Nile

Nile, O Verdadeiro Submundo

Num RCA apinhado e com uma atmosfera febril e sufocante, os Nile ofereceram a Lisboa um ritual devastador de death metal, executado com brutalidade e groove inumanos. Uma noite em que as fronteiras do underground e de Duat, o verdadeiro submundo egípcio, se esbateram.

“The Underworld Awaits Us All” foi editado no dia 23 de Agosto de 2024, através da Napalm Records. À excepção da bateria – captada nos Esoteron Music Studios, em Atenas, na Grécia, com Jim Touras e George Dovolos -, o 10.º álbum de estúdio dos Nile foi gravado e produzido pelo guitarrista e líder da banda Karl Sanders, no Serpent Headed Studios, em Greenville, Carolina do Sul, nos Estados Unidos. O material foi depois misturado e masterizado por Mark Lewis no MRL Studios e a arte da capa foi criada pelo artista Michal “Xaay” Loranc, que tem colaborado com o grupo durante a última década.

Os faraónicos titãs do death metal encetaram uma digressão europeia para promover ainda o disco anterior. «Estou absolutamente empolgado com a notícia de que os Nile vão finalmente regressar para mais uma digressão pela Europa. Foda-se, sim! Vai haver metal com fartura, acreditem», afirmou um entusiasmado Sanders em comunicado à imprensa. Por seu lado, o baterista George Kollias acrescentou: «Está mais que na hora de conquistarmos novamente a Europa e eu não podia estar mais entusiasmado com este anúncio! Esta vai ser uma grande digressão. Estamos super famintos para voltar a andar na estrada pela Europa e estamos ansiosos por ver todos os nossos fãs!»

Duas datas da Underworld Europe Tour 2023 decorreram em Portugal, no RCA Club, em Lisboa, e no Hard Club, no Porto, nos dias 20 e 21 de Setembro, respectivamente. A ROMA INVERSA esteve no ritual lisboeta. Um evento da Notredame Productions que, ainda que já tenhamos visto o RCA mais apinhado, estava ao barrote e ficou efervescente, após o aquecimento cortesia dos Monastery, dos Intrepid e dos Hideous Divinity.

Puerilidade

Permitam-nos um preâmbulo para falar da jovem banda da Estónia. Se muitos ficaram com olhares de desconfiança ao verem surgir em palco os putos (nenhum ultrapassa muito os 20 anos de idade, se os ultrapassa de todo) que formam os Intrepid, no final ninguém desejava que o seu alinhamento fosse algo tão reduzido. Tornou-se imediatamente evidente que os miúdos são uns músicos do caracinhas, com o excesso de talento a compensar a falta de rodagem.

Death metal old school cheio de bom gosto, a dadas alturas aproximado ao híbrido thrash/death dos trabalhos mais vespertinos dos Sepultura, sem escassez de riffs e dinâmicas entre as duas guitarras. Noutros momentos arrasaram em estruturas death/grind avassaladoras, sempre com um tremendo groove. A dada altura, um gajo sentia-se no início dos anos 90, quando uns imberbes Amorphis também espantaram meio-mundo.

Mais rodados, os Hideous Divinity, por comparação, soaram genéricos e estéreis. De qualquer forma, os italianos souberam manusear o ambiente que lhes foi extremamente favorável. Com o RCA Club cada vez mais apinhado, bastou-lhes ser competentes. Então a atmosfera na sala tornou-se febril de antecipação, quando começaram a soar as contemplativas notas mediterrânicas dos trabalhos a solo de Karl Sanders.

Talvez Existam Outras Divindades

Quando surgiu o início em breakdown, seguido dos arrasadores riffs meio arpegiados de “Sacrifice Unto Sebek”, duas coisas eram tão certas como o facto que, mais cedo ou mais tarde, todos estaremos na Sala das Duas Verdades, ladeados por Anúbis e Tot, e enfrentaremos a Psicostasia. A primeira é que o som estava com volume, densidade e recorte assinaláveis, como se o potencial técnico do PA do RCA Club estivesse acima das suas reais capacidades; a segunda é que o concerto ia ser demolidor em todas as vertentes.

A sala estava ao barrote; o calor fazia-nos sentir claustrofóbicos, como que num ritual profano em catacumbas esquecidas (sejam indulgentes com esta excessiva romantização do underground da música extrema); o som estava tão equilibrado que os samples vocais da fenomenal “Defiling the Gates of Ishtar” se sentiram grandiosos, redimensionando de modo épico o ataque brutal da parede de amplificação dos Nile e a trovejante prestação de George Kollias. Dan Vadim Von foi monstruoso, mantendo guturais oriundos do fundo do poço durante toda a actuação, aspecto em que esteve bem secundado por Sanders e Zach Jeter. Além do dinamismo vocal, os guitarristas nunca deixaram um espaço harmónico ou uma nota por soar, mesmo sem a presença de Zach Jeter.

O vendaval de harmonizações das twin guitars de “To Strike With Secret Fang” introduziu-nos em “The Underworld Awaits Us All”. Se a sua reduzida cronologia – das malhas mais curtas da discografia da banda – revelou velocidade e ferocidade significativas, “Kafir!” foi absolutamente inumano nesses aspectos particulares. Foi a única malha de “Those Whom The Gods Detest” e relativamente a esse tipo de representação, ao contrário do que se esperaria, o mais recente álbum dos Nile só foi evocado mais uma vez, pouco depois, através de “Stelae Of Vultures”.

“In the Name of Amun”; “Lashed to the Slave Stick”; “Sarcophagus”; “Long Shadows of Dread”, um rolo compressor de maldições e horror provindo da mitologia egípcia que, no ambiente sufocante do RCA, criaram um certo estado de transe ritualista em que, simultaneamente, parecemos estar longamente cativos e tudo se passou a correr. Ao contrário do que, por vezes, sucede nos discos, em que a temática obsessiva dos Nile, as texturas mediterrânicas ou a emulação de ambientes extraídos de cenas do Livro dos Mortos, pode cortar a intensidade e agrassividade do seu death metal, no RCA foi tudo brutal!

O final foi absolutamente demolidor, com a imponência e groove de dois clássicos pertencentes ao panteão do death metal: “Annihilation Of The Wicked” e “Black Seeds Of Vengeance”. Os não iniciados, menosprezaram sempre este tipo de música e de músicos. Aqueles que são acólitos do género, que trilham as profundezas de Duat (ou Amenthes), o verdadeiro submundo, sabem que gemas de virtuosismo musical deste calibre ficam gravadas em fogo abrasivo no espírito, quando as contemplamos em noites como a do dia 20 de Setembro de 2024, no RCA Club.

A setlist dos Nile no RCA CLUB: Sacrifice Unto Sebek; Defiling the Gates of Ishtar; To Strike With Secret Fang; Kafir!; Call to Destruction; Vile Nilotic Rites; Stelae of Vultures; In the Name of Amun; Lashed to the Slave Stick; Sarcophagus; Long Shadows of Dread; Annihilation of the Wicked; Black Seeds of Vengeance

As fotos do artigo são cortesia do Jorge Botas/Metal Global.

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