Do fenomenal e vanguardista álbum de estreia aos vedetismos incessantes dos Jane’s Addiction. Uma carreira de alucinantes altos e baixos e uma discografia de apenas quatro discos.
A meio dos anos 80 surgiu uma das bandas mais provocantes na história do rock. Se os Guns N’ Roses se “industrializaram” após a estreia, os Jane’s Addiction mantiveram sempre uma postura marginal e tornaram-se um nome aglomerante a uma geração que o excêntrico vocalista, Perry Farrell, chamaria de Nação Alternativa.
Desde o início que banda manteve sempre acima de tudo a independência de atitudes, uma postura de contra-ciclo com a vontade das grandes empresas da indústria musical. Assim, mesmo quando, em 1987, a Warner surgiu com a proposta de editar a banda, os Jane’s Addiction optaram por lançar o seu primeiro disco de forma independente – foi assim que surgiu o álbum gravado ao vivo, com algumas sessões de overdub, com título homónimo. Só em 1988, a banda colocaria no mercado “Nothing’s Shocking”.
O título “Nothing’s Shocking” é quase a égide da postura da banda. Antes da entrada em estúdio, o vocalista Perry Farrell recusou-se a gravar enquanto não assegurasse cerca de 60% dos royalties do disco, uma vez que escrevia as letras, e ainda a percentagem que coubesse a cada música enquanto compositor. A somar a isso, as lutas com os excessos de consumo de substâncias e as desavenças entre os fundadores Farrell e o baixista Eric Avery, relacionadas com mulheres, provocaram logo aí a separação da banda! A Warner, que havia “comprado” o disco foi forçada a uma intervenção de emergência para garantir que a banda gravaria mesmo o álbum que a editora já havia sido adiado.
Todo este clima tornou o álbum único! É como se durante a sua audição percebêssemos a agressividade de cada músico, à procura de sobressair, mas o trabalho de Dave Jerden [que já havia conciliado egos como David Byrne e Brian Eno] na co-produção com Farrell harmonizou essa agressividade com uma tensão frágil, mas cortante como o vidro. Se este ambiente raramente resulta, quando sucede acaba por tornar-se em algo superior. Depois a essa atmosfera junta-se o grafismo lírico que lida com temas agressivos e pouco confortáveis para a sociedade norte-americana – numa altura em que o hard rock e o metal estavam a tornar-se um número de circo, este disco fez-se gémeo falso de “Appettite For Destruction”.
A fusão negra e psicótica dos riffs densos de guitarra e baixo com a voz estridente de Farrell, notoriamente em temas como “Mountain Song” ou “Summertime Rolls”, tornaram-se a génese da exploração que ouvimos de Tool a Smashing Pumpkings, de Faith No More aos grandes nomes de Seattle. É um álbum de gigantes, uma pedra angular na arquitectura de uma nova era no rock!
Fogachos
A banda aproveitou o momentum e apenas dois anos depois lançou “Ritual De Lo Habitual”. Contudo a coesão do álbum e das composições dos temas é já reflexo da fragmentação da banda, mesmo a nível pessoal de cada um dos elementos – Dave Navarro confessou andar “encharcado” em narcóticos durante os trabalhos de composição e pré-produção – e isso fez com que muitas ideias dentro de “Ritual De Lo Habitual” sejam apenas excêntricas, faltando-lhes muito do groove do primeiro trabalho.
A partir daí, a banda teve a primeira separação. Perry e Eric Avery tornaram-se inconciliáveis. Perry criou os Porno For Pyros, com o baterista Stephen Perkins, e Avery criou com Dave Navarro os Deconstruction (que acabou por não ter o impacto da banda dos outros dois antigos colegas). Mas Perry admite que não é fácil lidar com o seu ego e assim era possível especular sobre a saída de Perkins dos Porno For Pyros para criar o seu próprio projecto, Banyan. [Nesta década, um pouco à imagem dos Jane’s Addirtion, os Porno For Pyros, reniram-se e separaram-se ínumeras vezes]
Navarro passou, então, pelos Red Hot Chili Peppers. Quando o guitarrista e Flea, baixista dos Red Hot Chili Peppers, se juntaram a Perry em Porno For Pyros criou-se a atmosfera para uma reunião de Jane’s Addiction, com Flea no lugar de Avery, estávamos em 97. Contudo, a dependência por drogas de Perry Farrell impediu que este line-up fizesse muito mais que uma digressão.
