Type O Negative

Type O Negative, World Coming Down

Os Type O Negative escreveram canções sérias noutros discos (“Red Water”, “Anesthesia”), mas nunca o fizeram numa escala tão intensa e impressionante como em “World Coming Down”. Há aqui uma sobriedade e uma sinceridade que ancora a restante discografia e redimensiona a banda liderada por Peter Steele.

Este é o melhor álbum que os Type O Negative alguma vez lançaram: apesar de não ter canções cativantes, com aquele sentido pop e fáceis de ouvir como “Black No. 1 (Little Miss Scare-All)” ou “I Don’t Wanna Be Me”, tem os malhões mais pesados, mais opressivos e, de certa forma, mais complexos e multifacetados que a banda alguma vez criou. Há uma óbvia falta de canções “divertidas” aqui, ao contrário do álbum seguinte, “Life Is Killing Me”, por exemplo, que é composto essencialmente de nada além do humor negro de Peter Steele.

Além disso, este é facilmente o álbum mais doom que os Type O Negative alguma vez lançaram, com cada faixa a ser uma torre de escuridão e miséria e com BPMs tão reduzidos que fariam uma multidão de bandas seguidoras de um certo doom metal tremerem nas suas botinhas góticas.

Existe uma certa diferença entre “gothic” e “goth”, com os Type O Negative a serem frequentemente evocados como um grande exemplo desta última. O “gothic” seria caracterizado pela imagem romântica e vitoriana que muitas pessoas associam ao termo, epitomizada pelo tipo de coisa que se vê na estética dos Cradle Of Filth, My Dying Bride, etc. Mas “goth” parece ser um termo mais frequentemente associado ao que o gótico era originalmente, em vez do que se tornou: uma extensão do punk focada na escuridão, depressão e algum nível de romantismo irónico.

Os Type O Negative encarnaram esse sentido goth nova-iorquino (no seu caso na derivação do punk hardcore) acima de qualquer outra banda: nas suas composições pressente-se Joy Division, Ministry ou Celtic Frost e não a estética genérica e pueril dos Lacuna Coil. Passavam os dias a embebedar-se e a falar sobre como tudo está fodido em bares pequenos e fumarentos, e não a remoer na sua vaga e platónica miséria existencial em castelos do período isabelino. Isso era demasiado subtil para os Type O Negative. Menos vida resulta em dor e tristeza, mais vida significa mais merda e idiotice.

Para os góticos tradicionais, os pós-punk, o romantismo nunca foi algo que merecesse preocupação e que valesse a pena ter os seus valores expostos e obcecados; era algo em que se tropeçava através das provações e tribulações normais da vida, e era igual e repugnantemente descartado quando se percebia o que era. E é assim a música dos Type O Negative: longos e monocromáticos lamentos de doom, rock e blues, interrompidos por breves fragmentos de melodia agridoce e sardónica que é abandonada quando as coisas se tornam demasiado bonitas. É uma coisa muito única que só esta banda foi capaz de captar, pelo menos com tal mestria.

Se “White Slavery” não vos transmite exactamente esta mensagem, provavelmente nunca a vão entender. A primeira música de verdade tem mais de oito minutos de duração, é descaradamente lenta, com um groove doom tal que é quase impossível de encontrar a batida, de tão agonizante e rastejante que é, com um conjunto de riffs completamente antipáticos que só têm um vago senso de melodia, mas um senso definitivo de desesperança sombria e passivo-agressiva.

É uma das faixas de abertura mais implacáveis que se pode ouvir; não é suposto ser apreciada, e não pode mesmo ser, pelo menos até que a primeira e breve explosão de melodia expluda aos três minutos, uma das poucas instâncias de beleza que os Type O Negative estão dispostos a permitir na sua música. De resto, é uma das músicas mais assustadora e voluntariamente feias que o metal já produziu. Esta canção e a faixa-título são os únicos épicos de “World Coming Down”; embora existam outras canções igualmente longas, nenhuma delas tem a mesma grandiosidade e a mesma desesperança que estas duas malhas.

Isto não é um fracasso: a intenção é que seja assim, e qualquer música mais abertamente bela do que esta destruiria o frágil ambiente musical que os Type O Negative tão cuidadosamente construiram neste álbum. É sobre isso este “World Coming Down”. Não é realmente sobre a construção da música, os riffs, as melodias, nada: é sobre levar-te de volta quando o ideal de “goth” estava presente. Isto não tem literalmente nada em comum com o estilo “gothic” Vitoriano ou do Romantismo. É suposto ser imundo, feio e completamente sem esperança e drogado. E consegue transmitir de forma notável esta atmosfera, tempo e lugar exactos.

