Nile

Nile, The Underworld Awaits Us All

Tal como o número, o décimo álbum dos Nile é perfeito. Brutal, transportador de grooves tão demolidores quanto retorcidos e de uma enorme escala sónica, “The Underworld Awaits Us All” entra directamente na galeria dos melhores trabalhos dos brutais egiptólogos.

Os ícones do death metal norte-americano Nile estrearam o seu 10.º trabalho “The Underworld Awaits Us All”, via Napalm Records, no dia 23 de Agosto de 2024. Um dia que, nas datas da egiptologia, assinala execução de Marco António Antíloco, o filho mais velho de Marco António, e de Cesário, o último rei da dinastia ptolemaica do Egito e filho único de Júlio César e Cleópatra, após a invasão bem sucedida de Octávio ao Egipto. Esse evento é, de certa forma, um fim definitivo na longa história do colossal império faraónico e, curiosamente, remete-nos para o título do disco: “The Underworld Awaits Us All”

Ostentando um tecnicismo hermético e uma brutalidade implacável, o novo álbum leva cada membro dos Nile – o guitarrista fundador Karl Sanders, o mestre baterista de longa data George Kollias, os guitarristas Brian Kingsland e Zach Jeter, e o baixista Dan Vadim Von – aos seus mais alargados extremos, tanto na arte como no desempenho.

Mais uma vez produzido e gravado no Serpent Headed Studios de Sanders em Greenville, Carolina do Sul, a banda regressou ao engenheiro de “Vile Nilotic Rites”, Mark Lewis (Cannibal Corpse, Dying Fetus, Whitechapel) para a mistura e masterização. Muito brutal death metal, como qualquer fã do género sabe, tende a ficar algo diluído no “triturador” da mistura, por meio de instrumentos que se aglomeram uns nos outros. Este álbum tem clareza e articulação sónica verdadeiramente espantosas. A separação de frequências parece ter estado definitivamente em primeiro plano durante todas as fases, desde a gravação à mistura e à masterização.

A arte deslumbrante de “The Underworld Awaits Us All” foi, mais uma vez, imaginada e criada por Michał ‘Xaay’ Loranc, como uma referência à eterna recorrência, ao ciclo da vida e ao julgamento no seu final. E, de facto, contemplando o fim aparentemente inevitável do planeta, os Nile não perdem absolutamente nenhum tempo com histriónicos em “The Underworld Awaits Us All”, destilando as suas tradicionais tempestades egiptológicas até à sua essência mais simplificada.

A entrada no olho do furacão, “Stelae of Vultures” causa um impacto imediato com acordes de guitarra dissonantes e uma bateria sobrenatural, provocando a evisceração auditiva que está para vir. Com gritos desesperantes e guturais arrasadores, “Chapter for Not Being Hung Upside Down on a Stake in the Underworld and Made to Eat Feces by the Four Apes”, soa como uma serra sinuosa de morte brutal que cita o capítulo 181 do Livro dos Mortos egípcio.

A malha mais sucinta do álbum, “To Strike with Secret Fang”, mistura punição de graves com inspiração de blackened death metal, antes dos destaques do álbum (quiçá os maiores) como “Naqada II Enter the Golden Age” e “Overlords of the Black Earth” trazerem um sentido de revivificação com experimentação de thrash e fusão jazz, bem como coros humanos reais – acrescentam algo de elemental e ainda mais visceral ao som dos Nile.

“The Underwoorld Awaits Us All” é facilmente o melhor álbum dos Nile em, pelo menos, década e meia ou duas décadas – para colocar ao lado de “Annihilation Of The Wicked”. Cada malha (malhão, aliás) é um tour-de-force técnico – com a bateria extrema de Kollias a definir o pico da sua carreira, bem como solos incendiários dos três guitarristas activos e uma exploração palpável do baixo, com a inclusão polirrítmica dos elementos folclóricos num novo patamar de bom gosto e integração com as estruturas mais brutais.

Ao longo das 11 malhas e interlúdios intrincados, os Nile escrevem um manual de domínio de velocidade shredder e musicalidade de extrema ferocidade. Karl Sanders e os seus homens abrem caminho através de reinos sobrenaturais com uma escala quase cinematográfica. A carnificina apenas é atenuada ocasionalmente pelas já referidas passagens acústicas e trechos ambientais que lembram os álbuns a solo de Karl Sanders. Um exemplo perfeito desta equação é o pináculo “Under the Curse of the One God”, que combina atmosferas sinistras com um ritmo alucinante e acrobacias de riffs absolutamente viciosos.

Trinta anos após o início do seu reinado, “The Underworld Awaits Us All” prova que os Nile permanecem indisputados no trono de Memphis.

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