Iron Maiden

Iron Maiden, Apenas Mais Uma Noite Épica em Lisboa

Numa celebração de memória, teatralidade e pura energia, os Iron Maiden transformaram o velhinho Atlântico em palco da “Run For Your Lives World Tour”, provando mais uma vez a sua profunda ligação com Portugal e a sua capacidade inigualável de se reinventar, mesmo mergulhando nas suas raízes. A estreia de Simon Dawson na bateria e a performance magnética de Bruce Dickinson são apenas alguns dos destaques de uma noite que, uma vez mais, ficará gravada na história do heavy metal em Lisboa.

Lisboa, 6 de Julho de 2025 – A capital portuguesa foi uma vez mais palco de um acontecimento que transcende o simples concerto, transformando-se num verdadeiro ritual de heavy metal. Os Iron Maiden, uma instituição para os fãs lusos (tal como para os fãs de todoo globo), esgotaram a MEO Arena para a tão aguardada ‘RUN FOR YOUR LIVES’, uma digressão que prometia mergulhar nas profundezas da sua primeira década e que entregou uma noite de memória, teatralidade e uma energia avassaladora, consolidando-se como um dos eventos mais marcantes da história recente da capital.

Os Iron Maiden iniciaram esta digressão mundial no dia 27 de Maio de 2025 em Budapeste, data inaugural a ser seguida por 27 concertos em estádios, festivais e arenas por toda a Europa. Esta rota, que assinala 50 anos desde que Steve Harris fundou a banda no final de 1975, é uma das maiores de sempre dos Maiden.

Disse o vocalista Bruce Dickinson, no seu lançamento: «O próximo ano será muito especial para os Iron Maiden e vamos proporcionar aos nossos fãs uma experiência ao vivo única na vida. Esta é uma digressão que vai colocar um sorriso nos vossos rostos e entusiasmo nas vossas gargantas. Se já nos viram antes, preparem-se para levar essa experiência a um nível completamente novo. Se nunca nos viram antes, de que é que andaram à espera? Esta é a vossa oportunidade de descobrirem o que têm perdido! Os Iron Maiden vão definitivamente surpreender-vos!»

O manager dos Iron Maiden, Rod Smallwood, acrescentava: «50 anos de Iron Maiden e eu vi 46 deles! Com mais de 100 milhões de álbuns vendidos e quase 2.500 espetáculos em 64 países para milhões de fãs e a contar, continuamos a adorar cada segundo e a considerar cada digressão um novo desafio para trazer algo diferente e emocionante aos nossos fãs. Para esta ocasião muitíssimo especial, estamos a elevar a fasquia!»

«Vamos interpretar clássicos e favoritos dos fãs dos primeiros nove álbuns, de ‘Iron Maiden’ a ‘Fear Of The Dark’, muitos dos quais não tocamos há anos e que, muito provavelmente, nunca voltaremos a tocar no futuro. Já estamos a trabalhar arduamente há meses para montar um novo cenário ainda mais espectacular e elaborado, que dará vida às canções como nunca conseguimos fazer antes. Estes serão anos enormes para os Iron Maiden e, claro, também para o Eddie, e estamos muito entusiasmados com o que temos reservado para vocês, fãs, durante todo o nosso 50.º ano de existência. Prometo que todos ficarão muito satisfeitos!», conclui, na altura, o manager das lendas britânicas.

Lisboa, Algures no Tempo

Desde as primeiras horas da tarde, Lisboa vestiu-se a rigor. T-shirts icónicas com o Eddie em diversas encarnações, bandeiras que ostentavam os logótipos da banda, coletes de ganga repletos de patches meticulosamente cosidos e a inconfundível mascote dos Iron Maiden a espreitar de todos os cantos. Os arredores da MEO Arena transformaram-se numa autêntica cidade paralela, uma Torre de Babel de entusiasmo onde fãs de todas as idades convergiam, partilhando histórias e canções. Era como se o tempo tivesse recuado aos anos 80, e, em certa medida, foi exactamente isso que aconteceu dentro de portas.

A antecipação febril era palpável, um reflexo da profunda e emocional ligação da banda britânica com Portugal, uma relação que se consolidou desde a sua estreia em 1984 e que, ano após ano, se fortalece com a paixão incansável dos fãs portugueses. Steve Harris, em particular, nunca escondeu o carinho pelo público luso, frequentemente referindo-se aos concertos dos Iron Maiden em Portugal como alguns dos mais emocionantes das inúmeras digressões que fizeram ao longo das últimas cinco décadas. É essa ligação, feita de constância e paixão, que dá contexto à magnitude desta noite inesquecível.

