Muito bem, apertem os cintos e preparem-se para uma viagem alucinante pelo mundo caleidoscópico de Rory Gallagher, um dos grandes e trágicos heróis da guitarra eléctrica e do rock ‘n’ roll.
Para o entender, é preciso primeiro mergulhar no meio das ondas tumultuosas da revolução cultural e da agitação social, nas profundezas obscuras da Irlanda em meados do coração pulsante do século XX, uma terra impregnada de tradição, mas pronta para a rebelião. Aí surgiu uma figura cuja essência encarnava o espírito feroz do seu tempo – um homem chamado Rory Gallagher.
Nascido a 2 de março de 1948, em Ballyshannon, no condado de Donegal, Rory Gallagher emergiu num mundo ainda a sofrer as consequências da Segunda Guerra Mundial. Mas entre os escombros e a ruína, havia música – uma força primordial que moldaria o destino de Gallagher desde muito cedo. Ele que estava estava destinado à grandeza desde o momento em que respirou pela primeira vez. Mas a grandeza, como Rory viria a descobrir em breve, não era um destino, mas sim uma viagem – uma viagem que o levaria dos pubs esfumaçados de Cork para os salões sagrados da imortalidade do rock ‘n’ roll.
Era uma viagem cheia de perigos e promessas, êxtase e agonia – uma viagem que definiria a própria existência de Rory Gallagher. Com a tenra idade de nove anos, Gallagher foi apresentado ao poder transformador da música quando encontrou um velho disco de blues na colecção do seu pai. A partir desse momento, ficou viciado – seduzido pelo fascínio hipnótico dos blues, com o seu poder cru e emotivo a correr-lhe nas veias como uma droga. Ele devorou discos de Muddy Waters, Lead Belly e Howlin’ Wolf, absorvendo seu poder bruto e emotivo como uma esponja. Foi assim que pegou na grande arma do pós-guerra, a guitarra.
Com a guitarra do pai na mão, Rory Gallagher embarcou numa odisseia de exploração musical para toda a vida – uma viagem que o levaria a percorrer a vasta extensão da paisagem do blues, desde os sons assombrosos do delta de Robert Johnson até à electrizante coragem urbana do South Side de Chicago. Mas não era apenas a música que cativava Gallagher; era o ethos por trás dela – a paixão desenfreada, o espírito desafiador de rebelião – que falava à sua alma inquieta. Ainda adolescente, Gallagher já era uma força a ter em conta na cena musical irlandesa. De guitarra na mão, percorria todos os pubs que lhe abriam as portas, libertando torrentes de blues-rock que deixavam o público fascinado.
Mas Rory Gallagher não era um mero imitador; ele era um alquimista musical, misturando elementos de blues, rock, folk e tradição celta numa mistura potente e absolutamente singular. O seu estilo de guitarra era algo de extraordinário – um turbilhão frenético de dedos e trastes que dançavam nas cordas com uma precisão e paixão extraordinárias.
Em 1966, Gallagher formou a sua própria banda e assim começou uma viagem em turbilhão que o levaria às alturas do estrelato do rock ‘n’ roll. Com os Taste, Gallagher lançou uma série de álbuns que mostraram os seus talentos prodigiosos como guitarrista e compositor. Malhas como “Blister on the Moon” e “Born on the Wrong Side of Time” encapsulam na perfeição a energia crua e visceral das actuações ao vivo da banda, uma energia que conquistou um público devoto em ambos os lados do Atlântico.
E, na verdade, para Rory Gallagher, o estúdio era apenas uma paragem na estrada para a transcendência musical. Era no palco – entre o suor, o fumo e o rugido ensurdecedor de paredes de amplificação e da multidão – que ele ganhava verdadeiramente vida. Os seus concertos eram assumiam-se como lendários, odisseias épicas de som e fúria que deixavam o público sem fôlego e a implorar por mais.