Nos primeiros anos os Type O Negative tinham como principal objectivo transmitir as referências “goth”; os Type O Negative posteriores tinham como objectivo levar os estereótipos dessa cultura a um nível ridículo e divertirem-se. Mas este álbum foi o culminar dos esforços dos Type O Negative em direcção a essa imagem, depois das tentativas iniciais, cruas e punk, de a alcançar, e antes da desesperada ultrapassagem da mesma: este álbum, como se costuma dizer, é o ideal.

“World Coming Down” está muito perto de ser completamente desagradável. É feio, tocado de forma estranha, amelódico na maior parte do tempo e, em geral, extremamente lento, raiando a velocidade do funeral doom em muitos momentos. E devido ao seu desprezo pelo mundo, pelos padrões musicais e pelos últimos vestígios de beleza que possui, é uma obra-prima que cumpre na perfeição aquilo a que se propõe.

Os Type O Negative sempre foram, no seu âmago, uma entidade teatral. Todos os elementos são apresentados de forma dramática, levados para além dos limiares do que provavelmente consideraríamos disparatado, e através de uma combinação precisa de sarcasmo e seriedade, credíveis. O vocabulário musical é o mesmo: grandes e agitados acordes de metal alterados com pequenas curvas de blues e reviravoltas técnicas, dando à música um toque psicadélico, quase de pesadelo.

A bateria alterna entre batidas doom dolorosamente lentas e batidas rock e punk aceleradas, ambas as quais funcionam eficazmente porque são muito contidas: não há nada na bateria que tire a atenção das guitarras, sintetizadores e vozes, que são o coração da música. As teclas são utilizadas com moderação, como acentos de notas tónicas ou para preencher o espaço dinâmico quando as guitarras estão ausentes, muitas vezes trabalhando em conjunto com o groove crucial do baixo.

No final, porém, são as vozes que carregam a música dos Type O Negative: Peter Steele alterna entre o seu infame crooning baritonal e os seus altos abertamente melódicos, com a ocasional secção de gritos hardcore abrasivos para oferecer variação durante os segmentos mais agressivos. Mas esses segmentos são muito poucos e distantes entre si: a atmosfera aqui é uma espécie de misantropia efervescente e um belo tipo de dor que ainda não é “gothic” na forma como se apresenta.

Um dos principais problemas com as ilustrações de depressão e tristeza no metal é o facto de serem demasiado platónicas e imaturas. A maioria das bandas que as criam, claramente, nunca experimentou uma depressão genuína, pois não é algo nem sequer vagamente semelhante ao romance gótico que elas retratam. Os momentos atonais de Type O Negative captam a verdade: a depressão é muito mais uma miséria abstrata e descaracterizada do que algo belo.

Os riffs exprimem isso na perfeição: colecções amorfas e lânguidas de notas letárgicas e dissonantes, com apenas um fragmento de melodia em escalas menores para lhes dar um traço de emoção. E isso é tudo o que existe durante os períodos de uma depressão: um traço de emoção, mais uma memória do que é sentir do que qualquer sentimento em si. Mas a coisa mais incrível que conseguem fazer é nos segmentos abertamente melódicos, com a sua beleza agridoce que se enquadra no estilo gótico nova-iorquino e nos permite olhar para ele.

Esta beleza não é uma celebração de uma depressão, mas uma celebração da beleza em sítios feios. É a beleza nos desastres naturais, na inevitabilidade e, mais importante, no facto de que seremos esquecidos depois de morrer. Os Type O Negative celebram a nossa insignificância, o quão inexistente será a pegada que cada um de nós deixa no nosso mundo. Este é o equivalente musical de estar à beira do rio à noite e olhar com saudade para a cidade diante de si, rodeado de pessoas, e ainda assim a pessoa mais solitária do mundo. Isso tem a sua beleza.

A única vez que os Type O Negative tocaram em Portugal foi em 2007. Peter Steele, que tinha acabado de sair da prisão e vencido o seu vício em cocaína. Passara por um renascimento e professava-se a partir daí como católico romano. Talvez seja demasiado especulativo referir que perpassava um certo desespero e apatia na sua actuação: a maioria das notas do seu baixo eram marteladas e ele parecia não querer estar ali, apesar do ritmo acelerado e (mais) divertido das canções. Como se fosse invadido por uma certa depressão, enquanto olhava para a plateia do Coliseu dos Recreios, preenchida por miúdas góticas, todas aperaltadas para o seu concerto.

«Isto não é o que eu queria», percebendo no final do concerto que o seu humor falhara ao ver todas essas miúdas na plateia a cantar deliciadas “Black No. 1 (Little Miss Scare-All)”, completamente inconscientes, ou talvez nem se importando minimamente, que a letra era directamente sobre elas e as suas manias ridículas. Peter Steele não gostava de tocar o material de “World Coming Down” porque o fazia lembrar-se da pior parte da sua vida: ninguém fazia ideia de que era um álbum sobre o que estaria para vir…

Texto traduzido e adaptado do original de Noktorn.

Um pensamento sobre “Type O Negative, World Coming Down

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