Quando os acordes familiares de “Doctor Doctor”, dos UFO, irromperam pelas colunas (como sucede há tantos anos), a Arena explodiu numa catarse colectiva. Braços erguidos em sinal de devoção, algumas vozes a arriscar a entoação do hino não oficial dos Iron Maiden, e olhos brilhantes no rosto dos mais devotos – um momento que transcende o cliché e se torna um verdadeiro chamamento.

Sob a marcha de “Idles Of March”, o ecrã gigante, uma das grandes novidades desta digressão, despertou com uma viagem digital pelos becos sombrios duma Paris oitocentista, transportando a audiência para uma atmosfera quase cinematográfica. Névoas densas, candeeiros tremeluzentes e fachadas decrépitas preencheram o palco, criando um cenário de suspense e imersão, até que, sem aviso, as luzes rebentaram em vermelho e os Iron Maiden tomaram o palco com a intensidade crua e implacável de “Murders in the Rue Morgue”.

Foi o primeiro de quatro temas retirados da era Paul Di’Anno (o frontman original dos Iron Maiden, morreu em Outubro de 2024) que abririam a noite com um murro no estômago colectivo, uma sequência de puro heavy metal que provou a relevância intemporal dos seus primórdios.

“Wrathchild”, “Killers” (com um Eddie ameaçador, inspirado na capa do álbum homónimo, a surgir no palco e a interagir com Janick Gers, arrancando os costumeiros cândidos sorrisos – uma demonstração de como o espectáculo e o sexteto estão mais teatrais do que nunca) e uma fabulosa “Phantom of the Opera” seguiram-se como uma corrente ininterrupta de memória e agressão. Nunca estas canções soaram tão modernas, um verdadeiro feito da noite: tornar o passado não apenas relevante, mas urgente.

A produção cénica revelou-se um elemento central e um salto tecnológico para os Iron Maiden. Longe das telas meramente ilustrativas de tours anteriores, o novo palco integra o já referido ecrã gigante de forma activa, como se fosse ele próprio um personagem. O que se viu foi mais que um cenário: foi um teatro de sombras, de fogo, de imagens evocativas do cinema de terror, da estética steampunk e da mitologia própria da banda.

As animações de vídeo são cativantes, imersivas e combinam na perfeição com a temática das canções. A representação digital de Eddie, por exemplo, foi mais do que uma mascote animada, surgiu na tela como figura omnipresente, por vezes encarnada por um performer no palco, outras vezes ampliada por ilusões visuais engenhosas.

A desilusão de alguns fãs com as mudanças visuais, com a substituição dos cenários tradicionais e do Eddie insuflável pelos ecrãs LED e animação de vídeo, é compreensível até certo ponto. No entanto, os Iron Maiden demonstram um desejo de se manter actualizados com a tecnologia, oferecendo o melhor espectáculo possível. E as animações de vídeo são belíssimas, imersivas e combinam na perfeição com a temática das canções.

A de “Seventh Son of a Seventh Son”, por exemplo, é soberba, espelhando a capa e o interior do álbum, com a sua paisagem gelada. Os visuais de “Rime of the Ancient Mariner” foram deslumbrantes. O spoken word no meio da canção, com os estalidos da madeira e o fumo a cobrir o palco, foi fantástico e, combinado com o vídeo animado no ecrã, conferiu à música um sentimento surreal.

Se traduzido, o hino da banda diz qualquer coisa como não se poder lutar, nem se poder procurar ou almejar, simplesmente «onde quer que estejas, os Iron Maiden vão alcançar-te, não importa quão longe». Esse inevitável encontro da Providência, no caso deste cronista, deu-se cedo. Muito antes da plenitude da era digital, um petiz dos anos 80 aprendia a dominar a mais imponente tecnologia do seu lar: a aparelhagem paterna. Imaginem o impacto visual e imaginário da capa de “Powerslave” (1984) numa criança. Transportem isso para 2025 e para o arrebatamento que a imagem nos provocou quando os Iron Maiden tocaram o tema-título do álbum.

Simon Dawson e o Legado Imortal de Bruce Dickinson

Um dos grandes pontos de interrogação da noite era a estreia (em Lisboa) de Simon Dawson na bateria, que substitui Nicko McBrain – o antigo baterista dos Iron Maiden retirou-se após problemas de saúde que comoveram os fãs em todo o mundo. Substituir uma lenda seria, para qualquer músico, um fardo pesado. Dawson cumpriu, mas não surpreendeu, nem faz esquecer o antecessor.