Até que surge o novo milénio e a banda conseguiu juntar-se para gravar “Strays”. Avery recusou-se a integrar de novo os Jane’s Addiction e foi contratado Martin LeNoble, mas tornaram a surgir problemas e as linhas já gravadas de LeNoble foram eliminadas. Temeu-se pelo álbum até surgir Chris Chaney. “Strays” mostrou-se um álbum, ainda que longe do nível do primeiro, bastante entusiasmante, exuberante em alguns momentos. Surgia como um recapitular, uma nova vida para a banda, com a comunhão de material antigo e novas propostas para o som da banda, com uma atitude muito glam em alguns momentos. Uma vez mais a banda acabou por se separar, Dave Navarro anunciava que os motivos eram os mesmos de sempre.
The Great Escape Artist
Mais cinco anos passaram e tornou a haver luz. O mau sangue foi drenado e Avery reuniu-se no line-up original para uma digressão conjunta com NIN. A esperança num novo trabalho ganhou consistência, mas no final da digressão Avery encerrou de vez, nas suas palavras, o assunto Jane’s Addiction.
Os restantes três elementos tornaram a contactar Chaney e dirigiram-se a estúdio para trabalhar em “The Great Escape Artist”. «Abraçámos um pouco a electrónica no “The Great Escape Artist”, uma boa mistura entre o mundo electrónico, o processamento, com a energia crua e a ferocidade do palco. Não sei, exactamente, dizer-te aquilo que podes esperar. É um disco diferente de Jane’s Addiction, ainda nunca nos repetimos nos trabalhos anteriores. É muito emotivo e poderoso».
Essas palavras no parágrafo imediatamente anterior foram-nos proferidas pelo guitarrista, no backstage do Alive’11. Perry, Perkins e Dave Navarro, com o baixista Chris Chaney, vieram tocar ao nosso país, ainda plenos de um certo espírito glam, como aquiescia Dave Navarro nessa conversa na antecâmara do concerto. «Sim, posso concordar. Sabes, somos quatro pessoas. Ainda que não sejamos glam per se, cada um de nós tem os seus próprios gostos e isso mantém-nos com um pé dentro desse género, talvez mais o Perry, que tem uma postura mais excêntrica. Contudo, mantemo-nos fiéis a nós próprios, no final é essa mistura que faz o som da banda».
A banda investiu em grande nesse disco, que foi sofrendo retrocessos e mudanças de line-up. O resultado final é menos agressivo que o antecessor “Strays”, com o som muito mais estilizado e com mais ganchos melódicos nos temas, mas de qualquer forma esse é um caminho que vinha a ser trilhado desde que saiu o estrondoso álbum de estreia da banda. Ainda assim é um álbum à altura do legado dos Jane’s Addiction, com temas como “End To The Lies”, a suave “Irresistible Force”, “Ultimate Reason” ou o tema que encerra o disco, “Words Right Out Of My Mouth”, que é Jane’s Addiction puro.
O título do álbum foi explicado pelo vocalista Perry Farrell como a capacidade de «poder escapar ao passado, apesar de o meu ter sido bom», ao que acrescentou, na altura e em declarações à Rolling Stone, gostar do futuro ainda mais, dando pistas sobre novas influências no som da banda.
Perry reafirmava que o título “The Great Escape Artist” prenunciava uma vontade de escapar às expectativas sobre o passado musical da banda e a forte componente electrónica presente no disco é o rosto maior deste “artista da fuga” – com exemplo máximo em “Twisted Tales”, que soa perigosamente dentro duma atmosfera Linkin Park, ou “Splash A Little Water On It” uma fusão desse sentido com aquele feeling de balada do hair metal.
Resumindo, não se compara a “Nothing’s Shocking” e é mais fácil de ouvir que “Ritual De Lo Habitual”, como já o fora “Strays” cujo sentido mais melódico este último trabalho potencia mais. Quanto a fugir ao passado, em Setembro de 2024, parece por demais evidente que isso jamais sucederá…