Um desses concertos, captado em filme no documentário seminal “Irish Tour ’74”, é um colossal marco do legado de Gallagher. Filmado durante uma digressão pela sua Irlanda natal, o documentário capta Rory Gallagher no auge dos seus poderes, um xamã guitarrista que conduz os seus seguidores numa peregrinação sónica através do coração e da alma do blues e, porque não, através do blue-eyed soul.
Os Mistérios da ‘The Strat’
E depois havia as guitarras – os instrumentos sagrados que eram extensões do próprio ser de Rory Gallagher. A principal delas era a sua amada Fender Stratocaster de 1961, carinhosamente apelidada de “The Strat”. Com o seu corpo marcado por inúmeras batalhas e a sua escala desgastada, esta guitarra icónica era a companheira constante de Gallagher, um corcel fiel no qual ele cavalgava o relâmpago noite após noite.
Aqui pedimos permissão ao site oficial do guitarrista. Rory Gallagher comprou esta guitarra por 100 libras em 1963, a crédito, ao proprietário da Crowley’s Music Store em Cork, Michael Crowley. Reza a lenda que esta foi a primeira Stratocaster a chegar à Irlanda, mas a história real de como Rory chegou a possuir a sua Fender Stratocaster de 1961 é algo interessante por si só. O anterior proprietário da guitarra era Jim Conlon, conhecido por ser o fundador e guitarrista de uma banda irlandesa chamada Royal Showband.
Alegadamente, Jim encomendou uma Stratocaster vermelha dos EUA, mas foi esta Sunburst que atravessou o mar, pelo que teve de usar a guitarra durante cerca de meio ano até que a vermelha chegasse. Depois de a Strat vermelha ter finalmente chegado à Ilha Esmeralda, a Sunburst foi colocada à venda na loja de Michael Crowley, que acabou por conhecer Rory e concordou em vender-lhe a guitarra em prestações.

A Strat de Rory veio da fábrica com três single-coils. Em média, na altura, um pickup oriundo fábrica da Fender media 6,19 kOhms. A Fender usava um fio de 0,0029″ de diâmetro e enrolava os ímanes à mão num total de 8119 voltas (mais uma vez, em média). Tudo isto é baseado na extensa pesquisa do guru Seymour Duncan (disponível em Vintage Fender Guitar Pickup Spec Info). Estes pickups originais permaneceram na Stratocaster de Rory Gallagher até ao início ou meados da década de 1970. Por volta dessa altura, dois deles foram danificados devido à humidade, enquanto o terceiro, o da posição do meio, permaneceu funcional.
Infelizmente o guitarrista nunca mencionou qual o modelo específico de pickups que acabou por substituir os originais. No entanto, o mais provável é que tenha usado pickups Fender de stock desse período de tempo e mantiveram-se nesta configuração até cerca de Julho de 1982. Nessa altura, o pickup da ponte foi novamente alterado e pode ter sido o mesmo que foi padronizado nas Fender Lead Series de 1979 a 1981. Isto baseia-se principalmente numa citação de Rory, na qual afirma que instalou um Fender Hot X100 na ponte em algum momento, mas como não existe um “Hot X100”, é provável que ele estivesse a referir-se ao Fender Lead II X1.
No entanto, também é possível que este pickup tenha sido retirado diretamente da 1979 Anniversary Stratocaster do arsenal de Rory Gallagher, que tinha capas pretas. É claro que também é possível que o pickup preto fosse algo completamente diferente de todas estas hipóteses. Aliás, a partir deste ponto, a saga sobre os PUs torna-se ainda mais num exercício de pura adivinhação: o modelo preto da ponte já não existia em 1984, o que significa que ou só a tampa foi mudada, ou que o antigo pickup desapareceu e foi substituído por um diferente; ao longo dos anos, Rory afirmava continuamente que tinha feito inúmeras alterações aos pickups.



