O Logan escreveu essa intro muito fixe que era bastante estranha e fora de tempo. Tinha uma guitarra muito limpa, mas estava cheia de notas beras. O Logan era um gato marado, porque tanto o Adam como o Logan, esta foi a primeira banda deles. Nunca tinham tocado antes, nunca tinham feito jam, e o Logan nunca tinha escrito intros nem tocado solos, por isso atirava-lhe merdas o tempo todo e isso transformava-se num estilo mesmo único e estranho, acho que porque ele estava a aprender tudo à pressa. Então, ele escreveu essa intro muito fixe, e essa música, como a “Davidian”, foi um reflexo da condição americana, e um reflexo de uma vizinhança bastante perigosa onde estávamos a viver. Estávamos em guerra e era sobre racismo. Há uma frase lá, ‘You tell me peace while I hear gunshots all night’, e eu acordava com pessoas a disparar armas a um quarteirão de distância. Eram tempos loucos.

Os distúrbios de LA tinham acabado de acontecer, depois do julgamento do Rodney King, e esses distúrbios aconteceram em todo o lado; aconteceram em toda a Oakland e em toda a Berkeley, e recordo-me que quando escrevi a letra dessa música estava a viver em Berkeley e ouvi toda esta merda a acontecer. Tinha uma bicicleta de montanha, não tinha carro na altura, e recordo-me de andar de bicicleta até à Telegraph Avenue, porque as notícias diziam que as pessoas estavam criar distúrbios na Telegraph Avenue. Em vez de fazer a coisa inteligente como toda a gente, que era ficar em casa, saltei para a bicicleta, tipo, ‘Quero ir aos distúrbios!’ Literalmente andei de bicicleta até aos distúrbios que estavam a acontecer na Telegraph Avenue, porque queria sentir-me vivo e absorver aquele momento louco. Foi uma loucura!

Havia pessoas a incendiar carros da polícia, e gás lacrimogénio entre manifestantes e polícia. Fui perseguido por uma gangue de manifestantes e depois entrei diretamente numa gangue de polícias, e eles estavam a perseguir-me. Estava literalmente a pedalar pela minha vida e as pessoas estavam a bater-me. Foi loucura. Depois disso, todas aquelas letras para ‘A Nation On Fire’ começaram a sair em catadupa».

Blood For Blood

«Um exercício de thrash total! Provavelmente a única música de thrash real e verdadeiro do “Burn My Eyes”. Era, como o Jamey Jasta gosta de nos chamar, ‘metal burro de Oakland’. E esta música prova porquê. Tudo nela é tão burro. É basicamente sobre foder, e foder as pessoas se se meterem connosco! Estava a sair com um amigo chamado Mark, na altura, e ele acabou por ir para a prisão para sempre, mas estava maluco e era o melhor lutador de rua com quem já me cruzei na vida. O cérebro deste gajo estava ligado para lutar. Não importava o tamanho do gajo, ele encontrava sempre maneira de ganhar.

E ele nem era assim tão grande, era um pouco mais baixo que eu, mas muito mais forte, e vi-o derrotar skinheads que provavelmente eram um pé mais altos que ele. Este gajo era louco, e estar por perto dele inevitavelmente metia-te nisso. Não que eu fosse um grande lutador, mas ele estava sempre à procura de alguém para lutar, por isso inevitavelmente eras arrastado para uma luta, quisesse ou não. De alguma forma, estar por perto da energia desse gajo inspirou esse tipo de música, sobre um tempo ignorante e violento».

I’m Your God Now

«Esta é provavelmente a balada do “Burn My Eyes”. Bem, não é realmente uma balada. Talvez uma power ballad muito deprimente. Sempre que escrevemos algo que é meio suave e bonito, tenho de pôr algum tipo de torção nisso que o torne escuro e feio. Para mim, é isso que o torna tolerável e fixe. Esta música é sobre quando estava a dar na heroína. Na noite em que assinei o contrato com a Roadrunner, tive uma overdose de heroína e quase morri.

Sobrevivi, mas um mês depois, um bom amigo meu deu na mesma dose de heroína e morreu. Se não fosse suficientemente chocante o facto de poder ter morrido na noite em que assinei o meu contrato discográfico, e nada de “Burn My Eyes”, nada com Machine Head teria alguma vez acontecido, uma semana depois ter o meu amigo a morrer mesmo foi uma das noites mais da minha vida que mais me tornou sóbrio.

A música já era sobre drogas, mas isso mudou mesmo o ritmo. Passou a ser sobre a minha vida, o caminho que estava a seguir, o que estava a acontecer, e como tinha de parar. “I’m Your God Now” é sobre como a droga se torna o teu deus, outra vez outra referência à religião no “Burn My Eyes”».

Real Eyes, Realize, Real Lies

«Estávamos a ouvir muita coisa industrial, a ficar malucos com Ministry e Laibach e todas essas bandas loucas. E toda a ideia de contar uma história com samples ou fazer uma música com samples no “Burn My Eyes” era muito apelativa. Tínhamos todos aqueles samples no início da “Death Church”, por isso estávamos a entrar nesse reino, e eu queria mesmo contar uma história com samples.

Estava a pegar em pontos de vista muito extremos de supremacistas brancos e depois a pegar em pontos de vista muito extremos de nacionalistas negros, e depois a tentar encontrar o meio, onde todos pudéssemos chegar juntos no final. Então peguei em todas estas declarações muito controversas para as primeiras duas secções, e depois tentei encontrar o meio termo e ser criativo com isso. Era mais como falar e soundbytes, não era realmente uma música. Mas o título da música…

Oakland é uma cidade com muito graffiti, há muitos artistas de graffiti por todo o lado. Costumava viver perto do metro e se conduzisses em direcção a este clube punk onde víamos os Rancid e todas essas bandas, dizia essas palavras em três pilares de cimento; dizia ‘Real eyes, realize, real lies’, e achei mesmo fixe, por isso quando essa música se juntou, aí estava mais um título do “Burn My Eyes”».

Block

«A última música do “Burn My Eyes”, que originalmente se chamava Fuck It All, mas a editora obrigou-nos a mudar. Foi uma das primeiras músicas que escrevemos, talvez a terceira. Tocámos essa música com o Chris quando ele ainda tocava nos Attitude Adjustment, e ele acrescentou todos os drum fills na malha, como os drum rolls nos versos, o que é coisa bastante única mesmo para os padrões de hoje. Uma vez mais, a malha lidava com o racismo e muito disso foi baseado nos distúrbios, mas era realmente como me sentia em relação a tudo. Era tipo, foda-se tu, foda-se eles, e foda-se tudo. Foda-se tudo! Escrevi esse refrão e pensei, ‘É mesmo assim que me sinto!’»

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