No entanto, é significativa a sua prestação em “Rime Of The Ancient Mariner”, um colosso narrativo de 14 minutos que, antes desta rota, a banda não tocava ao vivo desde 2009. A complexidade rítmica e as variações dinâmicas foram executadas com precisão milimétrica e um fôlego físico que não custa admitir que McBrain já não teria.

Bruce Dickinson, aliás, fez questão de o elogiar publicamente, gerando uma ovação espontânea e emocionada. «He’s one of us now», disse, em tom solene. A sua presença no palco, embora visualmente mais contida do que a de Nicko com o seu kit monumental, foi inatacável a nível técnico, mas a sua batida precisará de muitas mais milhas de estrada, para ganhar uma alma remotamente aproximada à de McBrain.

A idade não perdoa ninguém. Nem o hiperactivo Bruce Dickinson que já se protege na maior parte dos temas, sugerindo as notas mais agudas em vez de realmente as cantar e “apressando” muito os versos, para resistir com mais vigor durante todo o concerto. Isto não se trata de desvalorizar de qualquer modo o músico  que, aos 63 anos de idade e mesmo depois de ter tido de lutar com um cancro na garganta, permanece um dos maiores cantores de sempre, apenas que se vai sentido o peso da idade.

Aliás, foi o próprio que, recentemente, abordou o assunto. Conforme os anos vão passando, torna-se mais difícil para qualquer vocalista de heavy metal atingir as notas mais altas e manter o vigor necessário a um concerto e Dickinson, numa entrevista com o Daily Star, deixou claro que, a partir do momento em que não consiga cumprir quatro músicas por noite, gostaria de ser substituído com efeito imediato.

Apesar disso, Dickinson deixou claro que não abandonaria totalmente a banda: «Se amanhã não me sentir capaz de cantar mais do que quatro músicas por noite, gostaria que os outros tipos continuassem e gostaria de poder escolher o meu substituto. Claro que ainda continuaria a aparecer de vez em quando e o outro vocalista faria o resto».

Todavia, com 65 anos, Bruce Dickinson continua a ser, indiscutivelmente, um dos maiores frontman da história do metal. O que ele faz no palco transcende a prestação vocal. Ele é maestro, contador de histórias, actor, acrobata e símbolo. A cada canção, um figurino diferente, uma metamorfose que complementa a narrativa visual. Vimo-lo envergar um colete de guerra de “The Trooper”, um casaco cerimonial de “Seventh Son Of A Seventh Son”, um uniforme vitoriano de “Fear Of The Dark”, ou um capacete de aviador em “Aces High”, malha na qual ãpesar de algumas pequenas falhas mostra o poder vocal que ainda detém – isto para parar com as conversinhas idiotas que temos que tolerar a actual voz de Axl Rose.

O ponto mais alto a nível visual talvez tenha sido “Hallowed Be Thy Name”, quando Dickinson foi colocado dentro de uma jaula cenográfica enquanto o ecrã projectava imagens simultaneamente macabras e absurdas, num cruzamento entre o horror expressionista e o humor britânico. Foi puro Iron Maiden: teatral, autoirónico e sombrio. O truque visual para esta música, aliás, confundiu inicialmente muitos na plateia, um testemunho da genialidade da produção. Clássicos em catadupa antes e depois, como “The Number of The Beast”, “The Clairvoyant” e “2 Minutes To Midnight”.

Um Final Devastador

A sequência final foi, como se esperava, devastadora, uma explosão de energia que deixou a MEO Arena em êxtase. “Run To The Hills” e “Iron Maiden” encerraram o corpo principal do espectáculo, mas o encore levou tudo para outro nível. “Aces High” abriu com imagens arrebatadoras de aviões Spitfire a sobrevoarem o ecrã, numa coreografia de guerra aérea. “Fear Of The Dark” foi acompanhada por milhares de luzes do público a iluminar o recinto, criando uma das imagens mais emocionantes e unificadoras da noite. As melodias, os coros uníssonos de milhares de pessoas…

É mesmo a melhor canção de sempre ao vivo, o exemplo perfeito do que se entende como a mistura entre uma banda, a sua música e o seu público. É sempre arrepiante. É também o momento ideal para deixar a minha laude ao herói nunca cantado dos Maiden: Janick Robert Gers.