Só anos mais tarde é que teríamos um vislumbre dos pickups reais dentro da Stratocaster de Rory Gallagher. Em meados da década de 2000, Kent Armstrong foi contactado pelo irmão de Rory, Donal, e pelo sobrinho Daniel sobre a possibilidade de recriar os pickups da Fender Stratocaster de 1961 de Rory. Kent abriu a guitarra, inspeccionou os pickups e concluiu que dois deles eram Fenders originais e o terceiro era um Fat Strat da DiMarzio.
É importante mencionar que o pickup na ponte poderia ser um Fender X-1. Rory chegou a afirmar que o preferia ao FS-1 e se olharem para esse pickup, vão reparar num fio amarelo soldado a ele. Tanto quanto sabemos, os pickups DiMarzio FS-1 não tinham fios amarelos, enquanto o X-1 da Fender tinha um. A outra explicação pode ser que a pessoa que instalou o pickup rebentou os fios originais e soldou novos, um dos quais amarelo.
Isto parece plausível porque, originalmente, os fios seriam soldados no topo da bobina e depois empurrados através do buraco para o fundo, enquanto que na Strat de Rory Gallagher foram soldados directamente no fundo. Para além disso, tanto o pickup do braço como o do meio têm fios que não são originais.
Outro indício que aponta para o facto de se tratar de um DiMarzio FS-1 e não de um Fender X-1 é o facto de o pickup da Strat de Rory Gallagher ter pólos escalonados, enquanto que,tanto quanto se sabe, os X-1 que equipavam os modelos Lead II tinham pólos planos. A razão para chamar a atenção para este facto é que, se isto estiver correcto, significa que, apesar de Rory ter afirmado que experimentou o FS-1, acabou por voltar a usar um Fender – algures entre 1985 e 1996, mudou de ideias em relação ao DiMarzio FS-1 e passou a usar exclusivamente PUs Fender de fábrica.
Continuando, e no que diz respeito aos pickups do meio e do braço – as datas que o Kent avançou após a inspeção correspondem ao período em que os pickups originais se avariaram, por isso é possível que os pickups do meio e do braço sejam os mesmos que ele tinha desde que os originais se avariaram, por volta de 1975. É claro que também é possível que os pickups tenham sido mudados várias vezes, e foi dito por Rory Gallagher que foram todos rebobinados, por isso, mesmo que sejam os originais Fender, o seu som foi um pouco alterado.
O pickup do braço, especificamente, parece ter uma bobina de plástico, com orifícios para parafusos salientes. Tanto quanto sabemos, estes foram instalados nas Strats Reissue dos anos 70 – tanto nos modelos American Vintage como nos modelos Classic Series, fabricados no México. Sobre o pickup do meio – é interessante que, apesar de o original de 1961 estar totalmente funcional nos anos 70, quando Rory Gallagher substituiu os dois que falharam, ele acabou por se livrar desse também.
Sobre o corpo, o braço e outros mods, por favor, visitem a minuciosa investigação do site oficial.

Mo Chroí
Apesar de todas as suas proezas musicais, Rory Gallagher permaneceu um tipo desarmantemente humilde e realista – um verdadeiro homem do povo. Evitou as armadilhas da fama e da fortuna, preferindo concentrar-se na sua arte e ligar-se aos seus fãs a um nível profundamente pessoal. Em 1995, o mundo perdeu um verdadeiro ícone musical quando Gallagher faleceu, aos 47 anos de idade.
No final, Rory Gallagher foi mais do que apenas um músico; ele era uma força da natureza, um turbilhão de som e fúria que varreu a paisagem musical como um furacão. E embora ele possa ter deixado este casulo mortal, o seu espírito vive em cada nota, cada riff, cada solo empolgante – um farol de luz num mundo envolto em escuridão. Uma saga de paixão, um testemunho intemporal do poder duradouro da visão singular de um homem e da ligação sagrada entre um músico e as suas guitarras.

Um pensamento sobre “Rory Gallagher, Born On The Wrong Side of Time”