Nunca adquiriu o estatuto icónico de Dave Murray e dos seus antémicos leads, aquela imperturbável serenidade e solidez da mão esquerda, e nunca foi aclamado como o vibrante shredder que é Adrian Smith, mas é como uma soma de ambos e trouxe um som bluesy aos Maiden que, nos dedilhados e pequenos apontamentos melódicos sem distorção, tão bem patentes neste magistral tema, redimensionaram o carácter sonoro das lendas britânicas.

Aliás, as suas Strats, como o modelo branco dos anos 70, soam mais aproximadas aos pressupostos originais desse design, com os vibrantes Seymour Duncan JB Jr. (no braço e ponte) e o Seymour Duncan Hot Rails (no meio); já o modelo preto dos anos 60, o que lhe foi oferecido por Ian Gillan [Deep Purple], possui a mesma configuração SSS, com os JB Jr., mas com um genérico no meio, em vez do Hot Rails. Bom, é difícil dizer, na verdade, se as guitarras são as originais ou as versões Fender Custom Shop com que foi presenteado no início deste milénio. Mas, caramba, soa com a alma de um dos seus maiores ídolos, Rory Gallagher.

Nesse particular, Dave Murray usou principalmente (parece-nos) a sua Fender Californian Series Strat, a Sunburst de dois tons. Murray inverte o setup de pickups de Gers. Ou seja, dois Hot Rails e o JB Jr. na posição do meio. Os sistemas tremolo Floyd Rose são indicadores do seu carácter mais mod, que vem de há muitos anos, desde a sua Strat preta, a 1957/63 (braço de ’57 e corpo de ’63).

Essa guitarra era de Paul Kossoff [Free] e Murray usou-a exaustivamente até 1990. Em 2009, a Fender usou-a para criar uma réplica Artist Signature, que agora é usada no palco, enquanto a guitarra original hiberna em casa da mãe do guitarrista. A respeito do gear utilizado pelos restantes elementos, podem espiar este nosso artigo, se bem que o mesmo não se refira a Simon Dawson.

“Wasted Years” encerrou os procedimentos com uma reflexão inevitável: são precisamente estes “anos desperdiçados” que os Iron Maiden têm recuperado a cada digressão, a cada disco, a cada reinvenção, mostrando que não há tempo perdido quando se vive a paixão com tanta intensidade.

Para Sempre

Apesar de algumas vozes online expressarem desilusão com o setlist escolhido pelos Iron Maiden, que não incluiu “deep cuts” de álbuns como “No Prayer for the Dying” ou “22 Acacia Avenue” como muitos esperavam, a escolha da banda de aprofundar os primeiros álbuns, combinando raridades com clássicos reinventados, foi uma aposta que exigiu coragem e que saiu vitoriosa. Os Iron Maiden não podem simplesmente deixar de tocar “The Trooper”, “Hallowed Be Thy Name”, “Iron Maiden” ou “Fear of the Dark” – são canções essenciais para a sua identidade e para a experiência do público, e a banda interpreta essas malhas com um entusiasmo contagiante, como se fossem faixas novas.

O veredicto final é unânime: uma noite para a eternidade. Em Lisboa, os Iron Maiden protagonizaram uma celebração da memória, do espetáculo e da resistência. A digressão “Run For Your Lives” é tudo o que o nome promete: uma corrida furiosa, mas meticulosamente coreografada, pelos territórios míticos do heavy metal.

A sensação com que se saiu da MEO Arena foi a de ter assistido a algo irrepetível, como assertivamente escreve José Miguel Rodrigues na LOUD! «Não por ser o fim de uma era, mas porque, como sempre, os Iron Maiden recusam-se a fazer duas vezes a mesma coisa. E é precisamente por isso que continuam a ser, tantos anos depois, uma das maiores bandas do mundo – e uma das que mais profundamente marcam a história do heavy metal em Portugal».

A setlist foi: Murders In The Rue Morgue; Wrathchild; Killers; Phantom Of The Opera; The Number Of The Beast; The Clairvoyant; Powerslave; 2 Minutes To Midnight; Rime Of The Ancient Mariner; Run To The Hills; Seventh Son Of A Seventh Son; The Trooper; Hallowed Be Thy Name; Iron Maiden; Aces High; Fear Of The Dark; Wasted Years. A foto de abertura é do Jorge Botas/Metal Global.

Um pensamento sobre “Iron Maiden, Apenas Mais Uma Noite Épica em Lisboa

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